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Turismo em tempos de pandemia
Economia

Turismo em tempos de pandemia

Cabo Verde, estes dez grãozinhos de terra, perdidas no meio do Atlântico, como cantaram os trovadores, baila no vento leste, fustigado pela seca, porém abençoado com uma rica cultura, resultado de um encontro de povos e civilizações e que originou uma nação crioula das mais belas.

Deste melting pot resultou as expressões de um povo único, de uma vivência e resiliência singulares, forjado nas duras e áridas condições sahelianas que desde há muito obrigaram os cabo-verdianos a “reinventar-se” todos os dias, como tão bem nos descreveu o saudoso prémio Nobel da Literatura, o português José Saramago.

Desde então, este povo aprendeu a dominar as artes da sobrevivência e, nesta história de lutas e adversidades, aprendemos que a nossa riqueza é precisamente o nosso povo! As nossas mulheres e homens e a nossa Morabeza!

Nisso, a nossa música tem sido o nosso grande cartaz, através das vozes de Cesária Évora, Bana, Ildo Lobo, Titina, Lura, Elida Almeida e nas melodias e letras de trovadores como Beleza, Nhô Eugénio, Manuel de Novas, Morgadinho, Antero Simas, Betú, e tantos outros que cantaram a beleza a singularidade de nossas gentes.

Junta-se a isso, a paz, a tranquilidade, o sol, o mar, o Vulcão do Fogo, o Monte Cara, as praias paradisíacas do Sal e da Boa Vista, os verdejantes vales e achadas de Santiago, Santo Antão e São Nicolau, quando a chuva nos fala mantenha, aliada à nossa rica história. Este pequeno país tem muito a oferecer ao mundo e àqueles que nos visitam!

O turismo tem sido, desde há muito, a nossa alavanca, com os sucessivos governos a elegerem, e bem, o setor como o motor da economia. Assim, e em consonância, desenvolveu-se um ambicioso programa de infraestruturação do país, com a construção de portos e aeroportos internacionais, formação de recursos humanos para servir o turismo, assim como negociações com grandes cadeias internacionais para a sua implantação no país. Falamos, por exemplo, dos grupos Tuí, Riu, Tomas Cook, Meliá, a Royal de Cameron agora New Horizons, apenas para citar alguns.

Com o turismo de sol e praia a crescer de forma exponencial, as ilhas do Sal e da Boa Vista começaram a afirmar-se no mercado internacional como destinos de eleição. Este tipo de turismo (all inclusive), criticado por muitos, era ideal numa primeira fase, visto que não era possível criar de uma assentada todas as condições fora do hotel e garantir sobretudo o conforto e a segurança do turista fora dos recintos hoteleiros.

Era questão de tempo até o país ser confrontado com a necessidade de diversificar e promover novas opções aos turistas e aumentar, assim a competitividade do destino Cabo Verde.

A nosso ver, este processo tem sido mais lento do que era desejável, com consequências claras no desenvolvimento das restantes ilhas do país que pouco ou nada tem beneficiado de um setor responsável por cerca de 24% da riqueza produzida no país, pelo menos até à chegada do COVID-19.

Justamente quando se falava e se despertava para a necessidade desta segunda etapa, de diversificação e promoção de novas formas de turismo, como o turismo ecológico e de montanha, o turismo cultural e o cientifico, e outros, assim como da necessidade de uma participação mais ativa de empresas nacionais neste processo, eis que esta pandemia veio alterar e baralhar tudo, interrompendo este processo de reconfiguração do nosso turismo.

Já é um lugar-comum dizer que as crises também geram novas oportunidades. Podemos encarar os fortes constrangimentos, para não dizer bloqueios, que a pandemia provocada pelo SARS-Cov2 trouxe ao Turismo, como uma oportunidade para (re)pensarmos a nossa oferta e modelo de Turismo, de forma disruptiva.

Diz-se que depois da tempestade vem a bonança, porém esperar é um luxo a que não nos podemos dar e há que começar a construir esta bonança mesmo no meio da tempestade!

É tempo para pensar, analisar e refletir com profundidade sobre os processos e sobre o futuro a construir. O COVID-19 trouxe-nos esta oportunidade de rever e corrigir os erros cometidos, é tempo de revisitar conceitos antigos, rever antigas estratégias, programar um novo começo, um novo futuro do turismo.

Nestes novos tempos somos todos (os atores do setor, privados e públicos, Governo e empresários pequenos, médios e grandes e o Poder Local) interpelados a dar o nosso contributo, mediante a construção de um largo consenso, para esta nova fase do turismo com mais e melhor planeamento, organização e forte participação do empresariado nacional. Isto, para a criação de um turismo sustentável e inclusivo, a beneficiar todas as ilhas e localidades do país e com proveito financeiro para as famílias cabo-verdianas.

Neste novo turismo em que o planeamento a organização e diversificação da oferta são fundamentais, a questão sanitária no destino nunca foi tão importante! Hoje a primeira preocupação de qualquer viajante é a condição sanitária no destino, pelo que devemos dar uma atenção especial a este pormenor.

Nisso, é justo salientar algumas medidas tomadas pelo atual Governo para fazer face ao desafio do COVID-19, como a construção dos centros COVID-19 na Praia, no Sal, Fogo e em São Vicente, a formação dos consultores sanitários. Acrescentam-se a certificação de empresas que prestam serviço na área do turismo, a atribuição do selo sanitário, a formação no tocante aos protocolos sanitários aos agentes do turismo, os testes rápidos nas deslocações interilhas, o teste PCR para viagens internacionais, para além de outras medidas administrativas e legislativas visando a construção de um novo normal no turismo.

É claro que estas medidas por si só e isoladas não produzem grandes efeitos, para além da necessidade de estarem ancoradas e integradas numa estratégia clara de oferecer conforto e segurança sanitária a quem nos visita. Daí que os vários atores deste processo devem desenvolver um intenso diálogo e amplo consenso de modo que as varias sinergias produzam efeitos complementares.

Neste novo começo, visando um novo normal no turismo, todos os agentes implicados, têm que se adaptar para o turismo em tempos de pandemia!

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