
O que se sente hoje nestas ilhas abençoadas é mais do que descontentamento. É mágoa. Uma ferida aberta. A sensação inquietante de que o sonho colectivo do nôs Cabo Verde di esperança está a desaparecer. Quando a distância entre o que se diz e o que se vive se torna grande demais, instala-se algo mais perigoso do que a revolta: a perda de confiança. O povo não rompe drasticamente. Cansa-se de esperar e de acreditar. Esse cansaço manifesta-se como um silêncio denso, quase resignado, mas que corrói por dentro.
Dizem que está tudo bem. Aliás, não dizem só que está bem… dizem que nunca esteve melhor.
Os números confirmam, os relatórios aparentemente comprovam, e os discursos garantem. Cabo Verde cresce, avança e afirma-se no mundo. Estamos constantemente a ouvir isso, com uma convicção suficiente para quase se tornar verdade.
Só falta o quase…
Porque cá em baixo, onde as pessoas vivem, contam moedas, esperam consultas, fazem contas ao fim do mês, quando o salário já acabou e ainda sobram dias, há qualquer coisa que não bate certo. Mas talvez seja impressão minha. Talvez não esteja a olhar na direcção certa. Talvez devesse olhar para os hotéis novos, para os projectos turísticos, para as inaugurações quase diárias, com fita cortada, fotografia oficial e nome na placa. Talvez devesse medir o país pelos eventos, pelos fóruns e pelas estatísticas cuidadosamente apresentadas.
Porque o erro está em olhar para as filas no hospital, para os jovens qualificados que continuam à espera de uma oportunidade que nunca chega, ou para as famílias que vivem penduradas em remessas vindas de terra longe, como se o país fosse apenas um ponto de partida e nunca um destino possível.
Sim, deve ser isso. Estou a olhar para o sítio errado.
Porque, se olharmos bem, vamos perceber que o problema não é a desigualdade, mas a percepção da desigualdade; não é a falta de oportunidades, mas a forma como as pessoas insistem em não as encontrar. E, certamente, não é o custo de vida… é a incapacidade de alguns em acompanhar o crescimento.
E, francamente, também não ajuda em nada este hábito nacional de sentir o país e as suas gentes.
O sentir demasiado.
Sentir a injustiça onde a culpa morre sempre solteira; sentir o cansaço do “vira o disco e toca o mesmo”; sentir que o país está a mudar deixando muitos para trás; sentir que há uma elite que sobe enquanto o resto tenta equilibrar-se na corda bamba; sentir que o esforço deixou de ser garantia de qualquer coisa.
É um exagero, não é?! Os dados dizem outra coisa: Cabo Verde é um país de Médio/Alto rendimento. Mas os dados, como sabemos, não sentem. Tónt tá dás!
Entretanto, há um silêncio que se instala, mascarado de paz. Um silêncio pesado, desconfortável, e alimentado de resignação. As pessoas continuam a trabalhar, a adaptar-se e a sobreviver, como sempre fizeram. Cabo Verde ensinou-nos isso: resistir primeiro, questionar depois, se sobrar tempo e vontade. Qualquer manera ê bá dvagar.
Se calhar nem é caso para questionar. Afinal, temos estabilidade, reconhecimento, uma imagem internacional sólida e isso, dizem-nos lá em cima, é o mais importante.
O resto resolve-se, eventualmente. Um dia…
Até lá, talvez seja melhor não complicar. Não fazer muitas perguntas para não estragar a narrativa. Porque há coisas que só se tornam problema quando alguém insiste em olhar atentamente para elas.
Durante muito tempo, aprendemos a desviar o olhar. Hoje, já há quem se recuse.
SIMA NU TÁ NU KA PODI FIKA!
Cabo Verde não está a falhar por falta de discursos bem elaborados. Está a falhar porque já não nos reconhecemos nele. Quando uma parte crescente da população deixa de se rever no país e no seu governo, não estamos perante um ruído passageiro. Estamos perante um sinal.
O que se sente hoje nestas ilhas abençoadas é mais do que descontentamento. É mágoa. Uma ferida aberta. A sensação inquietante de que o sonho colectivo do nôs Cabo Verde di esperança está a desaparecer.
Quando a distância entre o que se diz e o que se vive se torna grande demais, instala-se algo mais perigoso do que a revolta: a perda de confiança. O povo não rompe drasticamente. Cansa-se de esperar e de acreditar. Esse cansaço manifesta-se como um silêncio denso, quase resignado, mas que corrói por dentro.
Cabo Verde orgulha-se, com razão, da sua estabilidade democrática. Mas a democracia não se sustenta apenas em eleições regulares nem em discursos institucionais. Sustenta-se na justiça sentida, na mobilidade possível, e na percepção de que o país pertence a todos e não apenas a alguns.
Não há democracia sem consequência. E o voto serve para corrigir caminhos.
Quando o país começa a ficar para trás de si próprio, a alternância política deixa de ser uma hipótese e passa a ser uma necessidade.
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