
Estas eleições não devem ser vistas apenas como uma celebração simbólica de 35 anos de democracia e liberdade. Devem ser encaradas como um momento de viragem histórica. A oportunidade de fazer a transição de uma democracia ainda presa aos mesmos protagonistas para uma democracia adulta, participativa e verdadeiramente representativa. Dar espaço à juventude não é um favor, nem uma concessão partidária. É uma necessidade democrática. Sem isso, MPD e PAICV continuarão a repetir discursos vazios, enquanto o futuro do país permanece eternamente adiado.
Geração Nutella ou Reformados Gulosos?
Ao longo da história política recente, o discurso repete-se com uma regularidade quase automática, os jovens e as mulheres precisam conquistar o seu espaço na política. A frase ecoa em congressos, campanhas e declarações públicas, tanto no MPD como no PAICV. No entanto, quando se passa do discurso à prática, a realidade mostra outra face. A pergunta impõe-se: os desafios enfrentados hoje pelos reformados que continuam ativos na política são os mesmos que enfrentaram no seu tempo?
No passado, uma licenciatura bastava para legitimar competência e liderança. Hoje, num contexto social, económico e político muito mais exigente, um mestrado já é considerado pouco. Ainda assim, os principais cargos políticos continuam concentrados nas mãos das mesmas figuras, muitas delas claramente afastadas da realidade quotidiana da juventude cabo-verdiana.
Neste cenário, importa questionar os jovens do MPD e do PAICV vivem apenas de paixão partidária e discursos simbólicos?
Ou continuarão a aceitar que os jovens representem apenas cerca de 20% do Parlamento, funcionando mais como prova estatística de inclusão do que como uma verdadeira aposta política? Mesmo quando surge alguma abertura, esta traduz-se, quase sempre, na entrega de pastas consideradas “naturais” para os jovens como as pastas da Juventude ou Desporto, enquanto as áreas estratégicas do poder permanecem nas mãos dos mesmos reformados políticos.
Cabo Verde é, indiscutivelmente, um país jovem, mas essa juventude continua afastada dos centros reais de decisão. Falta o exemplo político de quem sabe largar o osso, abrir espaço e partilhar poder. A perceção generalizada é a de que, para muitos dirigentes, os cargos deixaram de ser um serviço temporário ao país e passaram a ser tratados como um direito adquirido, quase que vitalício.
É igualmente legítimo questionar o papel reservado aos jovens dentro dos partidos políticos: serão apenas ativistas, militantes de base e apoiantes eleitorais? Úteis para mobilizar campanhas, encher comícios e defender ideias alheias, mas raramente chamados a decidir rumos, estratégias e políticas públicas.
Importa sublinhar, não se trata de uma reivindicação pessoal. Não falo por mim. Falo por uma geração inteira que se recusa a continuar como espectadora da vida política. Uma geração que não quer ser adepta, nem suplente no banco. Quer ser jogadora em campo, com responsabilidade, voz ativa e poder real de decisão.
Estas eleições não devem ser vistas apenas como uma celebração simbólica de 35 anos de democracia e liberdade. Devem ser encaradas como um momento de viragem histórica. A oportunidade de fazer a transição de uma democracia ainda presa aos mesmos protagonistas para uma democracia adulta, participativa e verdadeiramente representativa.
Dar espaço à juventude não é um favor, nem uma concessão partidária. É uma necessidade democrática. Sem isso, MPD e PAICV continuarão a repetir discursos vazios, enquanto o futuro do país permanece eternamente adiado.
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