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Por: Paulo Veríssimo

 Paulo Veríssimo

Nasci em Calabaceira, Cidade da Praia, mas não tenho memórias de infância deste bairro, pois muito cedo os meus pais mudaram para Vila Nova. No entanto, fui batizado em Calabaceira, antes de completar um ano de vida. Meu padrinho, Mulatu karpinteru, foi escolhido pelo meu pai. Eram colegas de trabalho na antiga Empresa Estatal de Construção, EMEC. Minha madrinha, Ivete Sanena, foi escolhida pela minha mãe, dados aos laços de parentesco e de amizade que as uniam e unem até hoje.

Minhas memórias mais remotas de infância são todas do bairro de Vila Nova e são daí também as minhas lembranças mais antigas de convívio com o meu pai. Lembro-me, eu frequentava o pré-escolar em São Jorginho, que o meu pai vivia sempre numa ida e vinda, pois a EMEC tinha obras por quase todo o interior de Santiago e, no cumprimento das suas obrigações profissionais, deslocava-se sempre para acompanhar essas obras. Lembro-me também que ele tinha o hábito de me levar, muitas vezes, para visitar essas obras aos finais de semana.

À medida que fui crescendo, passei a acompanhar mais o meu pai. Ele passou a levar-me para assistir às partidas de futebol no Estádio da Várzea. Meu pai era e é adepto dos Travadores e do Benfica, clubes que passaram a ser meus de coração. Quando íamos ao Estádio da Várzea, ele dava-me sempre um dinheirinhu para que eu pudesse comer alguma coisa no intervalo dos jogos, o que era quase sempre freskinha ou mankara iladu. Nem sempre gastava esse dinheirinhu. Outras vezes, guardava para gastar com os meus colegas no intervalo das aulas.

O tempo foi passando e comecei a acompanhá-lo também nas partidas de oril. Às vezes perto de casa, outras vezes nas redondezas. Perto de casa era eu quem ia chamar os seus amigos para irem jogar oril e nas redondezas ia quase sempre avisá-lo da hora do almoço. Tanto numa como noutra ocasião, parava sempre para espreitar um pouco as partidas. Foi assim que aprendi e comecei a jogar oril. Quando ele se apercebeu disso, começou a dar-me alguns toques em casa nos fins-de-semana, particularmente nos meses de férias e dias de chuva. Nessas ocasiões, ficávamos ali a jogar e a passar o tempo.

Meu pai nunca foi de me visitar na escola e de falar com os meus professores, mas exercia sempre um forte controlo sobre o meu desempenho, acompanhando as minhas notas e censurando com o olhar de desaprovação quando as coisas não corriam bem. Mas ele sabia de tudo o que se passava. Afinal, estudava a dois passos de casa e o mínimo de deslize nas notas ou no comportamento era logo do seu conhecimento.

Comecei a interessar-me pela leitura ainda antes de ir ao liceu, até porque passava todo o tempo em casa quando não estava em aulas ou explicação. Passei a ler tudo o que encontrava pela frente e não havia muita coisa a ler na altura. Como o meu pai lia jornais, inicialmente Terra Nova e depois A Semana, comecei a ler de forma escondida esses jornais. Sim, porque os jornais eram para ele ler e depois a minha mãe guardar dentro de um cesto na sala. Meu pai começou a aperceber-se disso e a libertar um pouco mais os jornais para eu poder ler mais. A pouco e pouco, passei a ser um assíduo leitor de jornais. Ele lia e depois passava-me para eu ler também.

A pouco e pouco, como ele também lia alguns romances, passei também a lê-los. E ele foi-me arranjando mais livros para que eu pudesse ler; e quando acabasse era só avisar que ele me trazia mais livros. Assim, comecei a gostar cada vez mais de ler e passei a desenvolver alguma aptidão para a escrita. E isso ajudou-me bastante no meu desempenho escolar. Conseguia entender bem as matérias e, quando não entendia à partida, sempre podia ler e compreender. Conseguia boas notas, excepto em Inglês, e sobretudo em Matemática. Meu pai me dizia sempre: “Paulo bo é bera na Matemátika”.

Fui caminhando para o final do liceu com essas duas disciplinas como meu calcanhar de Aquiles, mas tinha um bom desempenho nas demais. Infelizmente, meu pai não estava presente na cerimónia de imposição fitas, quando fiz o sétimo ano dos liceus. Ele estava fora do país. Quem foi representá-lo nessa cerimónia foi o meu irmão (paterno) Zé Luís, mais velho do que eu. Minha mãe colou-me a fita e o meu irmão era o acompanhante. Ainda hoje, em casa da minha mãe, em Vila Nova, está guardada uma foto a perenizar esse momento, com ela de um lado e o meu irmão do outro, enquanto eu, ao centro, exibia uma batina preta, um chapéu vermelho e preto na cabeça e uma fita no peito.

Para além da ausência do meu pai, minha mãe também emigrou por razões de saúde e também para sustentar os filhos, todos eles menores na altura, excepto eu. Fiz o Ano Zero (12.º ano actualmente) e, gorada a minha expectativa de estudar fora, ingressei-me na Universidade Jean Piaget, recém-criada.

Meu pai voltou de novo ao nosso convívio, mas as nossas relações estremeceram um pouco. Eram tantas perguntas sem respostas, situações passadas e que eu acreditava que se ele estivesse presente não teriam acontecido. E, de certo modo, eu o culpava por isso. A minha inexperiência e alguma incompreensão da minha parte, mágoa e julgamento, levaram a que, muitas vezes, tivéssemos desentendimentos e que eu acabasse por afastar-me um pouco dele. Mas ele sempre soube entender a minha reacção. Mesmo um pouco afastado dele, ele sempre acompanhou com orgulho o meu percurso na Piaget, as minhas primeiras publicações e o início da minha vida profissional.

Consegui concluir a licenciatura sem sobressaltos e o hábito de leitura que já trazia e alguma aptidão para a escrita ajudaram-me bastante. Mais tarde, vim a concluir o mestrado na UNICV e a iniciar o doutoramento nesta universidade. E sempre que cruzava com o meu pai, ele me manifestava o seu orgulho e perguntava-me quando eu ia terminar cada etapa da formação. Ultimamente, por várias vezes, tem-me manifestado a sua preocupação e o seu desejo para que eu termine o doutoramento.

O tempo passa e a vida nos ensina muita coisa e uma delas é saber compreender sem julgar. Assim, a pouco e pouco fui compreendendo melhor a vida e a viver na pele as suas vicissitudes. Fui compreendendo um pouco melhor o meu pai e passamos a ter outro tipo de relacionamento e cumplicidade. Passei a admirá-lo, mais ainda, a ver como nossas vidas se cruzaram e cruzam, e quão grande foi a sua influência no meu percurso, mesmo quando o julguei ausente. Percebo hoje, uma vez que também já tive a felicidade de ser pai por duas vezes, que o maior orgulho de um pai ou mãe é ver que o seu filho cresceu, amadureceu e fez um percurso. Nisto, dei aos meus pais motivos de sobra para se orgulharem e ficarem felizes.

Hoje de manhã, quando meu pai me apertou fortemente as mãos e chorou, acamado na urgência do Hospital Agostinho Neto, entendi muita coisa e muitas delas é que ele nunca quis afastar-se dos seus filhos. Aquilo que aconteceu são vicissitudes da vida.

Praia, 3 de Agosto de 2019.



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Comentários  

0 # Mariozinho 19-09-2019 06:19
Uma grande homenagem ao teu pai, muito bonito. Abraço
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+1 # Francisco A Carvalho 19-08-2019 12:36
Muito bonito, Paulo! Parabéns por este testemunho e pelo reconhecimento que fazes do teu pai.
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0 # copyright 18-08-2019 23:33
O menino faz o que vê fazer que o que lhe dizem que faça . e' assim o exemplo vem do pai
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