Integração competitiva ou a ingenuidade da dependencia logistica!?
Ponto de Vista

Integração competitiva ou a ingenuidade da dependencia logistica!?

É urgente acabar com as conferências sobre economia azul, definir e materializar investimentos estruturantes que libertem o país da dependência e criem soberania. O mar e a terra são as maiores riquezas nacionais, mas só se tornarão fontes de prosperidade se houver coragem política, visão estratégica e ambição financeira. Sem isso, continuaremos a importar aquilo que temos em abundância, presos ao papel e à retórica, celebrando como conquista aquilo que, na verdade, revela a nossa falta de ambição.

Com que então estamos celebrando esses pequenos passos!? Integração competitiva de quê? Será ingenuidade ou estamos realmente felizes? Onde está a competitividade se Cabo Verde continua a importar pescado do Senegal e frutas, verduras e outros vegetais frescos do Brasil, produtos que poderíamos produzir ou transformar industrialmente?

É importante sublinhar que não somos contra importações nem contra a exploração de novas rotas comerciais. Aliás, no presente contexto mundial, diversificar fornecedores é essencial. Esse mesmo contexto clama para a segurança e soberania produtiva alimentar.

Mas aqui o que se exige é consciência: criar em vez de contemplar, investir em soberania produtiva em vez de celebrar dependência como se fosse conquista. Se este for o nosso máximo, então a ambição nacional está perigosamente descartada. 

A Lição do Senegal

O Senegal mostra o caminho: investiu em portos, fábricas de farinha e óleo de peixe, conservas e logística de exportação. Hoje, o setor pesqueiro representa mais de 10% das suas exportações e gera centenas de milhões de dólares por ano.

O Senegal consegue vender para Cabo Verde aquilo que nós oferecemos quase de borla à União Europeia, sem valor agregado.

A diferença não está no mar, mas na estratégia: o Senegal construiu uma cadeia de valor que liga o pescador artesanal à indústria e ao mercado global.

Cabo Verde, por sua vez, continua a discutir em fóruns e conferências, sem materializar projetos que poderiam mudar o rumo da economia. 

O Paradoxo cabo-verdiano 

Cabo Verde possui uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas do Atlântico, mas não dispõe de fábricas de processamento, cadeias de frio e portos equipados para exportação.

O resultado é um país que pesca, mas não consegue conservar, transformar e comercializar em escala.

A integração regional, sem base produtiva, corre o risco de transformar Cabo Verde em consumidor passivo, em vez de produtor competitivo. 

Economia Azul de Papel Não Rende

São Vicente tem sido palco de inúmeros fóruns e conferências sobre economia azul. Multiplicam-se os painéis, relatórios e declarações, mas os resultados concretos permanecem invisíveis.

O país parece preso ao papel, incapaz de transformar intenções em investimentos tangíveis. Sem portos modernos, fábricas de frio e transporte eficiente, Cabo Verde continua dependente da importação.

Se não aprendermos a viver fora do papel, ficaremos para sempre aprisionados na dependência logística. Isto em todos os setores.

Projetos Estruturantes da Economia Azul Anunciados 

Ao longo desses encontros, várias iniciativas foram apresentadas como pilares da economia azul: 

- Centro de Investigação e Inovação Marinha, prometido como hub científico para estudar recursos oceânicos e apoiar políticas públicas. O que já foi concretizado em termos de edifício, equipa e produção científica? 

- Plataforma Logística Atlântica em São Vicente, anunciada como solução para transformar o Mindelo em nó de exportação regional. Quantos navios operam hoje sob essa plataforma? 

- Parque Industrial de Transformação de Pescado, previsto para criar fábricas de conservas e congelados. Quantas linhas de produção estão em funcionamento? 

- Programa de Formação Técnica em Economia Azul, destinado a capacitar jovens e pescadores. Quantos formandos foram integrados no mercado de trabalho? 

- Estratégia Nacional da Economia Azul, lançada em documentos oficiais e relatórios. Quais metas foram cumpridas e com que impacto mensurável? 

A lista é extensa, mas a concretização é mínima. O país continua a viver de anúncios e intenções, sem transformar o discurso em soberania real. 

O Que Realmente Nos Falta

Para sair da dependência, precisamos de: 

- Visão estratégica que defina a economia azul como eixo central do desenvolvimento. 

- Ambição financeira para mobilizar capital público e privado, nacional e internacional. 

- Infraestruturas logísticas modernas, incluindo portos, fábricas de frio e transporte marítimo e aéreo eficiente. 

- Quebra das prisões logísticas que mantêm o país refém da importação. 

- Formação e integração social que capacitem pescadores e técnicos, tornando o setor artesanal parte da cadeia de valor. 

É urgente acabar com as conferências sobre economia azul, definir e materializar investimentos estruturantes que libertem o país da dependência e criem soberania.

O mar e a terra são as maiores riquezas nacionais, mas só se tornarão fontes de prosperidade se houver coragem política, visão estratégica e ambição financeira.

Sem isso, continuaremos a importar aquilo que temos em abundância, presos ao papel e à retórica, celebrando como conquista aquilo que, na verdade, revela a nossa falta de ambição.

Artigo publicado pela autora no facebook

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