
O antigo primeiro-ministro, que foi alvo de sabotagem nas últimas eleições presidenciais pelo atual líder do MpD, deu um sinal de não guardar ressentimentos e estendeu ontem a mão a Ulisses Correia e Silva, considerando que o partido mantém capacidade e responsabilidade para continuar a liderar o país. Um discurso entre o regresso ao passado e os elogios de circunstância ao atual primeiro-ministro.
Carlos Veiga discursava durante a celebração dos 36 anos da declaração política que marcou a fundação do partido e o início do processo que conduziu ao regime pluripartidário.
O antigo primeiro-ministro recordou o momento histórico de março de 1990, quando um grupo de cidadãos decidiu, “de livre vontade e sem constrangimentos”, romper com o sistema de partido único e lançar as bases para um regime democrático no país.
Carlos Veiga lembrou que a decisão foi tomada com a convicção de que o povo cabo-verdiano não aceitava continuar sob um regime político sem pluralismo. “Nunca tivemos dúvidas de que Cabo Verde e os cabo-verdianos queriam democracia”, salientou.
O antigo fundador e líder do MpD destacou que, desde então, a democracia tem funcionado de forma regular no arquipélago e tem sido reconhecida internacionalmente, embora admita que, como qualquer sistema político, seja “uma democracia imperfeita”. Ainda assim, considerou que o regime democrático cabo-verdiano tem garantido estabilidade política e progresso ao país.
Negociações com PAICV foram determinantes para abertura democrática
Sem fazer referência a factos concretos, Carlos Veiga deixou no ar a narrativa de existirem supostos sinais que evocam práticas associadas ao período do partido único, do qual foi uma proeminente figura, chegando a ser Procurador-geral da República, coautor da Lei da Reforma Agrária e deputado na então Assembleia Nacional Popular.
Carlos Veiga lembrou, também, que a declaração política do MpD foi assinada após várias reuniões e debates entre os seus fundadores, tendo reunido, em menos de duas semanas, mais de 500 subscritores, um documento que, segundo defendeu, viria a abrir caminho às negociações com a então liderança do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) para uma transição pacífica para a democracia.
Um processo negocial que se revelou determinante a culminou nas primeiras eleições legislativas multipartidárias, realizadas em 13 de janeiro de 1991, marcando uma nova etapa na vida política cabo-verdiana.
Carlos Veiga defendeu, ainda, a continuidade da governação liderada pelo MpD e elogiou a liderança do atual primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, referindo que o Governo demonstrou capacidade de resposta perante crises como a pandemia de covid-19, a seca e outras dificuldades internacionais.
A maratona de Ulisses
Por sua vez, o presidente ventoinha afirmou que a trajetória do partido tem sido uma "grande maratona política" focada na transformação do país e que o percurso do MpD foi decisivo para consolidar o país como uma democracia de prestígio e reconhecida internacionalmente.
Ulisses Correia e Silva reconheceu, contudo, que Cabo Verde é ainda uma democracia imperfeita, defendendo que o país deve trabalhar para elevar a qualidade do sistema democrático.
“Temos a ambição de chegar a uma democracia perfeita, embora saibamos que são poucos os países que atingiram esse patamar”, afirmou o atual primeiro-ministro, lembrando que uma grande parte da população mundial vive em regimes autocráticos.
A maratona de Ulisses Correia e Silva tem como horizonte as eleições legislativas de 17 de maio, restando saber se é um corredor de fundo ou apenas o protagonista de uma derradeira tentativa para se manter no poder. A prova dos noves irá ser conhecida na abertura das urnas.
C/Inforpress
Foto: Inforpress
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