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Por: João Cardoso

 

 

 

Morrison

I

Acredito que as pessoas nascem apaixonadas como os estuários ou as escumas que todas as ondas transportam para fazer saltitar peixes voadores ou a ressurreição d’almas que acontece todos os dias como o desabrochar das flores de Cactaceae Mannillaria Bombycina. Ando-me, em agosto, a sonhar com fantasmas igual ao mar de pedras ou de beijos que enchem o mar com legendas azuis.

Esse mesmo sonhar e sorriso rasgado obrigar-me-ei a cuidar das plantas dentro da casa onde, os pássaros cantarão de alívios pela tarde fora, para que a ressurreição aconteça todos os dias como a força divinal (The trip to heaven is just one way ticket). Sei quando lá chegar, guardar-me-ei o medo da minha estupidez e do pequeno riso, tão fininho como uma lâmina ou como hóstia sagrada à espera dos cristãos, e, ficar-me-ei farto de beber os meus vinhos; sem poder olhar por umbigos do Mundo. Ups! Ups!

II

Morreu Toni Morrison, a escritora afro-americana que foi laureada, em 1993, com Nobel Pulitzer Prize in Literature. Logo, pensei no «Beloved» com Histórias ou como viagens em torno do tempo tenebroso da revolta, com derrame de sangue, do desespero e das angústias sepulcrais: “l’amour à mort d’une mère au temps de l’esclavage”. Acabei por consolar-me por que a história de todas as vidas, se podem dividir em três momentos: da inocência na infância, do amadurecimento na idade adulta, e, da consciência na velhice.

Mas, a força da consciência visionária de Morrison ressuscitará na seriedade em relação às próprias paixões e às palavras que continuarão vivas como hoje, como sempre, e, sem turbulências, na cidade de Lorain, em Ohio. (Certamente, a ressurreição pode ser o início de uma vida e não necessariamente o fim). A irreverente e a talentosa académica usou a ironia da linguagem literária, com sagacidade e revolta, que são retratos de encontros e desencontros passionais: a efabular e a contar, a contar… L’Oeil le plus bleu. A memória chorou e exige as cicatrizes, com orgulho, mesmo que haja outras lágrimas e outras cores dos olhos.

III

Com as cores da minha janela d’alma chorar-me-ei e entoar-me-ei - com a mesma irreverência - a Spiritual Song «Wade in The Water» de inspiração no Velho Testamento Bíblico, com os filhos de Israel e a história de Moisés. Sei da sua dor! Sei também que a América sabe que o seu coração pulsa, enodoado. (Os seus sonhos, os seus sentimentos e os seus pensamentos cruzarão sempre com as janelas d’almas, e, com os anjos nas manhãs sem lágrimas). Cantar-me-ei com júbilo uma das mais famosas Spirituals “Go Down Moses”! “Were You There” \ Swing Low Sweet Chariot” \ Amazing Grace\ “Ol’ Man River” do musical de Broadway, ShowBoat (1927) de Kern e Hammerstein. Assim, brevemente, o coração de Morrison regressará da Galáxia e do Cosmos à sua casa com paixões e com sabias palavras. Beijos azuis…

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