POESIA ORAL – BATUKU DI KABU BERDI - IV
Cultura

POESIA ORAL – BATUKU DI KABU BERDI - IV

“Batuku e aima di povu” (KD) & “Batuku sta na moda” (OP)

A tradição oral está sempre integrada aos diferentes aspetos da vida social, desempenhando funções múltiplas e variadas. Atua como memória da sociedade e transmite códigos de ética e expressão estética (Conclusão da Conf. Intergovernamental sobre Políticas Culturais na África – Acra, 1975 apud Filho 1985[i]).

A nossa tradição oral é portadora de uma grande riqueza da qual as festas tradicionais, as devoções populares, os usos e os costumes, a dança e a música, a culinária, a medicina tradicional, entre outros, são testemunhos por si. Estas manifestações, além da sua função educativa, têm com frequência uma função informativa, dado que, na maior parte das vezes chamam atenção para os problemas da nossa sociedade, tanto os de caráter político como os de caráter económico e sociocultural, além de contarem um pouco da nossa história.

A tradição oral merece destaque por representar um importante repertório, transmitido de geração em geração e sedimentado ao longo dos séculos, sobrevivendo às exigências do progresso e, como tal, suporte da identidade de cada povo.

O professor universitário, Antropólogo, Historiador, Romancista e investigador cabo-verdiano João Lopes Filho (Ribeira Brava,  1943) entende a tradição oral como conjunto de formas, termos e composições anónimas, impessoais e coletivas, transmitidos oralmente ao longo dos tempos e que o vulgo vai transformando com sucessivas adições e supressões (Filho, 1985[ii]).

Nesta perspetiva, a «memória coletiva» de Cabo Verde é um expressivo testemunho do viver da sua gente, porque documenta experiências de um quotidiano onde se poderão captar valores autênticos que revelem a evolução sociocultural e económica do seu povo, conclui (Filho, 1985[iii]).

Nas palavras do autor citado, a tradição oral do arquipélago é timbrada pela acentuada pureza e simplicidade aliada à criatividade imagética e, é uma enciclopédia viva do nosso ‘património sociocultural’. O mesmo autor alerta para a necessidade de recolher este tesouro antes que seja subvertido pelo progresso. Não será isso que o Batuku tenta fazer? Apesar de introduzir ou melhor de ser hoje uma música de fusão – nova roupagem - está a regressar às fontes sem afastar-se da ‘espinha dorsal’ – do essencial.

O escritor, poeta, filósofo e antropólogo cabo-verdiano que estuda a tradição oral e a herança musical de Cabo Verde  -T.V. da Silva (1948 São Jorge dos Órgãos, Santiago) diz que a tradição oral é uma plataforma importante de entendimento, de compreensão e de evolução de qualquer comunidade humana que moram num determinado território e período de tempo. É uma base de valores onde cultura de qualquer comunidade humana nasce e fundamenta a sua identidade específica. É um património (T.V.Silva, 2005[iv]). Falar da Tradição Oral é falar de uma parte significativa da cultura das ilhas nos seus vários domínios e subdomínios.

Refira-se que os sons existem desde que começou a haver vida sobre a terra e podem ser ouvidos desde um simples eco de rochedos ao chilrear dos pássaros, encontrando-se assim, segundo (Tavares, 2005[v]) todos os seres que habitam o planeta em permanente convivência com a harmonia musical sem muitas vezes, dela se aperceberem.

Como combinação perfeita de sons, a música é uma faculdade que só pertence ao seu humano que, como pensante, é o único a quem é dada a faculdade de conhecer e transformar o mundo que o rodeia. Por esta razão, explica (Tavares, 2005[vi]), qua a busca da sua origem nunca foi pacífica e chegou-se mesmo, ainda na antiguidade, a atribuir-lhe procedência metodológica, um fenómeno que nem sequer o tempo se encarregou de desmoronar, continuando a permanecer, num ou noutro caso, até aos dias de hoje.

A música cabo-verdiana é das coisas mais rica que temos no país, a música tradicional é fabulosa (algures).

O povo cabo-verdiano segundo alguns, é resultante de um povo em cujo quotidiano a música sempre teve peso, abarcando a totalidade das circunstâncias da vida, da fome à fartura, da partia ao regresso, do lirismo esfusiante à depressão, da alegria à tristeza, da dor à euforia, da morte à vida, da religiosidade ao senso da eternidade (Cf. Iº Encontro da Música Nacional).

A música, no espaço cultural cabo-verdiano, para além do papel que universalmente lhe está reservado, destina-se a ser cantada, tocada e dançada. Outros, porém, confinando-se unicamente à dança, não deixam, segundo (Tavares, 2005[vii]), todavia de construir um forte traço cultural, pois espelham a ossatura da identidade de um povo.

É claro que a produção popular em Cabo Verde não se restringe apenas à morna e à coladeira. Pelo contrário, longe de se limitar a essas duas maiores expressões típicas musicais, o sistema vai-se progressivamente ampliando e consolidando com o surgimento de outros géneros ou práticas musicais com forte influência africana e não só, graças ao contributo de prestigiados compositores e intérpretes musicais. Aqui se destacam figuras de pro que impulsionaram a música cabo-verdiana e lhe deram outra ‘roupagem’, como sejam: Katxás, ligado ao funaná e Orlando Pantera, ligado ao batuku e tabanka.

 

 



[i] FILHO, João Lopes. Defesa do Património Sócio-Cultural de Cabo Verde. Biblioteca Ulmeiro nº 18. Lisboa, 1985.
[ii][ii] Ibdem
[iii] Ibdem
[iv] SILVA, T.V. (Kon)Tributu (pa libertson y dizanvolviméntu). Ediºc|ao IIPC. Praia, 2005
[v][v] TAVARES, Manuel de Jesus Fortes, Aspectos Evolutivos da Música Cabo-verdiana. Edição Centro Cultural Português-Instituto Camões. Praia, 2005.
[vi] Ibdem
[vii] Ibdem

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