
Se analisarmos o nosso comportamento e a nossa forma de ser enquanto povo à luz desta lógica, chegaremos á conclusão de que fazemos exatamente o contrário: valorizamos mais o que vem de fora do que aquilo que é nosso. Não se trata de patriotismo exacerbado nem de estabelecer barreiras nacionalistas, até porque somos um pequeno Estado insular com parcos recursos e que não produz a maior parte daquilo que consome, dependendo fortemente de importações para satisfazer as suas necessidades básicas, especialmente em termos alimentares.
Normalmente escrevo sobre assuntos relacionados à nossa política interna, mas desta vez resolvi partilhar uma pequena reflexão sobre a questão da valorização dos serviços e produtos made in Cabo Verde, ou seja, produzido pelas empresas, startups, empreendedores cabo verdianos. Esta questão me suscitou particular interesse após realizar uma pequena experiência com um grupo de pessoas do meu entorno, mais concretamente 37 pessoas. Um número bastante irrisório para se chegar a qualquer conclusão, no entanto, as respostas que obtive me levaram a refletir.
No dia 9 de fevereiro do corente ano, foi publicado no Boletim Oficial n.º 15, 1.º Suplemento, I Série de 09-02-2026 a aprovação do Decreto-Lei n.º 9/2026 pelo conselho de ministros. Este diploma criou o Sistema Táxi Seguro (STS) que corporiza a utilização do sistema global para comunicações móveis (GSM) e do sistema de posicionamento global de satélites (GPS) e permite à Polícia Nacional determinar, a partir do momento em que o condutor ou o passageiro dá o alerta, a localização do veículo em tempo real, quer esteja parado quer em movimento, seguir o seu itinerário e ter acesso ao som ambiente e às imagens de vídeo no interior do veículo.
O objetivo é aumentar a segurança dos taxistas e, por conseguinte, facilitar também a vida do cidadão que utiliza este serviço. Ora, no desenrolar de uma conversa com uma colega, perguntei se, por ventura, já utilizou o aplicativo Taxi Seguro dado que este permite a qualquer usuário, através de seu telemóvel, solicitar um táxi de forma rápida e segura, sem ter que se deslocar para a estrada, principalmente de noite, que muitos assaltos são motivado por alguém que se desloca para ir para a estrada principal e pede um táxi ou espera um táxi.
Então, a partir desse momento, a partir da sua casa, pode solicitar o táxi, esperar, ver e confirmar a matrícula e o taxista, que é certificado e poderá saber que vai viajar em segurança. A resposta, além de ter sido negativa, confirmou que nunca o utilizaria pois não sabe se funciona bem nem se é “confiável”. Então, resolvi, informalmente, fazer esta mesma pergunta a outras pessoas na esperança de conseguir opiniões mais otimistas. Para a minha surpresa, das 37 pessoas que perguntei, 31 me responderam da mesma forma: não utilizaram e nem pretendem o fazer, sendo que algumas nem sabem do que se trata daí também a relutãncia. Mas entre aqueles que já ouviram falar, o principal motivo de não utilizarem é por não confiar. É importante contextualizar referindo que a iniciativa está em fase de implementação gradual.
Talvez deveria ampliar o número da amostra diversificando os estratos sociais analisados, todavia, esta pequena experiência me levou a refletir sobre o quanto devemos confiar e apostar cada vez mais naquilo que é “nosso”, mormente da parte do cidadão comum pois a questão dos investimentos e da aposta por parte do Governo nos conduziriam a outras discussões como, por exemplo, os contratos que são atribuídos a empresas estrangeiras para a execução de serviços que empresas cabo verdianas também poderiam executar, mas estas e entre outras questões, embora igualmente importante, não são alvo deste artigo.
Hoje, em Cabo Verde, temos diversas startups com iniciativas que abrangem setores estratégicos, desde soluções de tecnologia financeira (fintech) e pagamentos digitais, passando por plataformas de delivery e comércio eletrónico, até sistemas avançados de bilhética, gestão de atendimento e economia azul. De realçar que Cabo Verde subiu para a 75.ª posição mundial no Global Startup Ecosystem Index da StartupBlink, consolidando-se como o 2.º melhor ecossistema da África Ocidental (atrás apenas da Nigéria). Na edição de 2024/2025 da Web Summit, Cabo Verde levou a sua maior delegação de sempre (25 startups), demonstrando a escala internacional do talento local. Cabo Verde alcançou um marco histórico ao ser anunciado como a primeira sede de um evento da marca Web Summit no continente africano. O arquipélago acolherá o Web Summit Spotlight em dezembro de 2026.
Todos estes ganhos, em maior ou menor escala, devem nos dispertar para o imperativo de apostar na capacidade e na criatividade do cidadão cabo-verdiano. Para além do setor tecnológico, a criatividade cabo-verdiana expande-se para a moda sustentável, a cosmética orgânica baseada em recursos locais, as indústrias criativas, a produção de conteúdos digitais etc. Em quase todas as aréas temos aplicativos, iniciativas ou projetos desenvolvidos por cabo verdianos com enorme potencial de crescimento e que, de facto, podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Cabe às entidades responsáveis criar as condições necessárias, nomeadamente através de programas e investimentos estruturantes, no entanto, é necessário que a própria sociedade dê um voto de confiança, valorizando e consumindo mais a marca made in Cabo Verde pois talento existe, capacidade também, o que parece faltar, muitas vezes, é confiança.
A psicologia comportamental ensina-nos que, normalmente por causa do efeito dotação, as pessoas tendem a valorizar mais um item que possuem do que um item idêntico que não possuem, influenciado pela aversão à perda e pelo viés de status quo. Por outras palavras, temos a tendência em supervalorizar aquilo que nos pertence em detrimento do que pertence aos outros. Se analisarmos o nosso comportamento e a nossa forma de ser enquanto povo à luz desta lógica, chegaremos á conclusão de que fazemos exatamente o contrário: valorizamos mais o que vem de fora do que aquilo que é nosso. Não se trata de patriotismo exacerbado nem de estabelecer barreiras nacionalistas, até porque somos um pequeno Estado insular com parcos recursos e que não produz a maior parte daquilo que consome, dependendo fortemente de importações para satisfazer as suas necessidades básicas, especialmente em termos alimentares.
No entanto, se há empresas nacionais ou até mesmo pessoas singulares que nos oferecem determinados serviços e produtos, porque não considerá-las? Poder-se-á, á meu ver, legitimamente, colocar em causa a questão da qualidade dos mesmos, entretanto, o que não se pode é, por exclusão de partes, nem equacionar essa possibilidade baseando-se em preconceitos cognitivos, partindo do pressuposto de que, os nossos governantes, as nossas empresas e os nossos cidadãos são menos capazes. No final, parafraseando uma conhecida máxima, creio que a pergunta que fica é simples: se não confiarmos no que é nosso, quem confiará?
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