
Quer que o voto seja voz,/ e não só cerimónia./ Quer que a lei seja escudo, / e não espada contra os justos.
No dia treze de Janeiro,
o país vestiu gravata
e falou de democracia
como quem fala da pátria
com ternura e com cuidado.
O Presidente, voz serena,
disse aquilo que se diz
quando a verdade é grande:
que o Estado de Direito é casa
onde todos cabem,
onde ninguém é de menos
e ninguém é de mais.
Mas, no meio das palavras,
passava um rio escondido:
um silêncio que não grita,
mas que vive no país.
Porque há quem fale alto
e há quem fale amordaçado;
há quem ande de peito aberto
e há quem viva desconfiado.
Cabo Verde, é certo, cresceu:
ganhou rosto, ganhou escola,
ganhou voto e ganhou rua.
Mas também ficou com sombras
que não se mostram à luz do dia.
Há leis que protegem fortes
e punem quem diz a verdade.
Há portas que se abrem sempre
e outras que nunca se abrem.
Há quem pague com o silêncio
por ter dito o que viu,
e há quem durma descansado
porque os conluios o guardam.
E assim se faz o país:
entre relatórios oficiais,
entre discursos corretos,
entre elogios de fora
e desalento cá dentro.
Mas o povo, esse, observa.
Sabe mais do que parece.
Aprendeu com a vida
que a justiça não se veste
apenas com toga e leis,
mas com virtude e coragem
de quem não tem medo de ver.
O cabo-verdiano não quer muito:
quer trabalho, quer respeito,
quer que a democracia
desça do palanque
e entre na vida.
Quer que o voto seja voz,
e não só cerimónia.
Quer que a lei seja escudo,
e não espada contra os justos.
E por isso, mesmo calado,
o povo não desiste:
segura no peito o futuro,
e guarda no olhar a esperança
de que um dia o país
deixe de guardar silêncios
e passe a guardar justiça.
20 de Janeiro de 2026
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