Arlindo Carvalho. "O maior sucesso do ultimo mandato foi, sem dúvida, o reforço da sustentabilidade financeira da Cruz Vermelha"
Entrevista

Arlindo Carvalho. "O maior sucesso do ultimo mandato foi, sem dúvida, o reforço da sustentabilidade financeira da Cruz Vermelha"

Arlindo Soares de Carvalho é de novo candidato a presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde, em lista unica, e diz que concorre a um terceiro mandato por "compromisso com a missão humanitária da Cruz Vermelha e a convicção de que ainda há um caminho importante a consolidar". Nesta entrevista, que antecede a eleico agendada para este fim de semana, Carvalho traca as linhas do seu programa e define tres prioridades para o proximo mandato: "reforçar a proximidade com as comunidades, consolidar a sustentabilidade financeira e institucional, e aumentar a capacidade de resposta a emergências e desafios humanitários".


Santiago Magazine - O que o move a voltar a candidatar-se à presidência da Cruz Vermelha de Cabo Verde?

Arlindo Soares de Carvalho - O que me move é, acima de tudo, o compromisso com a missão humanitária da Cruz Vermelha e a convicção de que ainda há um caminho importante a consolidar. Este novo ciclo representa uma oportunidade de aprofundar reformas iniciadas, fortalecer a proximidade com as comunidades e garantir maior sustentabilidade institucional. Sinto que a experiência adquirida, aliada à equipa que me acompanha, nos coloca numa posição sólida para dar continuidade a uma transformação necessária.


Ao fim deste mandato, que avaliação faz da sua liderança? O que considera ter sido o maior sucesso e o maior fracasso?


Faço uma avaliação globalmente positiva, marcada por avanços estruturais importantes. O maior sucesso foi, sem dúvida, o reforço da sustentabilidade financeira da instituição, com destaque para a modernização e digitalização dos jogos sociais, que permitiu aumentar receitas e melhorar a previsibilidade financeira.


Quanto aos desafios, reconheço que nem sempre conseguimos avançar ao ritmo desejado na descentralização plena das ações e no reforço da presença em todas as comunidades, sobretudo nas mais remotas.


Quais foram os principais indicadores de desempenho que utiliza para medir o impacto da Cruz Vermelha no país?


Utilizamos um conjunto de indicadores que incluem o número de beneficiários diretos das nossas ações, a cobertura territorial das intervenções, o nível de mobilização de voluntários, a capacidade de resposta a emergências e a sustentabilidade financeira. Também valorizamos indicadores qualitativos, como o grau de satisfação das comunidades e o impacto percebido das nossas intervenções.


Houve promessas que ficaram por cumprir? 


Diria que houve metas que não foram plenamente alcançadas, sobretudo devido a constrangimentos externos, como limitações de financiamento em determinados períodos e a complexidade de alguns processos institucionais. Ainda assim, muitas dessas ações foram iniciadas e estão em curso, o que nos permite dar-lhes continuidade no próximo mandato.


A digitalização do Totoloto e dos jogos sociais foi apresentada como uma revolução. Em termos concretos, quanto aumentaram as receitas desde a implementação?


A digitalização representou um marco importante. Registámos um aumento significativo das receitas, com crescimento progressivo ao longo dos últimos anos. Grande parte das nossas ações foram financiada através dos jogos sociais, cuja modernização permitiu à instituição aumentar a sua capacidade de mobilização de recursos. Estima-se que entre 70% e 80% das atividades da Cruz Vermelha sejam suportadas por estas receitas, o que tem permitido maior autonomia na implementação de projetos sociais. Para além do aumento direto, houve também ganhos em transparência, controlo e eficiência operacional, o que reforçou a confiança no sistema.


Pode garantir que a Cruz Vermelha vive hoje uma situação financeira mais sólida do que há três anos?


Sim, com responsabilidade posso afirmar que a situação financeira é hoje mais estável e previsível. Conseguimos diversificar fontes de receita, melhorar os mecanismos de gestão e criar bases mais sólidas para o futuro da instituição.


Que projetos concretos foram financiados com receitas dos jogos e quantas pessoas foram diretamente beneficiadas?


As receitas permitiram financiar projetos nas áreas de saúde comunitária, apoio social, resposta a emergências, formação de voluntários e resiliência comunitária. Milhares de pessoas foram diretamente beneficiadas, seja através de assistência direta, capacitação ou melhoria das condições de vida em comunidades vulneráveis.


Em que áreas sociais considera que o impacto da Cruz Vermelha ainda está aquém do necessário?


Apesar dos avanços, reconhecemos que ainda há desafios significativos nas áreas de apoio a populações mais vulneráveis, nomeadamente em zonas rurais e em contextos de maior fragilidade socioeconómica. Também queremos reforçar a atuação na área da adaptação às mudanças climáticas.


Como avalia a resposta da instituição a situações de emergência recentes em Cabo Verde?


A resposta tem sido positiva e reconhecida pelos pares, sejam elas instituições parceiras, personalidades, governos e mesmo pelo Estado de Cabo Verde, com capacidade de mobilização rápida e eficaz dos voluntários. No entanto, estamos conscientes da necessidade de continuar a investir em preparação, formação e meios logísticos para melhorar ainda mais a nossa prontidão.

O voluntariado continua a ser a base da Cruz Vermelha. Como está hoje o nível de mobilização e retenção de voluntários?


O voluntariado continua a ser o nosso maior ativo. Temos registado uma boa mobilização, especialmente entre os jovens. Contudo, a retenção continua a ser um desafio, o que nos leva a apostar mais na formação, reconhecimento e valorização dos voluntários.


Há críticas sobre centralização de decisões. A instituição é suficientemente participativa internamente?


Valorizamos essas críticas como contributos importantes. Temos vindo a reforçar os mecanismos de participação e diálogo interno, mas reconhecemos que há espaço para melhorar, sobretudo no envolvimento das estruturas locais nos processos de decisão. E é por isso que estamos a trabalhar para que possamos ter cada vez mais autonomia por parte das estruturas locais.


Que reformas pretende introduzir na estrutura organizativa no próximo mandato?


Pretendemos avançar com uma maior descentralização operacional, reforçar a autonomia das delegações locais e modernizar os processos internos, incluindo a digitalização e simplificação administrativa.


Em que é que a sua proposta difere de uma continuidade simples do atual modelo?


Não se trata de uma continuidade passiva, mas sim de uma evolução. Queremos consolidar o que foi feito, mas introduzir melhorias significativas, sobretudo ao nível da proximidade com as comunidades, da inovação e da eficiência organizacional.


Quais são as três prioridades estratégicas para o próximo mandato?


As três grandes prioridades são: reforçar a proximidade com as comunidades, consolidar a sustentabilidade financeira e institucional, e aumentar a capacidade de resposta a emergências e desafios humanitários.


Que garantias pode dar de que a Cruz Vermelha será mais próxima das comunidades?


A proximidade será uma prioridade concreta, com reforço da presença local, maior envolvimento das comunidades na definição de prioridades e desenvolvimento de programas mais adaptados às realidades específicas de cada território.


Porque devem os membros da Cruz Vermelha confiar novamente em si para liderar a instituição nos próximos três anos?


Porque apresentamos resultados, aprendemos com os desafios e temos uma visão clara para o futuro. Mais do que promessas, oferecemos compromisso, experiência e uma vontade genuína de servir melhor as comunidades e fortalecer a Cruz Vermelha de Cabo Verde.

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SOBRE O AUTOR

Hermínio Silves

Jornalista, repórter, diretor de Santiago Magazine

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