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Por: João Cardoso

João Cardoso1 

1. Era sábado. Viajávamos pelo país real sem sobressaltos, mas para marcar a espiritualidade. Chegávamos ao espaço ecológico de Nhagar, na cidade do Planalto, a meio do dia, encontrava-se cheio de luz e de um sol malandro de maio (da deusa Bona Dea da fertilidade no Império Romano), que desafiavam as plantas, as garrafas, as latas que ornamentavam as paredes com um certo misticismo e olhares do tempo, e, as mesas, as cadeiras, os armários feitos de paletas recicladas e envernizadas com a cor do tijolo. (Tudo muito simples para não dizer que é simplista). De soslaio, um casal de Tchota-de-coco sobrevoava girassóis na tentativa de apanhar abelhas que sugavam, em frenesie, néctar das flores. O tempo passa (!) No espaço multiplicavam-se rebentos de plantas ornamentais e arbustos com coroas de teia de aranha solidária, refletida na terra batida como se fossem pinturas naïf, a desafiarem-nos para um prolongado abraço. Perante o cenário, curvo-me à frente do Preta com selo de qualidade nas minhas mãos pela sua amizade e simpatia, que é igual a sua graça, cujas gargalhadas são cristalinas e contagiantes. (Ali, escreverei sempre cartas elogiosas para não serem extraviadas sem explicações). Como o tempo passa!

2. Nhagar onde rompe a aurora, onde rompe o sol e rompe a amizade genuína como a idade secular do pé de baobá da Boa Entrada. Diz-nos que é ali, que gosta de estar. “Sou feliz”, assegurou. Sem mágoa e com a sabedoria e alegria de quem aceita que “a vida é mesmo assim”. A Mana emocionada solidarizou-se desse jeito “Ale-xan-dri-nha, esposa serena como o seu jardim. Bom sinal! Com a mesma gentileza que ele cuida do jardim. Cuida da esposa”. Repentinamente, magiquei-me nas cores da Magnólia Alexandrina no mês da fertilidade. Com a firmeza e a alegria d’Ale-xan-dri-nha, existem razões da natureza da natureza, da natureza humana e, da eternidade para implorar às flores que morrerão na imortalidade das sementes, nos canteiros ou nos vazos reciclados dos telheiros, a reflorescerem no romper da aurora como tapetes ou colchas “txapa-taxpa”, no próximo ciclo da vida frágil das plantas. O tempo passa. Como o tempo passa (!)

3. Como a inteligência é contagiante e a jovialidade incomum no buscar de caminhos sem medo. Preta (!) ganhou tempo d’Ouro há quase 20 anos, quando encontrou em Achada Monte – Tarrafal, a companheira, uma aliada à altura do seu desígnio. Ainda, não é o “pronto” da vida deles. A vida não acabava ali. Ela divertia-se com o linguajar d’amor que hoje, mal consegue caber na banheira. Mas agora…. É mais difícil e pede-a sempre banhos. Há 17 anos que em casa cruzam-se seis olhos encantados, com o nascimento da filha primogénita.

4. No espaço Nhagar do Preta, sentimos o silêncio com a vontade de beber um cálice de cana fresca, para abrir o apetite e, depois, deliciar com os pratos di terra acompanhados do tintol: Maria Chaves do Fogo, como diz o rótulo “Quer ser um sinal concreto de esperança à terra árida e difícil do Fogo que pode dar frutos e gerar desenvolvimento para um futuro digno das novas gerações”. No aconchegado espaço dá vontade de acompanhar cada refeição com a marca Maria Chaves, quer seja com um São Filipe ou um Santiago, como celebração de mais um dia. Perguntai aos meus rebentos e ao Nhelas Spencer sobre esta marca espiritual. Esta inspirou o compositor e trovador a escrever mais uma letra no ritmo Kotxipo, intitulada “Preta Nhacu Preto” (!).

5. “Preta Nhacu Preto”, letra composta com o dom quase imortal e amoral de escalpelizar as almas e saias crioulas, com o refinamento apurado para a palavra, o verbo e para o humor agridoce e poético, “como em tranche” so-le-tra-do e so-nha-do.

PRETA NHACU PRETO


(…)

Nu sta bá Preta

Nhacu preto

Morabeza pura

Djan Fla ca tem

Sé mudjer tem simpatia

Ki ka T’achadu

Pa Tudu lado

(…)

Por: Nhelas Spencer

NB: Morreu no dia 03 de junho (segunda-feira) na Cidade Invicta, Porto, Agustina Bessa-Luís, a escritora, nascida na Vila Meã nas inebriantes paisagens do Douro. É autora d’Obra emblemática “A Sibila”. Vivemos hoje, numa sociedade de fazedores de conta, de fingimento fácil, de patifes, energúmenos e bajuladores de mau hálito. Gostaria de ficar-me pela incultura com essas frases da escritora fora do tempo para o meu caixão na eternidade “Nasci adulta e morrerei criança” e “Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue”. Agustina, eterno descanso e dorme profundamente como uma criança.

preta



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