
Na data em que o Primeiro-Ministro está a inaugurar um quilómetro de estrada em Boa Entrada, Dário continua sem diagnóstico e sem possibilidade de sair do país a tempo. Quero saber o que é que o Estado de Cabo Verde já escreveu no caderno de saúde de Dário até à página 71. Essa página corresponde às consultas realizadas aos 13 anos de idade.
O quotidiano, sorrateiro e insidioso que poderá estar a minar o nosso ser, apesar do sistema social instituído com base em equipamentos ultramodernos.
Para que nunca mais aconteça e que não reste dúvidas sobre o menino Dário que tem vivido dificuldades em sair de Cabo Verde para outro país da CEDEAO onde se circula sem VISTO. O que acontece com os africanos. O diálogo é impossível?. Isto é uma exigência mínima numa sociedade de desenvolvimento médio-alto, com telemóveis ultramodernos espalhados por todas as mãos… até nas mãos das crianças.
Um menino de Achada Laje
O pai circula por aqui, entre o mar e a terra… é irmão do meu compadre. A mãe emigrou para a Europa, depois de mais de dez anos na ilha da Boa Vista para onde migrou, a partir de Santa Cruz, na ilha de Santiago. Dário nasceu na ilha turística das dunas e chegou à escola, no primeiro ano de escolaridade pelas mãos da avó, na ilha de Santiago.
Os avós: o patriarca padece de males com o álcool e a matriarca (avó materna) de dores crónicas. A tia Fatinha está por perto e de prontidão.
Dário vive com os familiares da mãe e joga bola no campo de terra batida ao pé da escola, em Achada Laje.
Se der ou necessário for:
Undi Dário? É sta pa li… Nhos djobe-l bera kanpu, lá.
As primeiras memórias da escola
Dos meus registos de visita às salas de aula, há uma memória. A professora dele, no 1.º ano de escolaridade, chamou-me para uma observação do menino no primeiro trimestre do ano letivo 2019/2020. Faz agora sete anos.
Ele parecia meio agitado, revirava a cabeça por tudo e por nada e estava sempre a cantar.
A professora dizia, meio intrigada:
El é só kanta ku tora kabésa.
Conheço os avôs — paterno e materno. Os dois senhores são agitados, digamos assim hiperativos; o paterno já é falecido. Totó di Kobon Santxa e Bartolomeu di Pintxósa.
O acidente que parecia banal
Em meados do terceiro trimestre do ano letivo 2024/2025, fala-se que Dário partiu o braço. Era essa a informação que circulava na escola.
Terá sido no ombro ou perto do ombro, a julgar pelo gesso em formato de camisa que chegou a levar para as aulas, prendendo-lhe o braço direito junto ao corpo.
Foi um episódio que, na altura, parecia apenas mais um acidente entre tantos que acontecem nos recreios e nos campos improvisados de futebol.
O gesso, o calor e o tempo que passa
Dário regressou às aulas com o gesso. O calor apertava já nessa altura do ano.
Quem ensina sabe como o clima, às vezes impiedoso, se infiltra nas salas e nos corpos.
O gesso, pesado e fechado, tornava-se um pequeno cárcere para o braço do rapaz.
Com o passar das semanas, a professora testemunha que o odor se tornava intenso, provavelmente fruto da transpiração acumulada e da pele abafada sob aquele invólucro rígido.
O gesso foi removido em menos de um mês.
Quando algo começa a mudar
Entretanto, algo se transformava silenciosamente.
Com o tempo, Dário começou a perder a capacidade de escrever. O braço direito deixou de responder como antes.
Os colegas passaram a ajudá-lo.
Há nessas pequenas solidariedades infantis algo de profundamente humano: a escola continua a funcionar como comunidade antes mesmo de qualquer instituição formal.
O inchaço que levantou dúvidas
Depois veio a retirada do gesso. Esperava-se que tudo voltasse gradualmente ao normal.
Mas o braço começou a inchar.
Primeiro discretamente, depois de forma cada vez mais visível.
O que antes era interpretado como consequência de uma fratura começou a revelar contornos mais inquietantes.
Seguiu-se o internamento.
As perguntas que a sociedade faz
Hoje, nas redes sociais, circulam imagens do tumor que atingiu dimensões impressionantes — fala-se de algo entre 25 e 30 centímetros.
Para a comunidade, importa dissipar a fumaça da desconfiança.
O tumor já estaria instalado no osso antes da fratura?
Ou terá surgido depois?
A medicina moderna deixa sempre rastos documentais. Entre eles, um é particularmente esclarecedor: a radiografia feita no momento da fratura.
Estas perguntas não são acusações. São perguntas legítimas de uma sociedade que procura compreender.
O caderno de saúde que deveria contar a história
Neste ponto importa recordar um instrumento simples, mas fundamental: o caderno de saúde da criança e do adolescente.
Há sete anos que pergunto pelo caderno de saúde de Dário. Não trouxe da Boa Vista.
Nesse instrumento tudo deveria estar registado:
consultas
evolução do peso
doenças
observações médicas.
Quando bem utilizado, torna-se uma memória de saúde.
A importância do registo e da vigilância
Cada criança carrega consigo uma história clínica em construção.
Essa história precisa de ser escrita passo a passo.
Talvez o caso de Dário nos convide a recuperar a cultura do registo, da atenção continuada e da articulação entre escola e sistema de saúde.
A necessidade de transparência
Se queremos aprender com esta história, é necessário reconstruir o percurso clínico com clareza:
radiografias
consultas
datas
decisões médicas.
Não para alimentar polémicas, mas para produzir conhecimento social e justiça.
Uma pergunta para o país
Porque, no fundo, a pergunta que fica suspensa no ar é simples e dolorosa:
em que momento o destino de Dário poderia ter sido diferente?
Comecemos a preencher convenientemente os cadernos de saúde?
O silêncio das instituições
Na data em que o Primeiro-Ministro está a inaugurar um quilómetro de estrada em Boa Entrada, Dário continua sem diagnóstico e sem possibilidade de sair do país a tempo.
Quero saber o que é que o Estado de Cabo Verde já escreveu no caderno de saúde de Dário até à página 71.
Essa página corresponde às consultas realizadas aos 13 anos de idade.
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