Israel tem “política deliberada” para impedir agência da ONU de levar ajuda alimentar para Gaza
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Israel tem “política deliberada” para impedir agência da ONU de levar ajuda alimentar para Gaza

Quem o diz é o próprio Comissário-geral da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente), Phillipe Lazzarini, denunciando que seis mil camiões estão prontos para levar ajuda alimentar para um período de dois meses, mas as autoridades israelitas não os deixam entrar. O número de crianças com subnutrição multiplicou-se por seis, nos últimos seis meses. E o objetivo de Israel é minar a solução de dois estados.

Lazzarini, que é também Subsecretário-geral das Nações Unidas, falava numa entrevista ao El Pais sobre a fome generalizada em Gaza desde 02 de março.

“Temos 6.000 camiões carregados entre a Jordânia e o Egito, prontos para serem enviados; isso equivale a dois meses de mantimentos para todo o enclave”, disse Phillipe Lazzarini, esclarecendo que os camiões deixados entrar pelas tropas israelitas, nas últimas semanas, não são os da UNRWA, e que “grande parte foi saqueada antes de chegar ao seu destino, não necessariamente por gangues armados ou bandos organizados, mas por pessoas desesperadas, famintas”, sublinha o Comissário-geral, considerando esta distribuição “indigna e injusta” porquanto “só os mais fortes conseguem chegar”.

Quanto à ajuda humanitária lançada do ar, Lazzarini diz ser “pelo menos 100 vezes mais cara do que os camiões, que podem carregar o dobro da ajuda que os aviões”.

Número de crianças com subnutrição multiplicou-se por seis

Pesem os alertas feitos por agências da ONU, nos últimos meses, não houve qualquer consequência. Estes sinais de fome generalizada foram detetados nos centros de saúde que a UNRWA mantém na cidade de Gaza, dando a conhecer que “o número de crianças com desnutrição aguda multiplicou-se por seis nos últimos seis meses”.

Ademais, Phillipe Lazzarini considera “obsceno” que já tenham sido mortas 1.500 pessoas “enquanto procuravam desesperadamente ajuda alimentar nos centros de distribuição criados junto a posições das forças de defesa israelitas, geridos pela infame Fundação Humanitária de Gaza”, uma organização criada por soldados israelitas e mercenários norte-americanos para substituir a UNRWA e organizações não governamentais na distribuição de alimentos e ajuda à população.

Temendo que a fome alastre da capital para o resto da Faixa de Gaza, o Comissário-geral da UNRWA alerta, ainda, para os níveis de violência e remoções forçadas “sem precedentes” da população.

Minar a solução de dois estados

Na entrevista ao El Pais, Lazzarini refere a campanha orquestrada pelo governo israelita contra a agência da ONU, iniciada antes de 2023, e que é “uma forma de minar a solução dos dois Estados, para alterar os parâmetros de qualquer resolução política futura do conflito”, sublinha.

Recorrendo a requintes de falácia e perversidade, a campanha israelita acusou a UNRWA de estar infiltrada pelo Hamas, o que teve efeitos imediatos, com a retirada do financiamento dos EUA e da Suécia à agência da ONU, e que representava um terço das suas receitas.

De todo o modo, Phillipe Lazzarini salienta o aumento da contribuição de países como Portugal, Espanha e Luxemburgo, além de um aumento sem antecedentes dos donativos privados que, não compensando as perdas, permitiu à agência manter as atividades básicas na Faixa de Gaza.

Interrogado sobre o futuro de Gaza, o Subsecretário-geral das Nações Unidas, diz que “ninguém sabe qual será” e que a grande questão é saber “se Gaza será ou não no futuro uma terra para os palestinianos”.

Num tempo em que se discute a expansão dos colunatos por parte de Israel, o líder da UNRWA defende um outro cenário, mormente, a reconstrução no âmbito da Iniciativa Árabe para a Paz, “o único em linha com a solução aceite pela comunidade internacional: a de dois Estados” - o de Israel e o Palestiniano.

Fonte: El Pais e imprensa internacional
Foto: UNRWA

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Redação