
O debate sobre a regionalização deve começar onde os desiquilibrios são mais visíveis. E, na Ilha do Sal, esses desiquilibrios são claros, mensuráveis e urgentes. A regionalização é uma oportunidade para corrigir injustiças, melhorar a governação e garantir que o desenvolvimento não se faz à custa da dignidade das pessoas nem da sustentabilidade do território.
A Ilha do Sal é hoje o maior exemplo das contradições do modelo de desenvolvimento excessivamente centralizado que vigora em Cabo Verde.
Somos, sem sombra de dúvidas, uma das ilhas que mais contribui para a economia nacional através do turismo. Geramos emprego, atraímos investimento estrangeiro, projectamos o país para o exterior. Esses benefícios são reais e não podem ser negados.
Mas é precisamente aqui que começa o problema.
A Ilha do Sal paga um preço elevado por esse sucesso, e esse preço tem sido sistematicamente ignorado pelas decisões tomadas, longe da ilha do Sal.
O crescimento acelerado do turismo trouxe consigo pressão insustentável sobre os recursos hídricos e energéticos, agravou o problema do lixo, expôs fragilidades graves na gestão ambiental, com a Reserva Natural de Ponta de Sno a sofrer mais uma baixa brutal), e intensificou problemas sociais graves, como a exploração laboral, a crise de habitação, alto custo de vida, a prostituição e o tráfico e consumo de drogas.
Estes não são efeitos colaterais inevitáveis. São consequências de um modelo de governação que não acompanha a realidade no terreno.
Hoje, decisões estratégicas sobre água, energia, ordenamento território, resíduos sólidos e políticas sociais continuam a ser tomadas de forma centralizada, sem capacidade de resposta rápida e ajustada às especificidades da Ilha do Sal.
Aqui a regionalização política deixa de ser um debate teórico e passa a ser uma necessidade prática e concreta.
A regionalização não é e nunca será dividir o país. É aproximar o poder às pessoas, é garantir autonomia politica e administrativa para gerir problemas que são locais, mas cujos impactos são profundamente nacionais.
No caso da Ilha do Sal, esta autonomia deve traduzir-se também numa reorganização do poder local.
Santa Maria já não é apenas uma localidade ou pequena cidade. É um centro urbano com dinâmica própria, com desafios especificos, com uma pressão turística incomparável no país.
Tratar Santa Maria como extensão administrativa é um erro político e uma injustiça institucional se olharmos para municipios como São Salvador do Mundo, por exemplo.
Defendo, por isso, que a Ilha do Sal avance para o modelo de dois municipios, com Sal-Espargos e Santa Maria enquanto municipios autónomos, capazes de planear, decidir e responder de forma eficaz às realidades distintas que enfrentam.
Dois municipios significam, melhor gestão do turismo, politicas ambientais mais eficazes, fiscalização laboral mais proxima, respostas sociais ajustadas e, claramente, maior responsabilização politica.
A regionalização politica, aliada a uma autonomia municipal reforçada, permitiria a maior parte dos beneficios económicos gerados na Ilha do Sal fosse reinvistida localmente, mitigando os impactos sociais e ambientais que hoje recaem quase exclusivamente sobre a população desta ilha.
Cabo Verde tem de entender que não pode continuar a beneficiar da Ilha do Sal, e ao mesmo tempo virar-lhe as costas.
O debate sobre a regionalização deve começar onde os desiquilibrios são mais visíveis. E, na Ilha do Sal, esses desiquilibrios são claros, mensuráveis e urgentes.
A regionalização é uma oportunidade para corrigir injustiças, melhorar a governação e garantir que o desenvolvimento não se faz à custa da dignidade das pessoas nem da sustentabilidade do território.
Caros concidadãos, é tempo de coragem política, é tempo de confiar nas ilhas, é tempo de dar à Ilha do Sal o poder de decidir sobre o seu próprio futuro.
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