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Por: José Luis Neves

“O PAICV precisa de mudar dos pés à cabeça e da cabeça aos pés” - afirmou Pedro Pires, em Janeiro de 2017, na cerimónia de abertura do Congresso do PAICV.

jose luis neves23

A afirmação do Comandante Pedro Pires é forte. Uma das leituras possíveis, entre muitas outras passíveis de serem feitas é a de que, fechado um ciclo em 2016, depois de um diagnóstico exaustivo e de muita reflexão, Pedro Pires poderá ter proposto mudanças e transformações profundas, no estado de coisas dentro do PAICV, em jeito de construção do futuro e de modo a se iniciar um novo ciclo. É claro que muitos podem não concordar com Pedro Pires, o que é normal e salutar, e entendem que o PAICV, nunca esteve tão bem como está agora e, por isso, recomenda-se. Todavia, hão de concordar comigo que quando uma personalidade da dimensão e experiência de Pedro Pires, figura política incontornável do PAICV e de Cabo Verde, reconhecido pelo seu recato, comedimento, ponderação e equilíbrio, profere com alguma contundência tais palavras, é necessário sobre elas reflectirmos, em todas as suas dimensões, e daí tirarmos as devidas ilações.

O 1º Congresso do PAIGC ocorreu na região libertada de Cassaca, na Guiné-Bissau, em Fevereiro de 1964. De 1964 a esta parte, muitas águas rolaram. No pós independência, o ramo cabo-verdiano do PAIGC converteu-se no PAICV e foram várias as gerações que inspiradas pelo pensamento de Amílcar Cabral e sem queixar-se dos antecessores, da vida, dos outros e de tudo, assumiram as suas causas, com as suas forças e fraquezas, virtudes e defeitos, trabalharam arduamente, umas vezes ganharam e outras perderam e deram um contributo inestimável para que hoje o PAICV fosse o maior Partido Político de Cabo Verde, um património da nação cabo-verdiana e um pilar essencial para a vitalidade, a força e a qualidade da democracia nacional, do desenvolvimento e do progresso. Entendo que é necessário reconhecer a história e valorizar todos aqueles que, ao longos dos anos e ainda hoje, vem dando o seu contributo para o engrandecimento do PAICV.

Entretanto, o tempo passa e as organizações necessitam de inovar, mudar, transformar-se, renovar-se, gerar novas dinâmicas e adaptar-se aos novos tempos, contextos e desafios para poderem sobreviver. Caso contrário, tornam-se obsoletas, são ultrapassadas e correm o risco de desaparecer. Que o PAICV, enquanto organização político-partidária, precisa de transformações e de mudanças profundas parece-me que é evidente e estamos de acordo com Pedro Pires. Defendo, antes de mais, mudanças e transformações num quadro de diálogo intenso, de tratamento político das questões, de procura de entendimentos, de pontos de equilíbrio e de compromissos. Defendo ainda que as mudanças e transformações devem ser em consonância com a sua afirmação como um partido plural, de todas as gerações, federador de vontades e gerador de consensos, uma escola de cidadania e que promove a intensificação da democracia política.

Não sou apologista de rupturas e radicalismos, da judicialização da política, nem de processos disciplinares e administrativos, de julgamentos, expulsões, saneamentos e purificações, mormente em sede de organizações político-partidárias, de adesão e trabalho voluntários, porque potenciadora e geradora de fragilidades que podem perigar a coesão e a existência da própria organização a médio e longo prazos. Por trás das organizações, sejam elas empresariais, partidárias, religiosas etc., estão as pessoas, seres imperfeitos e falíveis, com as suas virtudes e os seus defeitos, que cometem erros e geram conflitos, mas que são naturais, devendo, antes de mais, contribuir para fortalecê-las e não para destruí-las. Acredito que todos têm algo de bom, de útil e de positivo a dar ao Partido, a começar pelo próprio voto de cada um e que, portanto, é isso que deve ser preservado, potenciado, valorizado e multiplicado e que a (s) liderança (s) tem um papel insubstituível nesta matéria. Afinal, “quem de entre nós está sem pecados, que atire a primeira pedra”.

Recordo-me quando o PAICV, sob a liderança de José Maria Neves ganhou as eleições legislativas de 2001. O PAICV perdera de forma retumbante as primeiras eleições realizadas em Cabo Verde, em Janeiro de 1991. Em 1996, a derrota foi ainda mais forte, o MPD ganhou com maioria qualificada, pese embora algum desacerto na governação de 1991 a 1996 e da cisão no Partido que levou ao surgimento do Partido da Convergência Democrática (PCD). Tempos difíceis em que o Partido saiu quase completamente “chamuscado”. Foi necessária muita resistência, uma dura travessia do deserto, de oposição democrática e construtiva, de reconstrução, de renovação, de criação de novas ideias, novas propostas e novas narrativas políticas, de construção de alternativas de liderança, de equipa e de projectos, para não dizer de uma autêntica regeneração do Partido, de tal sorte que em 2001, JMN dizia que “góci nos ki é Partidu Nóbu e aes é Partidu Bédju”, quando em 1991 Carlos Veiga chamava o PAICV de “Partidu Bédju”. Depois de 15 anos de Partido Único e das pesadas derrotas de 1991 e de 1996, o PAICV teve de passar por mudanças e transformações profundas e por 03 líderes (Aristides Lima, Pedro Pires e JMN) para reconquistar a confiança dos cabo-verdianos, 10 anos depois. O MPD precisou de 15 anos e de passar por 05 lideranças (Filomena Delgado – líder interina, Agostinho Lopes, Jorge Santos, Carlos Veiga e Ulisses Correia e Silva), para voltar ao poder em 2016.

Em 2021, 05 anos depois, o PAICV quer legitimamente voltar a vencer as eleições legislativas e regressar ao poder. Seria inédito em Cabo Verde se um Partido / Governo caísse logo no 1º mandato, mas nada é impossível, pese embora, até agora, os ciclos terem sido de 10 e de 15 anos. Contudo, acredito que todos os militantes, amigos e simpatizantes estão cientes de que esse desafio é hercúleo e que conseguir tal proeza tem muito que se lhe diga. Não sendo de todo impossível, julgo, entretanto, que é essencial que todos no Partido coloquem e respondam às seguintes questões: por que é que, volvidos 05 anos, os mesmos cabo-verdianos que não votaram neste mesmo PAICV em 2016, nele votarão em 2021? Quais as novidades, as inovações político-partidárias o Partido traz aos cabo-verdianos em 2021, para destes merecer a confiança que não mereceu em 2016? O que é que mudou em Cabo Verde e nos cabo-verdianos, de 2016 a esta parte, e que fará com que o PAICV vença o próximo campeonato, com a mesma filosofia de jogo, a mesma estratégia, a mesma táctica, os mesmos jogadores, a mesma equipa e o mesmo treinador de 2016?

Quando eu era jogador de futebol dizia aos meus colegas de equipa que para ganharmos o jogo, não bastava apenas que a equipa adversária jogasse mal, isto é, que não era possível ganharmos só por demérito do adversário. Que para ganhar, tínhamos de fazer a nossa parte, que era não só jogar melhor do que o adversário, atacar muito, mas sobretudo marcar golos, porque se não marcássemos, o melhor resultado que podíamos conseguir era um empate e como quem não marca arrisca-se a sofrer, corríamos enormes riscos de perder, se o adversário mesmo jogando mal, surpreendesse-nos com um ou mais golos in extremis. Ainda por cima, se tivéssemos muitos atletas “amarelados” e se a equipa adversária é musculada e joga “bruto”, tivesse a vantagem trazida do jogo da primeira mão, faz jogo de contenção e de contra-ataque, espreitando a primeira oportunidade para matar o jogo. Já no campo da política não sei como é que funciona. A minha pouca experiência política não me permite ajudar a responder às questões colocadas supra.

As eleições legislativas de 2021 poderão trazer poucas novidades e serem muito condicionadas pela dinâmica gerada nas eleições autárquicas de 2020, por se realizarem imediatamente a seguir a estas, eventualmente transformando-a num simples jogo de cumprir o calendário. A grande surpresa seria se surgisse uma terceira equipa candidata ao título e colocasse em causa a hegemonia dos dois grandes e tornasse as contas matematicamente mais difíceis (sem maiorias absolutas).

O maior risco para o PAICV nas próximas eleições legislativas poderá ser o de, por causa da má qualidade do jogo de todas as equipas, os adeptos desmotivados e desinteressados em relação a um campeonato que se revela atípico, pouco atraente e pouco competitivo, optarem massivamente por ficar em casa (nível de abstenção recorde). E, a meu ver, os grandes desafios para o PAICV residem em chegar às próximas legislativas como um Partido unido e coeso e não partido, como uma alternativa de confiança e credível, em termos de liderança, de equipa e de projecto e em evitar submeter o Partido a um ano de grande desgaste interno e externo com o processo de construção das listas de candidatos a deputados, como aconteceu em 2015 e que contribuiu de forma significativa para a hecatombe eleitoral de 2016.

A procissão vai no adro e apesar da falta de chuva que tem assolado Cabo Verde nos últimos anos, muitas águas prometem ainda rolar debaixo da ponte, daqui até chegarmos às próximas legislativas.

Artigos relacionados:
“O PAI… e os próximos desafios (I) – A eleição do próximo Presidente do Partido” - https://www.facebook.com/notes/jos%C3%A9-lu%C3%ADs-neves/o-pai-e-os-pr%C3%B3ximos-desafios-i-a-elei%C3%A7%C3%A3o-do-pr%C3%B3ximo-presidente-do-partido/2452134601567741/;

“O PAI… e os próximos desafios (II) – As próximas eleições autárquicas” -https://www.facebook.com/notes/jos%C3%A9-lu%C3%ADs-neves/o-pai-e-os-pr%C3%B3ximos-desafios-ii-as-pr%C3%B3ximas-elei%C3%A7%C3%B5es-aut%C3%A1rquicas/2477780782336456/



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Comentários  

0 # Fonseca 05-12-2019 07:58
Bom artigo mas parece mais com serviço ao projeto presidencial do seu pai José Maria. O nosso Partido era outra coisa, até surgir o ZMN com a sua rede de meninos mimados, alguns suas namoradas, com poder e dinheiro para perverter a transparência e a lisura democrática . Quando se julgar o Fundo do Ambiente, e outros, tudo ficará mais claro e voltaremos ao normal. O Zezinho devia dizer ao seu pai para sair da sombra e assumir publicamente os seus erros e pedir desculpas ao Aristides Lima a quem ele distruiu a carreira política quando ele desviou fundos da cooperação luxemburguesa para financiar campanha do Inocencio através das Associações e algumas Câmaras . ZMN não engana ninguém. Ele nem e’ santo e nem e’ manso e muito menos transparente. Um birrento e esquésito como ele seria mau Presidente. Viva Aristides Lima!
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-1 # D. Antonio 04-12-2019 13:46
Trata-se de uma reflexão fundamentada e com a marca do seu autor, filho de JMN que por 15 anos dirigiu o Partido, conquistando três maiorias absolutas, graças a coesão, valentia e solidariedade de todos os Camaradas. JMN herdou um Partido regenerado e com a marca de Pedro Pires. Fê-lo crescer com o apoio de todos. Deixou o Partido depois de servir e trair os seus Camaradas de antanho, colocando o poder nas mãos de um grupo de jovens, por ele promovido, através de processos fraudulentos, financiado com recursos desviados dos cofres públicos, propício a um processo degenerativo interno, mormente quando, como reconhece o articulista, muitos dirigentes (jogadores), se encontram já amarelados, receando que a justiça lhes de o segundo amarelo ou mesmo o vermelho direto com consequente expulsão. Objectivamnte, há que reconhecer, a Janira aproveitou, maquiavelicamente, as deslealdades do JMN, mas também recebeu o Partido doente e com muitos militantes dispostos a cobrar a factura . Afinal ninguém e’ tolo ! Verdade verdadeira e’ que ela, prematura e fraudulentamente líder, não soube compensar as fragilidades do processo que a catapultou para a ribalta, continuando nos mesmos registos de Chico-espertismos, falsificando processos, manipulando ganancias, ignorâncias e pobrezas, convencida de que se salvará, não por mérito do PAICV mas por auto-golo do MPD.
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+1 # Romário Cruz 03-12-2019 22:18
Já vi o JLN melhor nas suas analises. Dessa vez, e fugindo a regra geral de muita gente, ou seja "uma no cravo e outra na ferradura" (por acaso não é do teu timbre) foste num sentido único, ou foi só no "cravo" ou só na "ferradura"...simplesmente confusa essa opinião
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