
É hoje um nome emergente no mundo da moda, mas nem sempre foi assim. Natércia Tavares, de 47 anos, começou a fazer máscaras coloridas durante a pandemia, um negócio de sobrevivência que se transformou num caso de sucesso e a tornou conhecida. Enfrentando uma vida de superação, deixou para trás as jornadas diárias com dois trabalhos e, por estes dias, é a orgulhosa dona e designer da África by Tesha.
Aquilo que parecia ser o fim do mundo acabou por mudar a vida de Natércia Tavares. Foi durante a pandemia, há seis anos, que a cabo-verdiana de 47 anos, nascida e residente em Oeiras (Portugal), encontrou uma nova oportunidade depois de vários anos de dificuldades e de ter chegado a acumular dois trabalhos em simultâneo. Em 2020 começou a fazer máscaras em casa e, quando percebeu, tinha em mãos o seu próprio negócio.
“Comecei a fazer máscaras para mim, com padrões africanos de várias cores, para não ter de comprar. Ficaram tão conhecidas que durante o confinamento fazia cerca de 100 unidades por dia e vendia. Foi uma loucura”, conta Natércia. Pouco tempo depois, criava a marca África by Tesha. Desde então, já apresentou coleções em desfiles de moda na Suíça, Angola e Portugal e recebe encomendas de vários países, como Luxemburgo, Inglaterra, Irlanda e até Estados Unidos.
Tudo começou com os tecidos que tinha em casa. Natércia aproveitou panos de família com padrões africanos para fazer máscaras para si, amigos e vizinhos. “Começaram-me a ligar, pessoas que nem conhecia a dizer que queriam comprar. Tinha amigos que me ligavam a contar que eram abordados nos transportes públicos a perguntar de onde era o acessório”, recorda.
Os acessórios começaram a ganhar reconhecimento e os pedidos surgiam de vários países. “Tinha amigos nas redes a pedir peças, no Luxemburgo, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos. Mas eu sabia muito pouco, fazia o básico para mim, então decidi que queria aprender mais sobre o ofício.”
Ainda em 2020 inscreveu-se num curso de modelista de vestuário do IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional). “Quando vi o curso faltava uma semana para começar, as vagas estavam completas, e disseram que só entrava se houvesse uma desistência. Liguei a semana toda, fui muito insistente e acho que por isso a vida recompensou-me. Eram seis da tarde do dia antes de começar a formação quando me ligaram a dizer que tinha havido uma desistência. Percebi que era mesmo para mim”, recorda.
Durante o ano e meio de formação começou a produzir peças com as técnicas que aprendia nas aulas e, em 2021, lançou oficialmente a marca África by Tesha. “Tornei-me modelista e distinguia-se dos demais por utilizar padrões específicos e pouco vistos, tinha muito material de vários países africanos.”

Uma “arte versátil e para toda a gente”
As peças são ajustáveis e combinam padrões africanos com tecidos lisos. Natércia cria casacos, blusas, lenços, calções, vestidos, saias e vários acessórios, sempre feitos à medida. “Comecei a apostar em mercados de artesanato, todos no concelho, mas o evento que me lançou foram as Festas de Oeiras, em 2024.”
Nesse mesmo ano realizou o primeiro desfile, na Associação Passo de Arte, em Paço de Arcos, para a revista “ELLE”. Em dezembro de 2025 foi até Angola representar Cabo Verde no evento African Fashion Time, a convite de uma estilista cabo-verdiana.
Também participa regularmente noutros eventos de moda. “Tenho participado, nos últimos três anos, no evento ‘Moda na Cidade’, que acontece na Figueira da Foz, onde decorre um desfile com várias marcas nacionais.” Já em fevereiro deste ano esteve na Suíça durante duas semanas no evento Power Ladies, que junta palestras, música e desfiles de moda. “Fui convidada por uma designer de cabelos africanos, a Grace Santos, para vestir os modelos dela.”
Grande parte da divulgação acontece através das redes sociais, onde partilha as peças e os eventos em que participa. “Tenho uma linha que dentro do Afro puxa muito a cultura europeia, uso não só padrões e tecidos africanos como cetim, por exemplo. As minhas roupas são separadas, não surgem sempre como conjuntos e por isso considero a minha arte versátil e para toda a gente”, explica.
As peças são feitas em capulanas, tecido 100 por cento algodão, e os preços variam entre os 10 e os 70 euros. Por agora continua a trabalhar a partir de casa, mas já tem planos para o futuro. “Por enquanto ainda trabalho em casa, mas a minha ambição é ter um espaço meu, para produzir e criar novas peças.”

Mudar de vida
Em 1977, a mãe de Natércia foi de Cabo Verde para Portugal para se juntar ao marido, que tinha chegado em 1971 para trabalhar na construção civil, apesar dos inúmeros problemas graves de saúde.
Quando chegou já tinha seis filhos no arquipélago e pouco tempo depois engravidou novamente. Natércia nasceu em 1978 na Pedreira dos Húngaros, em Miraflores (Oeiras), num parto caseiro. “Era comum as mulheres em Cabo Verde darem à luz em casa, então a minha mãe preferiu que fosse assim também”, recorda.
A família contou com a ajuda de uma vizinha, a “curandeira e parteira da comunidade”. “Era conhecida por ser a farmacêutica da comunidade, tinha sempre as ervinhas certas para curar as pessoas e tinha sido parteira em São Tomé.”
Apesar das dificuldades, Natércia recorda a infância com carinho. “Como os meus pais eram mais velhos acabei por ser muito acarinhada e protegida tanto por eles como pela comunidade no bairro, nunca me faltou amor e carinho.”
A Pedreira dos Húngaros era um dos maiores bairros de lata da Grande Lisboa, e era lá que viviam numa casa de madeira, onde faziam uma vida muito ligada à terra. “O meu pai tinha uma horta, com animais também, e eu passava muito tempo por lá. Tínhamos de ir ao chafariz buscar água e cozinhávamos a comida na rua, nos fogões nas pedras. Podia ser pela falta de condições, mas também era cultural porque ainda hoje se faz, e sabe tão bem.”
Entre as memórias mais marcantes da infância está uma tarefa que fazia ainda muito nova. “Das memórias que mais me marcaram e que me lembro bem, era eu com cinco anos a alimentar os animais e depois a conseguir carregar a água na cabeça sem usar as mãos”, conta entre risos.
Natércia frequentou a escola primária em Algés e completou o percurso escolar até ao secundário. “Não posso dizer que nunca fui aceite. Sempre fui muito bem integrada em tudo e não tive dificuldades em adaptar-me, mesmo na língua, visto que na comunidade vivíamos uma realidade diferente.”
Durante a juventude começou também a trabalhar para ter as suas próprias coisas. “Trabalhava muitas vezes enquanto andava na escola, para ter as minhas coisas, porque os meus pais não me conseguiam dar tudo, mas era feliz. Tinha muita curiosidade em saber como era o mundo e conhecer outras realidades.”
Em 1998 o bairro começou a ser demolido e muitas famílias foram realojadas no Bairro do Moinho das Rolas, em Porto Salvo, onde Natércia vive até hoje. Foi também nessa altura, aos 19 anos, que engravidou e teve de mudar os planos. “Engravidei. Era muito jovem e com muita vontade de viver e como sempre fui muito protegida não percebia as consequências das coisas. Não consegui prosseguir com os estudos e tive de ir trabalhar a tempo inteiro.”
Passou por vários empregos e diz ter feito “um pouco de tudo”: cuidou de crianças, trabalhou em supermercados, fábricas e limpezas. Durante muitos anos acumulou mais do que um trabalho. “Começava às seis da manhã nas limpezas de escritórios do Lagoas Park e depois seguia para o outro trabalho.”
Mais tarde trabalhou na lavanderia do Hotel Guincho. “Nessa altura tive um problema de saúde, hérnias, devido à elevada carga horária: fazia o trabalho de três pessoas no hotel e mais as limpezas de manhã, e o meu corpo cedeu.”
Depois de quase seis anos em tratamentos, enquanto cuidava de crianças e fazia pequenos trabalhos para sustentar a família, percebeu que precisava de mudar de vida. Foi então que chegou a pandemia. “Entretanto veio o confinamento e parece que eu estava à beira do abismo, mas como sempre me ensinaram neste momento não podes esperar que o abismo olhe para ti. Então, foi aí que comprei uma máquina de costura e nos primeiros meses comecei a fazer as máscaras. Foi a minha salvação, sem saber.”
C/Mafalda Teixeira/New in Oeiras (NiO)
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