Abandono de Santiago Norte e o desprezo do setor primário da economia
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Abandono de Santiago Norte e o desprezo do setor primário da economia

Quando o país é chamado a votar, o voto não pode ser um salto no escuro. Santiago Norte não pode votar no vazio. É tempo de exigir respostas, projetos, programas, metas, e sobretudo respeito. Respeito por uma região que sustenta parte significativa do país, que tem potencial e história, e que não merece carregar fardos desproporcionais sem retorno em políticas públicas efetivas. Santiago Norte não pede favor. Pede justiça. Justiça territorial. Justiça social. Justiça económica. E, acima de tudo, pede aquilo que qualquer democracia deve garantir: um Estado que não abandona os seus.

Cabo Verde sem Santiago seria, certamente, qualquer outra coisa – mas não este país inteiro e luminoso, terra de sol, mar, montanhas, vales e achadas, mas também do batuku, tabanka, funaná, morna e coladeira. Enfim, terra de uma cultura única.

Por sua vez, Santiago sem a sua região Norte seria também outra coisa - mas não esta ilha que, com raízes fundas, permanece depositária maior da cultura tradicional do arquipélago e, ao mesmo tempo, celeiro de Cabo Verde, abastecendo a cozinha e as mesas dos cabo-verdianos.

Se isto é verdade – e é – então há uma conclusão inevitável: o Cabo Verde que conhecemos só é assim porque Santiago é; e Santiago só é plenamente Santiago porque o seu Norte existe, com as condições e potencialidades que o caracterizam.

Falamos de uma região de peso incontornável: a maior região administrativa e política do país, agregando seis municípios, e a segunda em termos populacionais. No plano económico e produtivo, a sua relevância é ainda mais evidente. A capacidade agrícola e pecuária de Santiago Norte ocupa um lugar central no contexto nacional. As bacias hidrográficas – dos Engenhos, de Boa Entrada, da Ribeira Seca, dos Picos, de Principal, entre outras – e achadas agrícolas – Achada Grande, Colonato, entre outras – concentram um potencial significativo que, associado a investimentos sérios em transformação, industrialização e cadeias de valor, poderiam elevar a região a patamares superiores – convertendo recursos endógenos em crescimento económico, emprego e produção de riqueza.

A região recebeu, em ciclos políticos anteriores, investimentos estruturantes em infraestruturas viárias e agrícolas: melhorias e asfaltagem de estradas, barragens, projetos de mobilização de água (abertura e equipamento de furos), introdução de novas técnicas de irrigação e intervenções no setor pecuário (melhoria de raças), bem como apoios pontuais ao setor das pescas, com financiamento de botes e equipamentos de conservação do pescado. Houve, até 2016, uma dinâmica pública mais clara no olhar sobre estas potencialidades – com estratégia, com execução, com sentido de futuro.

O que se seguiu, porém, é difícil de negar: nos últimos anos, Santiago Norte viu-se progressivamente empurrada para a periferia das prioridades. Desafios, oportunidades e potencial foram, em grande medida, ignorados por quem tem a obrigação política e institucional de gerir os recursos públicos – o dinheiro do povo, os nossos impostos e taxas – em função do interesse coletivo.

E aqui reside o ponto mais duro, mais urgente e mais exigente desta reflexão: as estatísticas e a realidade social mostram que a pobreza em Cabo Verde tem rosto rural. Santiago Norte é maioritariamente rural. Logo, o golpe recai aqui com maior intensidade. E a pergunta que deve inquietar qualquer consciência pública é simples e incontornável: é aceitável que Santiago Norte continue a ser a parcela mais pobre do território nacional?

Não. Não é aceitável. E não é aceitável por uma razão elementar: se desenvolvimento significa elevar a vida real das pessoas, então não se pode admitir que uma região que alberga cerca de um quarto da população do país permaneça, ano após ano, entre as mais vulneráveis, como se o Estado pudesse naturalizar a desigualdade territorial.

Mais: num momento em que se repete, no discurso oficial, que o país cresce a ritmos elevados (7% diz o MpD e o Governo), é legítimo perguntar – com franqueza e sem medo – como se concilia e se compatibiliza a narrativa do crescimento com a persistência da pobreza estrutural numa região com esta dimensão social e económica?

E estas perguntas não podem ser vistas como retórica vazia ou manias de gentes da oposição. São exigências de prestação de contas. São convocatórias à responsabilidade. Sobretudo quando o país se aproxima de um momento eleitoral – 17 de maio está aqui à porta – em que o povo precisa de balanço para votar em consciência e com sentido de justiça.

O quadro está muito claro: uma governação que descontinua projetos estruturantes e não apresenta alternativas concretas coloca a região num impasse. Fala-se de soluções, anuncia-se investimentos, promete-se transformação – mas, no terreno, os agricultores continuam a enfrentar os mesmos problemas: água insuficiente, assistência técnica frágil, financiamento precário e ausência de uma visão clara para o amanhã.

E aqui cabe uma afirmação que é mais ética do que partidária: um país como o nosso não pode desprezar o mundo rural. Quem ignora os homens e as mulheres do campo – gente trabalhadora, corajosa e honesta – ignora uma parte essencial da alma nacional (o cabo-verdiano enquanto centro de todo o processo governativo) e compromete o equilíbrio do desenvolvimento.

E as consequências deste desprezo, deste abandono estão à vista de todos nós: Santiago Norte perde população. A emigração forçada e o êxodo rural transformam-se em resposta amarga à falta de oportunidades. E isso fere a nação, porque enfraquece o desenvolvimento regional, agrava assimetrias e corrói a coesão social. Um país justo, inclusivo e próspero não se constrói com territórios condenados a “esperar pela sua vez”.

Por isso, quando o país é chamado a votar, o voto não pode ser um salto no escuro. Santiago Norte não pode votar no vazio. É tempo de exigir respostas, projetos, programas, metas, e sobretudo respeito. Respeito por uma região que sustenta parte significativa do país, que tem potencial e história, e que não merece carregar fardos desproporcionais sem retorno em políticas públicas efetivas.

Santiago Norte não pede favor. Pede justiça. Justiça territorial. Justiça social. Justiça económica. E, acima de tudo, pede aquilo que qualquer democracia deve garantir: um Estado que não abandona os seus.

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SOBRE O AUTOR

Carla Carvalho

Editora e colunista de Santiago Magazine, política, socióloga, professora universitária, pesquisadora em género e desenvolvimento

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