Entri spada e paredi
Colunista

Entri spada e paredi

A arte não é um espaço neutro nem deve ser reduzida a consumo fácil. Quando a realidade aperta, quando as desigualdades persistem e quando os problemas se acumulam sem resposta, calar-se é uma forma de consentimento. Usar a voz, a escrita, a música ou qualquer forma de expressão não é um luxo, é uma necessidade colectiva. Não se trata de todos dizerem o mesmo, mas de ninguém abdicar de dizer. Porque uma sociedade que perde a coragem de se ouvir a si própria, perde também a capacidade de se corrigir.

Ontem assinalou-se mais um aniversário de Zeca de Nha Reinalda, um nome incontornável quando se fala de música, resistência e identidade cultural em Cabo Verde.

Após a independência, Cabo Verde entra num período de afirmação política e cultural marcado por um sistema de partido único e por um forte controlo institucional sobre a vida pública. É neste contexto que, ao longo do final dos anos 70 e sobretudo durante os anos 80, começam a surgir e a consolidar-se grupos e músicos que vão assumir um papel determinante na construção e preservação da identidade musical nacional. Não se tratava apenas de criar música, mas de definir que país se queria ser, também através do som.

Bandas e formações dos quais o Zeca fez parte, como os Bulimundo e o grupo Finaçon, emergem nesse período como expressões dessa procura. A electrificação do funaná, a valorização do batuque e a recuperação de formas tradicionais de expressão, nomeadamente da Morna, não foram movimentos neutros. Representaram uma deslocação clara daquilo que durante o período colonial fora marginalizado, associado ao interior e às classes populares, passa a ocupar o centro da produção cultural. Este processo, para além de musical, é profundamente político, ainda que nem sempre assumido de forma explícita.

É neste enquadramento que se compreende o papel de Zeca de Nha Reinalda. A sua trajectória, que cruza experiências no grupo Finaçon e no universo do funaná modernizado, insere-se directamente neste movimento de afirmação. Não há ruptura entre tradição e modernidade no seu percurso, mas continuidade. A música que transporta, nasce da vivência concreta e carrega consigo uma leitura da realidade que dispensa mediação teórica.

“Entri spada e paredi”, também conhecida como “Feia cabelo bedjo”, da autoria do seu irmão Zezé de Nha Reinalda (outro grande músico e actualmente arrumado na prateleira), surge precisamente nesse período e deve ser entendida à luz desse contexto. Não é uma composição desligada do seu tempo. É uma crítica clara ao período mais duro do pós-independência, onde o espaço para questionamento era limitado e onde a expressão directa encontrava obstáculos. A música, através das suas letras e da sua circulação popular, tornou-se um dos poucos meios eficazes para expor tensões sociais e políticas.

“Ta kodje purga pa N odja-l ta ba liseu

Déntu si bata branku alvu

Bende pastel pa N kunpra papel

P'e ka fika sima mi”

A força desta música não reside apenas no conteúdo da letra, mas na forma como é transmitida. Ao assentar em ritmos populares, garante uma difusão alargada e imediata. A mensagem não fica confinada a círculos restritos, chega ao povo, instala-se no quotidiano, é repetida, assimilada e reinterpretada. Este processo transforma a música numa ferramenta de mobilização, num espaço onde a crítica se torna partilhada e onde a consciência colectiva se constrói.

“Nhu djuda-m, pa bokadu ka falta-m

Nhu da-m koraji pa N kria nhas fidjus

N ba djobe trabadju, es fika sô ta badja-m

Es bota-m ku nha tabuleru pamô N ka ten ningen na puleru”

A morna, o funaná e outras formas musicais tornam-se veículos de leitura crítica da realidade, sem necessidade de confronto directo, mas com uma clareza cirúrgica para quem as escuta no seu contexto, independentemente da classe social e do nível de escolaridade.

“Nobidadi Kori, Cilistino sisti

N ka sta disfalça e sima bu obi k’im pasa

Frijidera ô faze asnera

Sta nha fidju ki N ka ten brinkadera”

Com a abertura democrática no início dos anos 90, altera-se o enquadramento político e, com ele, a função da música. A necessidade de contornar limitações formais de expressão diminui e surgem novos espaços de participação. No entanto, essa abertura não se traduz automaticamente numa continuidade da música de intervenção. Pelo contrário, à medida que o mercado cultural se desenvolve e que a música se aproxima de uma lógica mais comercial, a dimensão interventiva perde centralidade.

Este tema expõe nos seus versos toda a história de Cabo Verde da época e a “sina” de nôs pov, que é a emigração.

“Feia, kabélu bédju (kabélu bédju)

Sabi ki nen xuxu (sabi ki nen xuxu)

Faze artimanha pa ba Alimanha (ba Alimanha)

Ma tinha nóta sen manha”

Hoje, apesar da diversidade e da qualidade existentes, a música raramente assume esse papel de mobilização social e política com a mesma consistência. Os temas persistem, as tensões mantêm-se, mas a sua tradução artística tornou-se mais contida. A escolha de não arriscar substituiu, em muitos casos, a urgência de dizer.

“Entri spada e paredi” permanece, assim, não apenas como uma música de um determinado período, mas como registo de uma função que a música já desempenhou em Cabo Verde com clareza, que é a de dar voz a um povo colocado entre limites concretos (Entri spada e paredi), e de transformar essa condição em consciência colectiva.

Assinalar os 70 anos do Zeca de Nha Reinalda não deve, por isso, limitar-se a um gesto simbólico ou simples celebração. É um momento que exige memória, enquadramento e reconhecer o papel que desempenhou num período em que a música assumiu responsabilidades que hoje parecem diluídas.

Mais do que homenagear o artista, trata-se de resgatar o sentido da sua intervenção, recolocando-o no lugar que lhe pertence na história cultural do país que, para mim, é o de símbolo de resistência e de afirmação de uma identidade que durante séculos nunca aceitou ser secundarizada.

A arte não é um espaço neutro nem deve ser reduzida a consumo fácil. Quando a realidade aperta, quando as desigualdades persistem e quando os problemas se acumulam sem resposta, calar-se é uma forma de consentimento. Usar a voz, a escrita, a música ou qualquer forma de expressão não é um luxo, é uma necessidade colectiva. Não se trata de todos dizerem o mesmo, mas de ninguém abdicar de dizer. Porque uma sociedade que perde a coragem de se ouvir a si própria, perde também a capacidade de se corrigir.

Parabéns Zeca! Que esta nova geração siga o teu legado.

FORTE APLAUSO

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