Sondagem divulgada semana passada. Por trás dos números
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Sondagem divulgada semana passada. Por trás dos números

Pelas projeções dessa sondagem o MpD perderia mais de 54.000 votos da eleição de 2016 para a de 2026 atribuindo-lhe cerca de 68.000 votos o que o colocaria numa posição de baixíssima probabilidade de vitória eleitoral no presente ano, dado que o mínimo para vencer as Legislativas situará acima de 110.000 votos. Para o MpD vencer as eleições legislativas com as projeções de votos da sondagem em 31%, PAICV 25% e UCID 4% teria que ocorrer que PP, PSD, PTS e outros partidos deveriam em conjunto, ao menos, abocanhar 40% dos votos e se isso ocorresse, esse bloco de partidos seria maioritário!!! Não deu para entender como se possa concluir que o MpD venceria as eleições com uma votação de 31% e os quase 70% de votos remanescentes não constituiriam maioria???!!!

I - VISÃO HISTÓRICA

Em Cabo Verde, estudos sobre o comportamento eleitoral e resultados eleitorais durante três décadas de democracia fornecem informações que nos permitem enquadrar e interpretar sondagens eleitorais dentro desse quadro mais estrutural.

O Gráfico mostra que a projeção dos dados da sondagem publicada pela imprensa neste último fim de semana assinalando a intenção de votos no MpD em 31% se as eleições legislativas fossem realizadas em dezembro de 2025 corresponde ao pior resultado que esse partido jamais alcançara ao longo de todas as eleições legislativas desde 1991, resultado esse, inclusive, pior do que obtivera em 2001, 2006 e 2011 quando perdera as eleições, sucessivamente, para o PAICV.

Quando observamos a votação no MpD nos últimos 10 anos (2016 a 2026) constata-se uma aceleração na perda de votos nos ventoinhas, especialmente, no último mandato de 2021 a 2026:

Pelas projeções dessa sondagem o MpD perderia mais de 54.000 votos da eleição de 2016 para a de 2026 atribuindo-lhe cerca de 68.000 votos o que o colocaria numa posição de baixíssima probabilidade de vitória eleitoral no presente ano, dado que o mínimo para vencer as Legislativas situará acima de 110.000 votos.

Para o MpD vencer as eleições legislativas com as projeções de votos da sondagem em 31%, PAICV 25% e UCID 4% teria que ocorrer que PP, PSD, PTS e outros partidos deveriam em conjunto, ao menos, abocanhar 40% dos votos e se isso ocorresse, esse bloco de partidos seria maioritário!!! Não deu para entender como se possa concluir que o MpD venceria as eleições com uma votação de 31% e os quase 70% de votos remanescentes não constituiriam maioria???!!!

II - ERRO OU MANIPULAÇÃO NA REPRESENTAÇÃO E CONVERSÃO DOS VOTOS EM CADEIRAS

Cabo Verde realiza eleições Legislativas, Presidenciais e Autárquicas regulares e periódicas desde 1991 até ao presente, consequentemente, contamos com sete rodadas legislativas e presidenciais e oito rodadas autárquicas.

Paralelamente, existem dezenas de estudos eleitorais e sondagens sobre esse período acabado de citar.

Desde a primeira eleição legislativa e presidencial realizadas em 1991, o universo dos eleitores inscritos e que exercem o direito de voto é composto por eleitores residentes e eleitores na diáspora.

Segundo as regras de distribuição dos mandatos aplicado nas últimas eleições legislativas de 2021, a diáspora elege seis deputados e os residentes elegem 66, distribuídos por 10 círculos eleitorais.

Portanto, o universo dos eleitores cabo-verdeanos para as eleições legislativas é constituído pelo conjunto dos eleitores residentes e eleitores na diáspora.

Quando uma sondagem toma como base apenas eleitores residentes e generaliza conclusões nacionais quanto à suposta dianteira do partido “X” ou “Y”, ignorando a votação da diáspora comete um grande erro ou manipulação de resultados.

Caso fossem atribuídos os votos da diáspora favorávelmente a um ou outro partido a suposta vantagem de um partido alegadamente atribuída pela sondagem poderia mudar para o outro tornando a conclusão dessa sondagem falsa.

Não existem dados que permitem concluir técnicamente que um determinado partido esteja com vantagem em relação aos outros considerando o universo real dos eleitores e os dados colhidos.

A sondagem vai além quando faz a distribuição dos mandatos em função das intenções de voto desconsiderando requisitos básicos como a taxa de abstenção, a atribuição dos mandatos pela CNE, a desproporcionalidade eleitoral e a decisão de votação tardia dos eleitores que são fatores determinantes dos resultados eleitorais e da distribuição dos mandatos por círculo e os ignora completamente.

A sondagem comete um erro ao converter votos dos eleitores que afirmaram que não pretendem votar em nenhum partido político (17%), aqueles que se declararam indecisos (14,3%) e aqueles que não responderam ou não sabem em quem votar (7,7%) em cadeiras eleitas a favor dos partidos políticos cujas intenções de voto foram manifestadas.

Ora, não há nada nem teórica e nem empiricamente que a sondagem tenha apresentado e demonstrado que garanta que esse conjunto de cerca de 40% de votos tenha que ser distribuído proporcionalmente pelos partidos em função das intenções de voto conhecidas.

Por exemplo, se os indecisos e os que disseram que não sabem e não querem responder resolverem votar todos na UCID poderia alcançar mais de 26% de votos nacionais e bastava que tivesse a metade dos votos da diáspora para se tornar o partido mais votado e o mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao PAICV!

Consequentemente, a conclusão da sondagem de que o MpD pelos dados apresentados estaria em vantagem não corresponde à verdade e é facilmente desmontada e demonstrada.

A intenção de voto do eleitor não determina a distribuição de cadeiras no parlamento por que desses eleitores que declaram voto em um ou outro partido boa parte nem vai votar, ou seja, pode se abster.

A CNE só depois que o Presidente da República marca a data das eleições é que elabora um calendário eleitoral e apresenta um mapa atualizado da distribuição dos mandatos por círculo eleitoral para que cada partido possa saber quantas cadeiras estarão em disputa em cada círculo, sendo que uma cadeira que num ano eleitoral poderia estar sendo disputada em Santo Antão, no pleito seguinte pode ser deslocada para Santiago Sul ou Fogo, invalidando a premissa da distribuição de mandatos apresentada pela sondagem.

A disproporcionalidade eleitoral é a desconformidade entre o número de votos e a representação eleitoral. Considerando que Cabo Verde tem mais círculos pequenos (que elegem dois ou três lugares) do que grandes círculos e não há a transferência de votos entre círculos para o mesmo partido, um determinado partido pode ter em termos absolutos mais votos mas em termos de representação eleitoral pode eleger menos deputados proporcionalmente devido ao desperdício de votos determinado pelas votações em círculos que não foram convertidos em cadeiras eleitorais.

Estando a quatro a seis meses das eleições a maioria esmagadora do eleitorado ainda não liga o “radar” das eleições, a sondagem nesse período capta mais as preferências partidárias do que o que irá acontecer no dia das futuras eleições.

A base de dados censitário para as sondagens atuais é o censo de 2020/21 e sabe-se que de lá para cá houve um intenso fluxo migratório para o exterior e também interno, caso a sondagem não tenha levado em conta a atualização da base censitária os seus resultados apresentarão enviesados, ou seja, errados. Desconhece-se pela nota de imprensa que tenha havido qualquer atualização da base de dados censitários para a realização prévia dessa sondagem.

III - AVALIAÇÃO NEGATIVA DO GOVERNO do MpD e CONSEQUÊNCIAS

O Governo do MpD e seu PM, Ulisses Correia e Silva são muito mal avaliados desde 2022 e permanecem mal avaliados em 2024 (apenas 31% de bom e muito bom) e aparentemente continuam mal avaliados em 2025 pelos dados da sondagem apresentada que lhe atribuem 31% de intenção de voto.

A hecatombe eleitoral autárquica de 2024 foi a demonstração prática da rejeição do MpD observada através da transição da maioria das Câmaras Municipais até então governadas pelo MpD para o PAICV.

Pela distância temporal até a data das próximas eleições legislativas, o MpD precisava de ter no mínimo, uma avaliação positiva (bom e muito bom) de 65% (e tem menos da metade desse valor nesse momento) e conseguir assegurá-la até a data das eleições, tal que, desses eleitores, se mais de 2/3 votarem a favor do partido teria alguma chance de sucesso eleitoral.

Os números apresentados dessa sondagem ao serem contestualizados numa perspectiva histórica mostram que a probabilidade da derrota eleitoral ventoinha cresce a velocidade da luz à medida que o tempo passa.

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