
Há momentos na vida pública em que a maior exigência não é permanecer no mesmo lugar, é saber avaliar com lucidez se é nesse lugar que continuamos a servir melhor o país. A política não é um exercício de imobilismo, nem pode ser reduzida a uma lógica de fidelidade permanente a estruturas, quando aquilo que deve ser permanente são os princípios. Talvez, no final, não tenha sido eu a mudar, mas sim o partido ao qual pertenci.
Tenho ouvido, com insistência, uma pergunta que muitos consideram decisiva. Se no passado defendi determinadas políticas, que tenho hoje para dizer sobre elas e sobre o caminho que escolhi? A pergunta é legítima, mas parte de um equívoco profundo sobre o que deve ser a política e sobre o que significa, verdadeiramente, ter coerência.
Ao longo dos anos, sempre assumi posições com convicção, com sentido de responsabilidade e com respeito pelas instituições e pelo país. Nunca estive na política para agradar a todos, nem para dizer o que é mais fácil em cada momento. Defendi aquilo em que acreditava, com a consciência de que servir Cabo Verde exige seriedade e compromisso, e não conveniência.
E há momentos na vida pública em que a maior exigência não é permanecer no mesmo lugar, é saber avaliar com lucidez se é nesse lugar que continuamos a servir melhor o país. A política não é um exercício de imobilismo, nem pode ser reduzida a uma lógica de fidelidade permanente a estruturas, quando aquilo que deve ser permanente são os princípios.
Acima de qualquer partido está o povo e o país
E é precisamente aqui que se faz a diferença entre a conveniência e a responsabilidade, e se deve assumir a quem é que realmente deve existir a fidelidade de um político, e neste campo não pode existir qualquer dúvida. Acima de qualquer partido está o povo e o país.
A conveniência leva-nos a ficar, a repetir, a não incomodar, a seguir o caminho já traçado, mesmo quando sabemos que ele já não responde às exigências do presente. A responsabilidade, pelo contrário, obriga-nos a pensar, a questionar e, quando necessário, a tomar decisões que não são fáceis, mas que são certas. Foi isso que fiz.
Não reneguei o passado, porque não tenho de o fazer. Mas também não aceito ficar preso a ele, como se a política fosse um espaço onde não há lugar para evolução, para exigência e para novas escolhas. O país não é estático, as pessoas não são estáticas e os desafios que enfrentamos hoje exigem mais do que a repetição de soluções antigas.
Um país avança quando há coragem para pensar diferente
Há quem queira transformar qualquer mudança numa acusação, como se o maior valor na política fosse nunca sair do mesmo lugar. Eu acredito exatamente no contrário, acredito que o maior valor é nunca sair dos princípios, mesmo quando isso implica mudar de caminho.
Os meus princípios mantêm-se intactos. Continuam a ser as pessoas, a dignidade das famílias, as oportunidades para os jovens e o futuro de Cabo Verde. O que mudou foi a decisão de procurar o espaço onde esses princípios podem ser concretizados com maior força, com maior liberdade e com maior impacto.
Porque um país não avança quando todos pensam da mesma forma, nem quando todos seguem o mesmo caminho sem questionar. Um país avança quando há coragem para pensar diferente, para agir de forma responsável e para colocar o interesse coletivo acima de qualquer conforto pessoal. Foi essa escolha que fiz, com total consciência do que ela representa.
E faço-a com a mesma convicção de sempre, a de que servir Cabo Verde não é ficar onde é mais fácil, é estar onde se pode fazer mais. E talvez, no final, não tenha sido eu a mudar, mas sim o partido ao qual pertenci e que sempre servi tendo como interesse final Cabo Verde.
Cabo Verde não precisa de quem fique no mesmo lugar. Precisa de quem tenha coragem de fazer o país avançar.
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Artigo originalmente publicado pelo autor na sua conta no Facebook
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