A disputa em torno do Complexo Habitacional da Babilónia não é um incidente isolado; é o espelho de uma realidade mais profunda e perturbadora que assola o Estado cabo-verdiano. O que à primeira vista parece ser uma simples desavença burocrática entre o Governo e a Câmara Municipal da Praia, na verdade, expõe a crueza de uma gestão pública que, em muitos aspetos, parece desconectada da realidade e dos princípios de boa governação.
A verdadeira tragédia da Babilónia não é a alegada tentativa de venda, mas sim o facto de que, décadas após a sua construção, o Estado ainda não conseguiu regularizar a sua própria propriedade. Este tipo de negligência administrativa é o reflexo de um problema sistémico que vai muito além de um único caso. Quantos outros bens públicos - terrenos, edifícios, infraestruturas - estarão em igual situação de limbo jurídico, vulneráveis a abusos, à especulação imobiliária e a disputas que paralisam o desenvolvimento? A falta de um cadastro de bens públicos eficiente e transparente é um dos maiores calcanhares de Aquiles da nossa administração, e a Babilónia é apenas a evidência mais recente e visível desse fracasso.
O facto de a controvérsia ter vindo à tona através das redes sociais, e não por um anúncio oficial, também é sintomático. Ele revela a crescente desconfiança dos cidadãos nas instituições e a necessidade de recorrer a plataformas não-oficiais para fiscalizar e denunciar as falhas do sistema. Por que razão a informação sobre a propriedade e a gestão de um bem público tão emblemático não estava disponível de forma clara e acessível? Onde está a prometida transparência que se exige de uma democracia moderna?
A disputa da Babilónia não é apenas entre dois poderes; é uma disputa pela alma do próprio Estado. O silêncio da Câmara Municipal perante as acusações do Governo central não ajuda, mas também o comportamento do Governo, que parece surpreso com o problema, em vez de o ter resolvido há muito tempo, é igualmente preocupante. A situação demonstra uma falha na coordenação institucional e uma cultura de inação que permite que problemas se arrastem por anos, até que uma crise os force à tona.
Em suma, a Babilónia é mais do que um complexo habitacional; é um símbolo. É um símbolo da falta de rigor, da ineficiência burocrática e da profunda crise de confiança entre os cidadãos e as suas instituições. A resolução deste caso não será apenas a regularização de um imóvel. Será um teste crucial à capacidade do nosso Estado de enfrentar os seus próprios fantasmas e de provar aos seus cidadãos que pode gerir o património comum com a dignidade, a responsabilidade e a transparência que a nação merece.
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A equipa do Santiago Magazine