
Máxima Moreno diz que Herménio Fernandes “continua a comprar a obediência de todos os que o rodeiam, distribuindo favores, cargos de proteção a quem se curve e o defenda com unhas e dentes, e reservando a perseguição, o isolamento e a punição para quem não aceita essa troca”. A vereadora, que está em rota de colisão com o presidente da câmara desde junho de 2025, diz, ainda, que a governação local “é uma tirania silenciosa que sufoca tudo o que não se dobra” perante o autarca.
No dia em que o presidente da Câmara Municipal de São Miguel, Herménio Fernandes (Meno), desprofissionalizou e lhe retirou a confiança política, a vereadora Máxima Moreno fez uma live chamando amigos, vizinhos e munícipes para anunciar que “não há volta atrás”, que apenas “há o caminho da verdade, há o caminho da transparência, há o caminho da dignidade” e o caminho da “honra” da sua imagem. Aconteceu esta quinta-feira, 19, e fez-se ouvir por milhares de pessoas no arquipélago e na diáspora.
Assumindo ter decidido “abraçar a verdade” e a “dignidade” e, por isso, estar a “pagar o preço”, Máxima Moreno considera que em São Miguel “não existe democracia”, o que há apenas “usurpação de poderes”, direcionando o seu grito de indignação ao presidente da câmara.
“A realidade, nua e crua, o povo já sabe, já sente e já diz entre si, mas que ninguém, dentro daquele sistema, ousava, em momento algum trazer à tona”, diz a vereadora, logo de seguida acrescentando: “estamos longe de alcançar a democracia, enquanto o presidente Herménio Fernandes continua a comprar a obediência de todos os que o rodeiam, distribuindo favores, cargos de proteção a quem se curve e o defenda com unhas e dentes, e reservando a perseguição, o isolamento e a punição para quem não aceita essa troca. Fui a única que recusou e, por isso, estou aqui a falar-vos”, sublinha Máxima Moreno logo no início da live.
“Dono do mundo” e “senhor absoluto da Calheta”
“Este é o momento de dizer que o mesmo homem que, embriagado pelo poder, se autointitula publicamente de Bulimundo, dono do mundo, e se proclamou senhor absoluto de Calheta e de tudo o que nela existe, não é uma metáfora”, esclarece a professora doutorada da Universidade de Cabo Verde, considerando que se trata da “radiografia de uma realidade, de uma mentalidade que confunde, na verdade, o cargo com a propriedade e o povo com súbditos”, sublinha.
Fazendo a retrospetiva das últimas eleições autárquicas, Máxima Moreno que aceitou candidatar-se por pensar em São Miguel e recorda os mais velhos que lhe seguraram as mãos com força e lhe disseram “que já não acreditavam em nada, mas iam votar” e nos jovens “que votaram pela primeira vez e escolheram acreditar” em São Miguel.
“Poderia, na verdade, ser diferente, mas se escolheu que fosse dessa forma. Foi por vós que eu aceitei esse mandato. Foi por vós que fiquei de pé quando a pressão mandava sentar. Foi por vós que nunca troquei a minha voz pelo conforto do silêncio. E é por vós que hoje falo. O que se vive dentro daquele sistema não é a governação”, declarou emocionada a vereadora
Segundo Máxima Moreno, a governação local “é uma tirania silenciosa que sufoca tudo, o que não se dobra perante o presidente Herménio Fernandes”. Uma tirania – sublinha – “que não chega com tanques nem com decretos ruidosos. Chega com funcionários completamente afastados apenas por “serem competentes e pensarem diferente”.
Mas, ainda segundo a vereadora, não são apenas os funcionários que padecem com a “tirania”, também vereadores foram “descartados como se o povo que os elegeu não existisse” e o “medo instalado” nos corredores dos Paços do Concelho.
“Nunca me calei”
“Fui punida por falar a verdade, por honrar a minha dignidade, por honrar a minha pessoa. Fui perseguida por divergir, por ter o meu próprio pensamento. Fui isolada por recusar a cumplicidade. Vi tudo isso. Vivi tudo isso. E nunca me calei”, diz ainda Máxima Moreno.
Segundo a professora universitária cada “pressão” que sofreu “tinha um rosto, um nome, um cargo, Herménio Fernandes”. Segundo ela, “o homem a quem o povo confiou a casa comum de São Miguel” e que a transformou “num instrumento de poder pessoal e num reino de obedientes eternamente comprados”, segundo entender do autarca.
Uma “narrativa” assente na “mentira”
Reportando-se a uma “mentira” posta a circular de que “ausências recorrentes” fariam parte da sua conduta, Máxima Moreno diz tratar-se de “uma fabricação ao serviço de uma narrativa construída” para justificar simplesmente o injustificável.
“A verdade é esta: mesmo depois de o presidente ter abusivamente, compulsivamente, esvaziado todas as minhas funções, todas as minhas pastas, desde junho de 2025, retirando-me funções, responsabilidades e meios numa estratégia deliberada de humilhação e esvaziamento do meu mandato, continuei a ir à Câmara Municipal duas vezes por semana, como sempre fiz, desde o primeiro dia, desde o primeiro mandato”, esclarece a vereadora.
Dirigentes do MpD viraram as costas
Mais adiante, na live, Máxima Moreno faz referência ao seu partido com a mágoa sentida, sofrida, de vários dirigentes lhe terem virado as costas, incluindo o presidente do Movimento para a Democracia (MpD), Ulisses Correia e Silva.
“Supliquei por socorro pelas vias internas do MpD com a discrição e o respeito institucional que sempre pautaram a minha conduta. Bati as portas de vários ministros, procurei deputados e tenho de fazer referência a alguns aqui, Celso Ribeiro, Austelino Correia, Olavo Correia”, mas também pediu “várias vezes, através da secretária do presidente do partido, uma audiência para que ele possa mediar essa situação de abuso de poder, usurpação de poder, desvio de poder, assédio moral”. Em vão, todos eles lhe viraram as costas quando mais precisava de ser ouvida.
A live (que poderá visionar aqui) de Máxima Moreno é um roteiro vivo de denúncia de práticas políticas adversas à democracia, do autoritarismo levado às últimas consequências, da compra de fidelidades de humilhação de pessoas e de tentativas de assassinato de caráter de vozes que pensam diferente. Trata-se de um registo fundamental para quem tenha compromisso claro com a democracia.
Foto: Facebook/Fátima Moreno
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