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POESIA ORAL – BATUKU DI KABU BERDI - II
Cultura

POESIA ORAL – BATUKU DI KABU BERDI - II

O crescente interesse verificado na investigação parece estar ligado às suas várias repressões e repúdios antes da Independência Nacional como se constituindo enquanto uma ação de resistência, de luta para a manutenção da cultura. Com a IN – valorização de tudo que era visto como cabo-verdiano – o Batuku foi retomado e aceite no quotidiano das pessoas e hoje património nacional.

“Batuku e aima di povu” (KD) & “Batuku sta na moda” (OP)

A qualidade da música que temos hoje é preocupante, mas temos música boa e sentimo-la e levamos horas a ouvi-la (…) A música ultrapassa o tempo. (Calú di Guida)[1].

Ultimamente, temos vindo a acompanhar através das redes sociais muitos artistas a falarem da qualidade da música Cabo-verdiana. Batuku – ki sta na moda - tem dado a sua contribuição, tanto nas suas melodias, bem como nas letras/mensagens como sendo uma música de qualidade. Motivo para coroá-lo como sendo das músicas modernas e de fusão em Cabo Verde que manteve a qualidade e uma perfeita harmonia entre aquilo a que se chamam de tradicional (pano, txabeta e/ou palmas) com o moderno (violão, órgão, djanbé) - apesar da «nova roupagem» o que lhe tem garantido grande admiração, audiências, investigações académicas, etc.

A ciência antropológica desenvolveu-se a partir de várias origens distintas: na idade média – produziram relatos sobre os “estranhos” ou “desconhecidos” povos do Extremo Oriente e da África (Boas, 2004). A partir daí desenvolveu-se gradualmente um desejo de descobrir uma significação geral para os variados modos de vida de povos “estranhos”; no século XVIII – alguns teóricos tentaram construir, a partir dos relatos de viajantes um esboço da história da humanidade. Assim, o problema da origem do homem e de seu lugar no reino animal tornou-se o principal ponto e objeto de interesse. As disciplinas pretendiam compreender os passos pelos quais o homem tornou-se aquilo que é biológico, psicológico e culturalmente.

No domínio da cultura de Cabo Verde – o Batuku – seus traços culturais disseminam-se de um para outro – numa fusão/estilização – que nos últimos tempos a tecnologia tem ajudado nesta tarefa e difusão - ‘um Batuku que antes era reservado ao espaço do meio rural santiaguense e que foi proibido no seu próprio espaço, mesmo assim, não se deixou intimidar-se, resistiu e não morreu, muito pelo contrário, as várias cantadeiras/rainhas como Nha Gida Mendi, Bibinha Kabral, Nha Nácia Gomi, um rei – Nhu Ntoni denti D’oru, e tantas outras, lançaram ou melhor espalharam as sementes que hoje estão a crescer e dar saborosos e agradáveis frutos, uma vez que passou a circular numa realidade audiovisual, virtual. No entanto, qualquer cultura é fortemente influenciada por seu meio ambiente, «o fazer batuku tem toda uma forma estética e um conjunto de saberes quotidianos» (Semedo, 2009) [2].

Esta fusão e estilização do Batuku ou a «reformulação» (Furtado, 2004) foi obra de Orlando Pantera – o génio, mítico, músico e compositor. O ressurgimento deste género sob a forma estilizada ou «orquestrada» (Gonçalves, 2006 apud Furtado 2004) ganhasse a pujança atual. Pantera universalizou o Batuku, trazendo-o e tornando-o um género de prestígio, de salão, dos palcos. Dizia o outro que: «hoje os jovens já se interessam pela música cabo-verdiana (Batuku), embora com um som novo, mas sem deixar de ser nosso».

Pois bem, é o que o grupo -Ramantxadas – fazem constroem e reconstroem o ambiente, as situações quotidianas nas suas músicas (letras e melodias) que fazem os apreciadores escutar, entender as suas letras cantadas com enorme performance de execução. Então, parece-nos que no Batuku e a qualidade das gravações que se verificam, nas redes virtuais, sobretudo, do grupo delta ramantxadas é fantástica, real, simples e aprazíveis, por que há uma preocupação grande no cuidado na composição das letras e das mensagens transmitidas. Esta é a música que ultrapassa todo o tempo e música boa. Uma reelaboração na linha do que fazia Pantera e toda a malta denominada da «Geração Pantera» fazem - os artistas que seguiram esta tendência e linha de estilização com muita criatividade.

No cenário da música de Cabo Verde, os géneros da ilha de Santiago, precisam de maiores explorações, investigações e divulgações uma vez que muitos especialistas afiançam que são os géneros pouco explorados, apesar de aparecerem muitos trabalhos académicos versando sobre o tema. A título de exemplo, nalgumas Universidades, em Portugal, frequentadas por estudantes cabo-verdianos, têm produzidos monografias, dissertações e teses doutorais sobre a música cabo-verdiana, mas tal estende-se a Universidades brasileiras e americanas, onde, aliás, se têm perfilado prestigiados estudiosos, nessa área específica do conhecimento, serviremos de três exemplos: a tese de doutoramento (não publicada) de Carmem Barros Furtado, intitulada, Muzikas e ka Músikas defendida em 2014; outra de mestrado de Carla Indira Semedo, intitulada, Mara sulada e dá ku tornu (…) defendida em 2009, e, tese de doutoramento de Edward Akintola Hubbard, intitulada, Creolization and Contemporary Pop Iconicity in Cap Verde defendida em 2011.

O crescente interesse verificado na investigação parece estar ligado às suas várias repressões e repúdios antes da Independência Nacional como se constituindo enquanto uma ação de resistência, de luta para a manutenção da cultura. Com a IN – valorização de tudo que era visto como cabo-verdiano – o Batuku foi retomado e aceite no quotidiano das pessoas e hoje património nacional.

Parabéns para Associação Delta Cultura pela sua 21ª primavera e que venha muito mais: com boas melodias, mensagens claras e música de qualidade que perdure – no Batuku e, em várias outras áreas de atuação. Bem-haja.


BOAS, Franz (2004): Antropologia Cultural - 1ª ed.


[1] https://santiagomagazine.cv/entrevista/a-qualidade-da-nossa-musica-e-preocupante-ha-cancoes-que-nao-valem-nada
[2] https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/16227/000695072.pdf?sequence=1

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