É o próprio Ulisses que confirma estar de saída
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É o próprio Ulisses que confirma estar de saída

Ulisses Correia e Silva gosta da bajulação, abomina massa crítica e tem como característica central da sua genética vivencial a deslealdade, a ingratidão e a vingança, que esgrime com maestria e procura infligir aos seus adversários e inimigos reais ou imaginários no momento certo. Toda a gente que o conhece relativamente bem sabe disso, mesmo aqueles que agora fingem apoiá-lo para mais tarde lhe aplicarem a ferroada de escorpião.

Como por magia o folhetim da constituição das listas de candidatos do PAICV passou a segundo plano nas redes sociais e nos mentideros da política cabo-verdiana. O recente furação das listas do MpD levou a rapaziada ventoinha a mudar de azimute quando percebeu que continuar a invectivar o adversário por esse pormenor estava a atingir o seu próprio telhado, aconselhando o recuo táctico para evitar mais danos. É o que acontece quando se navega à vista.

É um clássico da política, por cá e em todo o mundo, salvo honrosas excepções, a constituição das listas de candidatos dos partidos é sempre um momento de tensão, de efervescência interna e, não raras vezes, de canalhices extremas. Há sempre quem fique para trás e quem queira ficar mais à frente. É próprio da desgraça que é a natureza humana.

Porém, no caso particular do ainda partido do Governo as coisas assumem características muito próprias não susceptíveis de generalizações e muito centradas no líder de turno, neste caso, Ulisses Correia e Silva, que está objectivamente de saída, como o próprio confirma implicitamente e os factos comprovarão mais adiante.

O ainda primeiro-ministro e presidente formal do MpD (formal, porque o homem já não lidera nada) esmerou-se na produção de listas à sua imagem e semelhança, procurando, salvo uma ou outra excepção calculista, rodear-se dos mais fiéis, não dos que pensam com a própria cabeça, não dos que acrescentam nas suas diferenças, não dos que têm capital político fáctil, que mobilizam pessoas e capitalizam votos.

Ulisses refém dos seus medos

Ulisses Correia e Silva gosta da bajulação, abomina massa crítica e tem como característica central da sua genética vivencial a deslealdade, a ingratidão e a vingança, que esgrime com maestria e procura infligir aos seus adversários e inimigos reais ou imaginários no momento certo. Toda a gente que o conhece relativamente bem sabe disso, mesmo aqueles que agora fingem apoiá-lo para mais tarde lhe aplicarem a ferroada de escorpião.

Outra característica do ainda primeiro-ministro é a desconfiança, a tendência de ver opositores internos em todo o lado e de estar permanentemente alerta para os neutralizar, embora deles se aproveite pontualmente para não ver gorados os seus objectivos principais: a manutenção do poder e as suas ambições políticas pessoais. É o que acontece com líderes fracos que confundem liderança com a cultura do chefe e vivem reféns dos seus medos.

Partido passou a ser uma espécie de sociedade anónima

O presidente do MpD nunca foi um homem do partido e, muito menos, um homem de partido. Ulisses levou sempre ao extremo o princípio de que os partidos são instrumentais, no seu caso não por razão de serem veículos de valores mais altos, antes como condutores de interesses pessoais.

O “Nha Partido é Cabo Verde”, o slogan que o levou ao poder em 2016, diz muito sobre a verdadeira natureza do personagem. Ulisses Correia e Silva sempre se esteve borrifando para o MpD e, logo nos primeiros momentos, quando assumiu a presidência do partido em 2013, deu sinais claros que só não viram os mais distraídos e a corte de apoiantes ocasionais e oportunistas, deslumbrados com a possibilidade de fazerem carreiras e subirem na vida às costas do partido e do Estado.

No plano orgânico, o ainda primeiro-ministro deu sinais inequívocos das suas intenções. Substituiu o secretário-geral do partido pela figura de um administrador-geral, acabou com as comissões políticas regionais e passou a intervir directamente na composição das comissões concelhias, transformando-as em órgãos da sua vontade pessoal.

E, naturalmente, como machadada final das suas intenções mais profundas, virou costas à militância, transformando o partido numa espécie de sociedade anónima liderada por um presidente do conselho de administração, ele próprio, elevado à condição mística de figura providencial.

O partido, da noite para o dia, foi transformado numa empresa de produção massiva de votos e os militantes substituídos por eleitores. Isto, no centro de uma poderosa campanha de marketing e de uma bem orquestrada estratégia de ampliação do assistencialismo, de utilização de recursos públicos e do financiamento externo delinquente para comprar votos.

A transformação de um partido de militantes em uma empresa de eleitores tem, porém, um problema central: nos momentos mais apertados, quando se está no poder e a sua legitimidade começa a ser posta em causa pelo impulso crítico da sociedade, sem combate político local, sem mobilização organizada no apoio ao Governo, o caminho só pode ser o da derrota. E Ulisses (porque, do ponto de vista político, é uma anta) já percebeu isso tarde.

O tudo por tudo em Santiago Sul

Aparentemente, não tem lógica que um chefe partidário constitua uma lista de candidatos, como é o caso de Santiago Sul, onde as figuras de topo nada contem em termos de capacidade de mobilização do eleitorado e conquista de votos. Uma lista encimada por pessoas malquistas nos seus próprios círculos eleitorais e rejeitadas pelo eleitorado da capital, conforme ficou bem expresso nos últimos embates autárquicos.

Em queda acentuada nas intenções de voto, com níveis de rejeição três vezes superiores aos do seu adversário mais directo, Ulisses é um homem sitiado e com autoridade política irreversivelmente abalada. Por isso, já não tem qualquer ilusão sobre uma remota vitória eleitoral em 17 de maio. O ainda primeiro-ministro limita-se (também ilusoriamente) a acautelar o seu futuro político e a ambição de, em 2031, poder ser presenteado com o cargo de presidente da República.

Sendo o círculo eleitoral mais decisivo, aquele que elege mais deputados, é em Santiago Sul que Ulisses Correia e Silva tem mais possibilidades de garantir presença significativa dos seus mais fiéis no parlamento e nos órgãos de decisão partidária após a previsível hecatombe de 17 de maio.

Tomando como referência o percurso de José Maria Neves que, saindo da governação e fazendo uma travessia do deserto, se alcandorou com a legitimidade incontestável do voto à presidência da República, Ulisses pensa poder mimetizar o feito, não percebendo que a história não se repete, para mais quando mudam os protagonistas. E, sejamos sérios, o actual presidente da República não foi candidato em 2016, ao contrário de Ulisses que, a apresentar-se como candidato em 2031, teria sobre si o anátema de ter sido primeiro-ministro e candidato derrotado à sua sucessão, em circunstâncias de refluxo da sua imagem e da sua autoridade política, acossado pela rejeição social.

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