Monte Txota: Memórias do massacre continuam vivas
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Monte Txota: Memórias do massacre continuam vivas

A tragédia que marcou o país dez anos atrás, mantém memórias vivas na sociedade cabo-verdiana, principalmente entre aqueles que privaram com as vítimas, embora persista a incomodidade em se falar sobre o assunto. A história real do massacre chegou agora ao prelo. “Monte Txota – Um massacre em Cabo Verde” tem a assinatura de dois jornalistas da agência Lusa: a portuguesa Cristina Fernandes Ferreira e o cabo-verdiano Ricardino Pedro.

O livro “Monte Txota – Um massacre em Cabo Verde” resgata a dimensão humana da tragédia ocorrida na localidade do mesmo nome e devolve o tema ao debate público, dez anos após a tragédia. 

Com a assinatura de dois jornalistas da agência Lusa, a portuguesa Cristina Fernandes Ferreira e o cabo-verdiano Ricardino Pedro, é ditado sob a chancela da Rosa de Porcelana e chega às mãos do público na próxima quarta-feira, 25, às 18:00, no Auditório Interatlântico, em Chã de Areia, na cidade da Praia. A apresentação está a cargo dos jornalistas Benvindo Neves e Gisela Coelho.

Em entrevista à Inforpress, Cristina Ferreira explicou que a obra resulta de uma necessidade de revisitar o caso com maior profundidade, depois de, na altura dos acontecimentos, "a cobertura jornalística ter sido condicionada pelo ritmo imediatista da atualidade".

O livro existe por causa das famílias

“A sensação que ficou foi de um descompasso entre a dimensão do que aconteceu e a rapidez com que o tema saiu do espaço público”, disse, sublinhando que o livro procura contrariar esse apagamento, dando tempo e profundidade à narrativa.

Segundo a autora, o foco central da obra está nas pessoas diretamente afetadas pelo massacre, nomeadamente as famílias das vítimas, cujas histórias e vivências foram pouco exploradas na altura.

“O livro existe por causa das famílias. Sem a forma como nos receberam, sem a confiança com que partilharam memórias e sem a coragem de revisitar momentos dolorosos, este trabalho não teria sido possível”, afirmou a jornalista.

Cristina Ferreira indicou que, ao longo da investigação, ficou evidente que muitas famílias continuam sem respostas claras sobre as circunstâncias das mortes, sentindo que foram deixadas sozinhas com a dor. “As famílias sentem que ainda lhes faltam explicações, que ninguém lhes disse cabalmente como e porquê morreram os seus filhos”.

A obra resulta de uma investigação de dois anos, durante a qual os autores entrevistaram cerca de 50 pessoas, entre protagonistas diretos e indiretos do caso, incluindo militares, investigadores, magistrados, agentes policiais e responsáveis políticos.

Além dos testemunhos recolhidos, o livro integra também contributos de fontes anónimas, consideradas “essenciais” para a compreensão de alguns detalhes, bem como consulta de arquivos de órgãos de comunicação social e estudos realizados sobre o caso.

No entanto, segundo a jornalista, houve limitações no acesso a informação institucional, nomeadamente ao processo judicial já concluído, cujos pedidos de consulta não obtiveram resposta.

Obrao pretende apresentar uma verdade definitiva

Cristina Ferreira vincou ainda que, mesmo uma década depois, persiste alguma resistência em abordar publicamente o tema, o que considera revelador do seu caráter traumático na sociedade cabo-verdiana.

A narrativa aborda igualmente o contexto político e social da época, incluindo os desafios enfrentados pelas autoridades perante a crise, bem como questões estruturais como pobreza, desemprego, emigração e saúde mental.

Sem pretender apresentar uma verdade definitiva, a autora afirmou que o livro deve ser encarado como um contributo para melhor compreender o episódio e incentivar novas abordagens.

O Massacre de Monte Txota ocorreu em abril de 2016, na ilha de Santiago, quando 11 pessoas, dos quais oito militares das Forças Armadas e três civis, foram encontradas mortas num destacamento militar desta localidade de São Domingos.

O caso chocou o país pela sua gravidade e circunstâncias, tendo mobilizado uma ampla investigação das autoridades. O principal suspeito viria a ser detido, julgado e posteriormente condenado.

Na altura, o episódio levantou várias questões relacionadas com segurança militar, controlo de armamento e contexto institucional, gerando forte comoção nacional e amplo acompanhamento mediático.

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