
Em democracia, alternância não é um castigo. É um mecanismo de higiene política. Depois de muitos anos de um mesmo ciclo governativo, o país precisa de perguntar a si próprio se ainda existe energia reformadora ou se estamos apenas a assistir à repetição das mesmas fórmulas, dos mesmos nomes e das mesmas promessas.
Acordei ontem com uma curiosidade política digna de registo. Algures nas redes e nos corredores virtuais da opinião ligeira, alguém decidiu montar um governo fantasma. Um exercício hilariante de imaginação onde, para minha surpresa, incluíram também o meu nome nessa arquitectura imaginária de um próximo governo.
Confesso que a notícia me arrancou valentes gargalhadas. Ultimamente tenho sido presenteada com estas pérolas. Até o próprio Vice-presidente da Assembleia Nacional fez há dias, uma publicação na sua página de Facebook, usando a minha foto de perfil, e apelidando-me de “Milícia Digital”…enfim!
Este episódio de ontem, revela algo curioso sobre a forma como discutimos política em Cabo Verde e a maneira como personalizamos tudo.
Como se governar fosse um acto solitário e se um país fosse conduzido por uma única pessoa.
Não é!!
Nenhum líder governa sozinho. Um governo é uma equipa. É uma bancada parlamentar, um grupo de ministros, secretários de Estado, técnicos, assessores e dirigentes que, em conjunto, dão forma às decisões que afectam a vida de um país inteiro.
Convém lembrar isto neste momento em que Cabo Verde se aproxima de mais um ciclo eleitoral.
Ulisses Correia e Silva governa há quase uma década. Naturalmente não governa sozinho, mas governa com uma equipa que conhecemos bem. Embora ache que muitos já deram provas de terem sido erros de casting.
Ao longo destes anos, as mudanças no governo foram poucas e a estrutura manteve-se praticamente a mesma. E é precisamente isso que me preocupa num eventual terceiro mandato do actual governo. Temo que o país assista novamente à mesma lógica, os mesmos nomes, os mesmos ministros, ou até alguns já conhecidos a serem repescados. Esta opção não quero nem pensar…
O problema não é apenas o tempo que este governo está no poder. É a necessidade de alternância política. Cabo Verde precisa de uma nova estratégia e de nova aragem.
Já se começa a notar rotina, desgaste e falta de visão.
Quando olhamos para a actual bancada parlamentar do MpD, e no universo do partido, são poucos os nomes que inspiram verdadeira confiança política ou intelectual. Há protagonismos ocasionais, há muito ruído mediático, mas para mim, escasseiam vozes que transmitam visão estratégica, profundidade e independência de pensamento. E um país não se governa apenas com disciplina partidária.
Governa-se com capacidade, com ideias e com gente que inspire credibilidade.
É por isso que, quando se fala da possibilidade de uma alternativa liderada por Francisco Carvalho, a questão mais relevante não deve ser apenas o nome do líder do maior partido da oposição, mas sim, quem está à volta dele.
Olhando para o conjunto de pessoas que orbitam à volta de Francisco Carvalho e do próprio partido, percebe-se que existe um número considerável de quadros com experiência, pensamento crítico e capacidade técnica.
Isso não significa que tragam soluções milagrosas; significa que há massa crítica suficiente para formar uma equipa governativa credível, capaz de introduzir renovação, debate e energia política num sistema que começa a mostrar sinais de fadiga.
Em democracia, alternância não é um castigo. É um mecanismo de higiene política.
Depois de muitos anos de um mesmo ciclo governativo, o país precisa de perguntar a si próprio se ainda existe energia reformadora ou se estamos apenas a assistir à repetição das mesmas fórmulas, dos mesmos nomes e das mesmas promessas.
Porque um governo não se mede apenas pelo seu líder. Mede-se pela qualidade da equipa que o sustenta.
E essa é, talvez, uma das perguntas mais importantes da política cabo-verdiana neste momento: Quem tem hoje a equipa mais credível para governar Cabo Verde?
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