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Por: José Manuel Fragoso (Zefra)

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Baltazar Lopes da Silva, grande Homem de Letra, jurista, linguísta e nacionalista, muito fez pelo crioulo, foi uma das vítimas da PIDE, ao ponto de ter que deixar de ser Professor Universitário em Portugal e regressar a Cabo Verde. Mas da sua ilha natalícia, São Nicolau, só deixou a obra-prima "Chiquinho" como memória, além de ter na sua certidão de nascimento... nascido em São Nicolau.

O seu Busto, assim como a atribuição do seu nome a um dos maiores Liceus do pais, em São Nicolau, são testemunhas do "dilema" ou "afronta" que vive a população Sanicolauenses em relação à figura do Dr. Baltazar Lopes da Silva. Com efeito, tornou-se, num radical mindelenses, bairrista, ignorando por completo São Nicolau e sua população, tomando posição no regime colonial como Reitor do Liceu Gil Eanes, em São Vicente, para que não houvesse liceu nenhum na Praia capital de Cabo Verde !!! Testemunhos da época corroboram esta incompreensível atitude, que mostra sinais de desnorteamento, consciente ou inconscientemente, de um vulto quão brilhante foi durante a sua permanência em Portugal.

Quanto à população de São Nicolau conviver com esta personalidade, é uma "afronta", pois se numa viagem de avião tendo feito escala em São Nicolau, nem sequer teve respeito de descer de avião e pisar a "TERRA MÃE", para culminar com escolha da sua derradeira morada em São Vicente. É por isso que falamos em desmistificar, pois alguns Sanicolauenses, eruditos e estudiosos continuam ainda idolatrando esta personagem controversa, cada um justificando, à sua maneira, as respectivas posições.

Agora, para nós Praienses, como se constuma dizer "quem não sente, não é filho de boa gente", a nossa posição é de quem sente, porque somos filhos de gente boa, nunca poderemos esquecer quão mal a posição bairrista desta personalidade fez a nossa Praia (e não só ...), tomando decisões de recusa como Reitor do Liceu Gil Eanes, São Vicente, aquando da primeira tentativa do pedido da criação do Liceu daPraia, em 1951/52, sendo deputado da Nação (do antigo regime colonial) Adriano Duarte Silva de São Vicente, com argumentos do tipo:

a) Não há necessidade;
b) Na Praia, há duas Escola profissionais (oficina de mecânica e oficina de serralharia), e uma Escola Agrícula sendo Santiago uma ilha essenciamente voltada para agricultura.

Ora, com insistência de alguns notáveis Praienses, em 1955/56 foi aberta uma extensão do Liceu Gil Eanes (de São Vicente) na Praia a funcionar num dos edifícios da casa Serbam, gentilmente cedido para este este efeito, com uma consequência desastrosa:

1. Só quem tinha posses podia prosseguir os estudos (mais exactamente completar o curso secundário em São Vicente);
2. Muitos daqueles que não puderam ir a São Vicente, por não terem condições económicas para tal (há vários testemunhos), tornaram-se excelentes profissionais na Função Pública, na Administração, nas Finanças (na altura chamada "Fazenda"), no Banco, nas Alfândegas, etc... 

A relação Liceu da Praia/Adriano Moreira se estabeleceu desde o inicio dos anos 50, quando, durante a execução do "Luso Tropicalismo" (de Gilberto Freyre), institucionalizado em 1950, como Iderário do Estado Novo e das Universidades, ele defendeu a criação do respetivo Liceu.

Em 1955, o presidente da República, Craveiro Lopes, visitou Cabo Verde, acompanhado do Ministro de Ultramar, Dr. Sarmento Rodrigues, sendo deputado de Cabo Verde o Dr. Bento Levy (BL). Este, pressionado por alguns notáveis da capital providenciou um encontro entre o Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, e seis jovens da Escola António de Pada Macedo, mais conhecido por "Senhor Tonas", a quem o senhor Ministro teria perguntado: "Meninos, querem ter um Liceu?" A resposta foi "claro que sim"!!!

Assim sendo, começou a contrução do Liceu da Praia em 1956, cuja obra foi concluída e inaugurada em 1960, mais precisamente a 10 de Junho de 1960, data de aniversário dos quinhentos (500) anos da morte do Infante D. Henrique, com o nome de Liceu Nacional da Praia, pelo Senhor Governador do Arquipélago, Tenente Coronel Silvino Silvério Marques, sendo Prof. Adriano Moreira, Sub-secretário do Estado Ultramar desde 1959. E, precisamente em comemoração do quinto (V) centenário da morte do Infante D. Henrique foi inaugurado o Liceu Nacional da Praia (a princípio, o que demonstra que se tratava de uma questão relcionada com a História passada de Cabo Verde e com a evolução do ensino no Arquipélago).

É de notar que na pracinha do Liceu o monumento edificado continha de um lado:
a) V centenário da morte do Infante D. Henrique;
b) Do outro lado a 1460-1960

Nomeado Ministro do Ultramar em 1961, o Prof. Adriano Moreira visita Cabo Verde em Agosto/Setembro de 1962. Por decreto de 05 Setembro de 1962, ele reconduziu o Tenente Coronel Silvino Silverio Marques como Governador da Provincia. Em reconhecimento ele atribuiu o nome do Professor Adriano Moreira ao Liceu da Praia, para grande satisfação dos Praienses e não só.

Se, actualmente, injustamente o Liceu da Praia mudou o nome para Domingos Ramos, queremos prestar justa homenagem ao Prof. Adriano Moreira, esperando que tão cedo a História seja reposta, e que o Liceu do Plateau retome o seu verdadeiro nome, isto é, LICEU ADRIANO MOREIRA.

OBS: Assim como Diogo Gomes retomou o seu lugar, temos esperança que o nosso Liceu retomará o seu nome brevemente.

Autor: Zefra
Nome artistico do Dr. José Manuel Fragoso
Médico Cirurgião Sénior Hospital Agostinho Neto (HAN)
Praia, aos 11 de Dezembro de 2019

 

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Comentários  

0 # Kulundjulu575 05-01-2020 23:57
Ó tempo volta prá trás
Traz-me tudo o que eu perdi.......
.......
.......
Responder
0 # JB 13-12-2019 04:06
Nao me estranha que Baltazar Lopes da Silva, assim como a maioria dos sanvicentinos e outros do barlavento dessa epoca tivessem essa opiniao e atitudes com relacao a Praia / Santiago. Ate esse para quem nao nutro de admiracao alguma Antonio Aurelio, quando falava de Santiago/ Praia, segundo alguem que com ele conviveu, dizia "aquilo ainda cheira a TanTan" comcerto desprezo. O sentimento continua ainda hoje entre muitos. Contudo, ninguem consegue estar longe de Praia / Santiago se a vida lhe de essa chance. Como somos de coracao grande podemos receber a todos mas por favor nao comecem a empurrar-nos senao poderemos usas as nossas es[censurado]s.
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+2 # Txibisko 13-12-2019 01:39
Tenho grande consideração pelo Dr. Adriano Moreira, um dos grandes intelectuais de Portugal. Um pensador político de excelência. Contudo, nasceu numa época que lhe manchou o percurso e a sua ligação com Cabo Verde não é uma história de amores como do articulista quer fazer passar. Se por um lado construiu-se o Liceu, por outro reabriu o "Campo de Trabalho de Chão Bom" pela infame Portaria n.º 18539, de 17 de junho de 1961. Não tente branquear essa figura do Fascismo Salazalarista. Curiosamente dos poucos desse regime que se metamorfoseou num democrata e para limpar a sua imagem em relação a Cabo Verde, lançou-se com Mario Soares numa cruzada de apadrinhamento da adesão de Cabo Verde na UE. https://www.rtp.pt/noticias/pais/mario-soares-e-adriano-moreira-querem-arquipelago-na-uniao-europeia_n7291 http://www.afrol.com/articles/15926 https://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano_Moreira#O_Campo_de_Trabalho_de_Ch%C3%A3o_Bom
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-2 # Terra Longínqua 12-12-2019 20:21
AA única coisa desnecessária é trazer académiciens a um artigo de opinião. Já disse isso N vezes e ninguém me ouve. Um artigo de opinião tem valer por si mesmo.
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0 # Terra Longínqua 12-12-2019 20:16
Excellente e pertinente artigo. D'ar a casa o seu e assim ficamos e sorridentes. Parabéns!!!
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