Europa bateu o pé e Trump encolheu-se
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Europa bateu o pé e Trump encolheu-se

Rompendo, pelo menos uma vez, um reiterado percurso de cedência às pressões do presidente norte-americano, a Europa, finalmente, bateu o pé, e Donald Trump teve de se encolher para evitar males maiores. Ao ameaçar vender a dívida dos EUA, os europeus chamaram a atenção de Trump e fê-lo recuar nas ameaças de anexação da Gronelândia. A retórica agressiva esbarrou na matemática. A mudança brusca da bravata para a incontornável realidade tem uma explicação simples: o inquilino da Casa Branca percebeu que, se a Europa levasse a ameaça avante, o dano seria incontrolável.

A Donald Trump só restou recuar, após vários dias a admitir uma possível invasão militar da Gronelândia, um protetorado da Dinamarca, país aliado dos próprios Estados Unidos da América (EUA). A ameaça militar veio na sequência de sucessivas advertências de novas tarifas caso os europeus não cedessem à chantagem.

Voltando atrás nas bravatas e infantilidades que lhe são características, o presidente dos EUA anunciou um "quadro de acordo" com a NATO e suspendeu as sanções. No entanto, não se conhecem detalhes do acordo e, para especialistas contactados pela CNN, o resultado é claro: Donald Trump recuou porque a Europa decidiu mudar de estratégia e apontar-lhe uma arma demasiado potente para ignorar, que poderia impactar diretamente a vida de milhões de norte-americanos.

Ameaça de venda da dívida gerou pânico na Casa Branca

Na última terça-feira, um dia antes do encontro de Davos, na Suíça, que juntou alguns dos principais líderes mundiais, os mercados estavam em queda livre, mas, após o líder de um fundo de pensões dinamarquês ter sugerido que ia vender a dívida americana, questionando a sua sustentabilidade, o resultado foi imediato e as taxas de juro a 10 e 30 anos atingiram os níveis mais altos desde setembro, gerando o pânico na Casa Branca.

Segundo referem vários especialistas, a possibilidade de a Europa começar a reduzir a exposição no mercado da dívida norte-americana estava a assustar os investidores, que olhavam agora para ela com mais incerteza. E apenas esse receio foi suficiente para disparar o preço que os norte-americanos têm de pagar pela dívida.

E o susto não é para menos, já que a União Europeia, como um todo, é de longe o maior credor, com oito biliões de dólares de dívida dos EUA, mais do dobro de todos os outros países do mundo.

Enquanto, em Davos, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, tentava desvalorizar a venda de títulos por um fundo dinamarquês, qualificando-a de "irrelevante", a reação do inquilino da Casa Branca, no canal Fox Business, contava outra história.

Em um tom notoriamente incomodado, Donald Trump prometeu uma "grande retaliação" caso a Europa se começasse a desfazer da dívida norte-americana, alegando ter ao seu dispor "todas as cartas", uma nova bravata para não ficar como perdedor do braço-de-ferro.

Retórica agressiva esbarrou na matemática

No entanto, a retórica agressiva esbarrou na matemática. Poucas horas após a entrevista ao canal Fox Business, Trump aterrava em Davos para anunciar que o conflito estava resolvido. A mudança brusca da bravata para a incontornável realidade tem uma explicação simples: o presidente dos EUA percebeu que, se a Europa levasse a ameaça avante, o dano seria incontrolável.

É que, uma venda coordenada da dívida por parte dos europeus, inundaria o mercado de títulos, forçando uma subida vertiginosa das taxas de juro de referência nos Estados Unidos, o que provocaria um efeito dominó imediato na economia real, com o crédito à habitação a ficar mais caro, os juros dos cartões de crédito a dispararem e o financiamento para a compra de automóveis a tornar-se incomportável para a classe média norte-americana.

Para Trump, que sustenta o seu discurso de sucesso na narrativa da prosperidade económica do país, o choque de juros elevados, em ano de eleições, poderia trazer consequências políticas para o partido do presidente.

Os problemas financeiros para a Casa Branca, causados pela venda de títulos do tesouro, trariam um risco ainda maior: o contágio. Se a União Europeia, o maior e mais fiável parceiro dos EUA, começasse a tratar a dívida norte-americana como um ativo tóxico ou uma arma política, isso enviaria um perigoso sinal para o mundo.

C/CNN Portugal
Foto: The White House

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