A culpa é do Francisco!
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A culpa é do Francisco!

Ao invés de discutir política, de tentar convencer o eleitorado de que o MpD merece renovar a confiança dos cabo-verdianos, contrariando os fenómenos de rejeição do Governo e das suas políticas, toda a máquina de propaganda está centrada na figura do líder do maior partido da oposição. Ora, como no passado, persistir nesse caminho terá precisamente o mesmo fim. Já se percebeu que está tudo errado na táctica do MpD e estou a ver, na noite de 17 de maio, Ulisses Correia e Silva falando para os seus botões, murmurando ressentido: “a culpa não é minha, é do Francisco!”

Se há um problema do qual o MpD nunca se conseguiu livrar é o de confundir desejos por realidade e nunca perceber os sinais da História, o que é uma mistura explosiva que só pode traduzir-se em derrotas, embora pontualmente possam emergir vitórias circunstanciais que nunca se traduzem em nada de substantivo e duradouro.

Vou fixar-me nos últimos anos, contudo, o fenómeno é antigo. A verdade é que este partido, em particular com a emergência do “ulissismo” e, mais recentemente, com o crescendo de protagonismo do seu sector mais radical, com laivos de influência da extrema-direita, tem empurrado o partido para a degenerescência e acentuada quebra de popularidade e influência na sociedade cabo-verdiana.

Salvo a inquestionável vitória esmagadora de 2016, ocorrida por fenómenos que estavam para além do próprio partido e que decorreu da inabalável vontade colectiva de mudança e de abertura de um novo ciclo político, de lá para cá, de eleição para eleição, o MpD tem vindo a perder muito significativamente a sua influência eleitoral, traduzida na queda perigosamente acentuada do número de votos em todas as eleições.

O primeiro sinal de alerta

As eleições autárquicas de 2020 acentuam o divórcio entre a liderança do MpD e a militância, mas também o afastamento de um sector muito significativo da sua base social e eleitoral de apoio, com o desgaste da governação a dar os primeiros sinais nas urnas. Nestas eleições, o partido ainda consegue uma vitória aritmética, mas, paralelamente, encaixa uma pesada derrota política com a perda da Câmara da Praia, das câmaras de São Filipe e Ribeira Grande, e a derrota em municípios considerandos “bastiões históricos” ventoinha, como sejam, Tarrafal de Santiago e São Domingos.

Para um partido que quase tinha conseguido, em 2016, o pleno das câmaras municipais (vinte em vinte e duas) tratou-se, efetivamente, de um primeiro sinal de alerta ao qual, na sua desmedida arrogância e incompreensão da realidade, a liderança do MpD não deu qualquer importância. Ulisses e os “génios” que o cercam não perceberam os sinais da História, tão-pouco o acentuado divórcio com a base social, partidária e eleitoral.

Ulisses volta a enganar as bases

De todo o modo, a partir daqui os sinais de alerta “laranja” começam a apoquentar a liderança do MpD que, neste contexto, percebeu que, embora hipocritamente, teria de se reaproximar das bases para não pôr em causa as eleições legislativas de 2021, prometendo que as coisas, em termos da gestão do partido, já não seriam como dantes...

Embora desconfianda das “boas intenções” de Ulisses, mas centrando-se fundamentalmente, na necessidade de derrotar o PAICV nas urnas, o que restava da militância e da base de apoio engajam-se completamente no objetivo da vitória eleitoral, com fortes mobilizações em Santiago Sul e em Santiago Norte, com a preciosa ajuda dos programas sociais do Governo e o prestimoso apoio financeiro de Umaro Sissoco Embaló.

No entanto, logo no momento seguinte, Ulisses volta a virar as costas às bases e a retomar a pose de figura providencial, prejudicando e perseguindo, mesmo, internamente, muitos dos que o ajudaram a vencer as eleições. Essa, aliás, é uma das características do ainda primeiro ministro: a ingratidão.

Uma espinha cravada na garganta de Ulisses

Não valerá a pena aludir às últimas eleições presidências, com Ulisses a tramar a candidatura de Carlos Veiga, ou mesmo, logo a seguir, às eleições internas, com o ainda primeiro-ministro a seguir o caminho da fraude e do descarregamento de votos. São episódios que revelam o seu caráter, a sua desonestidade intelectual e as suas ambições pessoais, mas que nos desviariam daquilo que é mais atual e nos interessa neste momento. Tão-pouco, uma referência à operação de cosmética governativa com a cooptação do setor geriátrico do partido, endeusado com as “glórias” dos anos 90, uma época que passou e já nada diz às novas gerações de eleitores.

Saltemos, então, para as eleições autárquicas de 2024, com o MpD a ter a maior derrota eleitoral desde 2016 e a perder, pela primeira vez na sua história, a liderança dos municípios, acrescida da retumbante derrota na Praia que é, fundamentalmente, uma derrota política e pessoal de Ulisses Correia e Silva.

O ainda primeiro-ministro não conseguiu extirpar a espinha que tinha cravada na garganta desde 2020: Francisco Carvalho. E os militantes perderam a oportunidade de se livrarem do ainda primeiro-ministro e virar a página.

De lá para cá – e contrariando vozes do partido mais ajuizadas -, toda a táctica (se é que, neste caso, se pode definir assim) do partido foi centrada na tentativa de desqualificar o atual líder do PAICV, acusando-o de tudo e de mais alguma coisa na praça pública, mesmo sem ter contra ele qualquer condenação judicial, atiçando os seus mastins contra Francisco Carvalho. Uma táctica, aliás, que não está a ter qualquer êxito, como se pode perceber dos sinais em presença.

Ao invés de ter alguma humildade em reconhecer os erros da governação, discutir política e de tentar convencer o eleitorado de que o MpD merece renovar a confiança dos cabo-verdianos, contrariando os fenómenos de rejeição de Ulisses, do Governo e das suas políticas, toda a máquina de propaganda está centrada na figura do líder do maior partido da oposição. Ora, como no passado, persistir neste caminho terá precisamente o mesmo fim.

Já se percebeu que está tudo errado na táctica do MpD e estou a ver, na noite de 17 de maio, Ulisses Correia e Silva falando para os seus botões, murmurando ressentido: “a culpa não é minha, é do Francisco!”

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