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Explicação aos crocodilos – o caso Icelandair
Editorial

Explicação aos crocodilos – o caso Icelandair

A notícia do Santiago Magazine sobre a suposta venda da TACV Internacional à Icelandair causou desconforto ao Governo, que tratou logo de a desmentir. Vejamos quem anda a enganar quem.

Está claro que Santiago Magazine antecipou e furou os planos do Executivo sobre este dossier, dando a notícia de que a Icelandair teria comprado a TACV Internacional, baseando num acordo, ainda que de princípio, conseguido ao que sabemos em Paris. E isso levou a Administração da empresa e o ministro da Economia, que gere o dossier ex aequo com o titular das Finanças, a desmentirem publicamente a informação, obtida de fonte segura, de que haviam encontrado o parceiro estratégico para a TACV Internacional.

Ora, de todos os interessados (Icelandair, Euroatlantic e SATA) a companhia islandesa esteve sempre melhor posicionada, tendo inclusive o ministro do Emprego se deslocado à Islândia, há coisa de três meses, para discutir o dossier com o PCA daquela companhia de bandeira islandesa, que também enviou uma equipa a Cabo Verde para conhecer in loco as estruturas da TACV. Certo?

O anúncio do provável acordo com a Icelandair estaria previsto para acontecer antes de Julho, último mês de funcionamento da TACV internamente (a partir de 1 de Agosto, a companhia deixaria de operar no mercado doméstico, o que já não vai acontecer, explico a seguir), mas terá sido suspenso eventualmente por causa de uma série de contratempos dos últimos dias, como o caso da Binter – também já lá vamos. Porque o Governo, talvez com razão aqui, insiste em falar de negociação, termo técnico para fugir ao acordo que desembocará na privatização propriamente dita.

Sucede que este ministro da Economia é especialista em desmentidos que depois se comprovam – o caso da TACV não há-de ser excepção. Aliás, este presente plano de reestruturação da companhia de bandeira nacional – saída do mercado interno para ficar só com o Internacional – foi divulgado pela imprensa desde o ano passado, e José Gonçalves fez questão de desmentir a notícia em comunicado, assegurando que o Governo nunca discutiu essa hipótese. Resultado? Ei-lo a exibir aos senhores do Banco Mundial esse mesmo plano que negou qualidade, porque feito pelo anterior Conselho de Administração.

Na altura saiu a informação de que a TACV iria despedir 150 trabalhadores. O ministro negou para depois confirmar que eram menos funcionários que iriam para casa. O que está a acontecer? Metade dos trabalhadores da TACV vão ser despedidos e foi ele mesmo a anunciá-lo por fim. E nem vale a pena dizer que ele garantiu ter já criado 15 mil postos de trabalho desde que está no Governo.

Agora vem mais um desmentido, desta feita com “ajuda externa”. Vamos lá perceber isso: um site que se apresenta como especialista em aviação diz que a Icelandair nega ter comprado 49% do capital da TACV, segundo saiu na imprensa. De onde é que surgiram esses 49%? Santiago Magazine não disse isso na notícia. E quem dá a cara pelo Icelandair? O director financeiro, que, eventualmente, mal saberá das dérmarches feitas até aqui pelo Governo do seu país. Façamos a ponte com Cabo Verde: o PCA da TACV, José Luis Sá Nogueira, respondeu bem à questão da jornalista da TCV ontem: “a privatização é com o Governo”. Se é assim, o director financeiro da Icelandair sabe o quê?

Também o Expresso das Ilhas publicou uma nota citando a SATA na qual esta desmente a notícia do Santiago Magazine, dizendo que a operadora açoreana não tem qualquer interesse em participar na privatização da TACV. Quem dá a cara? Um porta-voz da Administração.

Há menos de mês, no dia 3 de Junho, Paulo Menezes, presidente do Conselho de Administração da SATA, que julgo saber o que diz, afirmava ao jornal português Diário de Notícias: “A SATA está interessada em avaliar com os TACV, com o Governo de Cabo Verde e com o Governo dos Açores todas as hipóteses", disse Paulo de Menezes, quando questionado sobre a possibilidade de entrada no capital da empresa cabo-verdiana, escrevia o jornal. Em que ficamos? Quem está a enganar quem nessa história toda?

Enfim, é esse mesmo ministro (da Economia) que, eventualmente para defender algum interesse, sai em favor da Binter, desmentindo a própria ASA, uma empresa pública. Explico: ontem, quando questionado pela TCV sobre a questão de a Binter afinal saber antes sobre as dimensões da pista do aeródromo de São Nicolau, José Gonçalves disse que a operadora “confundiu” por causa das informações no site da ASA. Verdade, a empresa de Aeroportos e Segurança Aérea tinha uma descrição (não técnica) do aeródromo da Preguiça onde se pode ler que a largura da pista é de 30 metros.

Mas que raio de empresa de aviação entra num site e lê uma simples descrição e monta o seu plano de voo para esse aeroporto sem as especificações técnicas completas? Nunca. Aliás, a própria ASA confirmou que a Binter solicitou-lhe informações precisas sobre São Nicolau as quais teve resposta mais de um mês antes de começar a voar para a ilha de Chiquinho.

Então, por que o ministro da Economia desmentiu publicamente a ASA? Porquê ir a favor de uma empresa, até aqui privada, e contra a ASA, que é pública e já mostrou que não tem culpas nenhumas no “amadorismo” da Binter? Simples, as coisas não estão a correr de feição e todo o plano arrisca ir por água abaixo, se a Agência de Aeronáutica Civil agisse em conformidade, pois ficou claro que voou para São Nicolau à revelia, sem autoruzação, logo, deveria ser penalizada. Pelo contrário acabou sendo premiada com o tal certificado especial que lhe permite agora retomar as ligações a Ribeira Brava.

Mas vamos supor que a Binter tinha de facto um certificado especial para efectuar voos com ATR numa pista só com 23 metros de largura, como é o caso da de São Nicolau. Faz dois voos particulares, dois voos comerciais e pára. Até uma criança perceberia a jogada: nas duas primeiras vezes que foi, uma experimental outra para evacuar um doente para Praia, não fizeram as contas. Nas duas vezes seguintes que voou para São Nicolau com passageiros comuns, a empresa terá visto que comercialmente poderia estar perante uma linha deficitária para os seus planaços e opta por “inventar” que a ASA reduziu o tamanho da pista, quando se sabe que para lá ir tinha que ter autorização da AAC, precisamente por causa das condições de aterragem naquele aeródromo.

Um mau sinal que ecoa por todo o país, porque mostra uma companhia – à qual o Governo debitou toda a responsabilidade para manter o arquipélago unido através dos transportes aéreos –, capaz de, a qualquer situação pouco favorável, digo, que não dê lucro, levantar voo e sumir de Cabo Verde. Sem djobi pa lado.

Lembram-se que a TACV vai deixar de operar internamente a partir de 1 de Agosto, passando o mercado para a Binter? Ok, isso não vai acontecer, pelo menos nessa data. A administração da TACV já informou aos trabalhadores que o único ATR ainda na disposição da companhia só será devolvido no final de Setembro, continuando a transportadora de bandeira nacional a operar no mercado por mais tempo até que uma solução final seja encontrada. E o novo ATR da Binter só tem licença para três meses de operação em Cabo Verde.

Então, a TACV deixa os voos inter-ilhas quando mesmo, senhor ministro? A Binter passa a assumir o mercado sozinha a partir de que dia mesmo? Andamos a ouvir anúncios disto e daquilo que nunca se concretizam e negas desse e dessoutros assuntos que depois se confirmam. Porque já se habituaram a contradizer-se – não foi o Governo a garantir que não iria haver monopólio da Binter porque o mercado continua aberto? O que disse o PCA da TACV logo depois? Cabo Verde não tem como comportar duas companhias aéreas ao mesmo tempo nas ligações inter-ilhas.

Enfim, quando não se acredita no próprio sonho, acaba-se por viver o sonho dos outros. E quanta infelicidade!

Herminio Silves

Director

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SOBRE O AUTOR

Hermínio Silves

Jornalista, repórter, diretor de Santiago Magazine

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