O Silêncio Jovem que Interpela a Democracia Cabo-verdiana!
Ponto de Vista

O Silêncio Jovem que Interpela a Democracia Cabo-verdiana!

O silêncio político da juventude cabo-verdiana não é um fim. É um sinal. Um sinal de alerta e, simultaneamente, uma oportunidade. Se for compreendido e enfrentado com seriedade, pode tornar-se o ponto de partida para uma democracia mais inclusiva, vibrante e à altura das novas gerações. Ignorá-lo, pelo contrário, seria aceitar uma democracia que fala cada vez menos com quem mais tempo tem para a viver.

Em Cabo Verde, a democracia é frequentemente celebrada como uma conquista sólida, marcada por eleições regulares, alternância no poder e estabilidade institucional. No entanto, sob essa superfície aparentemente serena, emerge um fenómeno inquietante: O crescente silêncio político da juventude. Esse afastamento não é apenas um dado sociológico. É uma interpelação direta à qualidade da nossa democracia e ao papel que os partidos políticos têm (ou deixaram de ter) na mobilização das novas gerações.

A juventude cabo-verdiana é numerosa, criativa e conectada. Está presente nas redes sociais, no associativismo informal, na música, na cultura urbana e no empreendedorismo. Paradoxalmente, está cada vez mais ausente dos espaços formais da política partidária. As taxas de abstenção entre jovens são elevadas, a militância juvenil nos partidos é frágil e o debate político institucional raramente mobiliza entusiasmo genuíno. O silêncio não é apatia pura. É, muitas vezes, desencanto.

Os partidos políticos, pilares do sistema democrático, têm dificuldade em dialogar com esta juventude. As suas estruturas continuam marcadas por hierarquias rígidas, linguagens envelhecidas e práticas pouco permeáveis à inovação. A juventude é frequentemente convocada como símbolo — em campanhas, em alas juvenis — mas raramente como sujeito com poder real de decisão. Quando a participação juvenil se limita a palcos e slogans, o resultado é previsível: Afastamento.

Há também um desfasamento entre as prioridades dos jovens e a agenda partidária. Emprego digno, habitação acessível, mobilidade social, qualidade do ensino, saúde mental, alterações climáticas e oportunidades num país pequeno e arquipelágico são temas centrais para quem inicia a vida adulta. Contudo, o debate político tende a reciclar conflitos, lideranças e narrativas do passado. Para muitos jovens, a política institucional parece falar de si mesma, não do seu futuro.

Este silêncio tem consequências profundas. Uma democracia que não escuta nem integra a sua juventude corre o risco de envelhecer mal. A ausência de jovens nos processos decisórios empobrece o debate, reduz a inovação política e fragiliza a legitimidade das instituições. Além disso, o vazio deixado pelos partidos pode ser ocupado por formas difusas de contestação, por desinformação ou por um individualismo cívico que abdica do bem comum.

Importa, porém, evitar leituras simplistas que culpabilizem exclusivamente a juventude. O silêncio é também uma resposta. Uma resposta a promessas não cumpridas, a trajetórias de mobilidade bloqueadas, à perceção de que o mérito nem sempre encontra reconhecimento. É um silêncio que fala — e que exige escuta. Romper este ciclo requer coragem e mudança. Os partidos precisam de se reinventar, não apenas em discurso, mas em práticas. Abrir espaços reais de participação, promover lideranças jovens com autonomia, atualizar linguagens e métodos, e construir agendas co-criadas com a juventude. A política precisa voltar a ser um espaço de possibilidade, não apenas de gestão do possível.

Por outro lado, a juventude cabo-verdiana também é chamada a transformar o silêncio em ação. A crítica é legítima, mas a democracia fortalece-se com participação. Seja através de movimentos cívicos, associações, plataformas digitais ou mesmo da disputa interna nos partidos, a presença juvenil é indispensável para reimaginar o futuro coletivo.

O silêncio político da juventude cabo-verdiana não é um fim. É um sinal. Um sinal de alerta e, simultaneamente, uma oportunidade. Se for compreendido e enfrentado com seriedade, pode tornar-se o ponto de partida para uma democracia mais inclusiva, vibrante e à altura das novas gerações. Ignorá-lo, pelo contrário, seria aceitar uma democracia que fala cada vez menos com quem mais tempo tem para a viver.

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