Vetos do PR confirmam alertas do PAICV sobre diplomas inconstitucionais
Política

Vetos do PR confirmam alertas do PAICV sobre diplomas inconstitucionais

Pela segunda vez no espaço de poucos dias, o presidente da República anunciou o veto a diplomas manchados por manifestas inconstitucionalidades, que o MpD aprovou às pressas antes das eleições. Em fevereiro último, o principal partido da oposição já havia manifestado sérias reservas ao projeto da nova Lei Orgânica da Assembleia Nacional. Os factos, entretanto, conhecidos, vieram dar razão ao principal partido da oposição.

Os vetos do presidente da República à Lei Orgânica da Assembleia Nacional e ao diploma de ingresso excecional na Administração Pública confirmam os alertas e preocupações levantadas pelo Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) ao longo dos respetivos processos, nomeadamente com o Grupo Parlamentar a chamar a atenção para a “falta de escrutínio, fragilidades jurídicas e riscos de inconstitucionalidade”, e recusando ser cúmplice na aprovação de diplomas estruturantes pouco rigorosos e apresentados às pressas para serem aprovados antes das eleições.

No caso da nova Lei Orgânica da Assembleia Nacional, o PAICV optou, desde o início, por não participar na votação na especialidade, por considerar que “não estavam reunidas condições para um escrutínio adequado” e tendo mesmo denunciado a “falta de transparência do processo e as dúvidas de constitucionalidade”. Uma posição assumida ainda durante o mês de fevereiro deste ano.

Por tal razão, os vetos do presidente da República, José Maria Neves, confirmam as inquietudes e reservas do PAICV, colocando o principal partido da oposição numa posição em defesa da Constituição, da transparência e da legalidade democrática.

Em fevereiro, PAICV já tinha admitido recorrer para o Tribunal Constitucional

Em fevereiro último, o PAICV deu um sinal claro sobre a sua oposição à nova Lei Orgânica da Assembleia Nacional, admitindo mesmo recorrer ao Tribunal Constitucional.

Efetivamente, em 19 desse mês, em conferência de imprensa, a vice-presidente do Grupo Parlamentar tambarina Carla Lima, anunciava que os deputados do PAICV não participavam na reunião da 1.ª Comissão Especializada da Assembleia Nacional, onde iria ser apreciado, na especialidade, o projeto da nova Lei Orgânica da Assembleia Nacional.

Segundo Carla Lima, tal decisão resultou da “falta de transparência do processo” e de “sérias dúvidas de constitucionalidade” que o diploma suscitava ao partido.

A deputada explicou que, antes da aprovação na generalidade, o PAICV havia solicitado formalmente a lista nominal dos funcionários, que seriam diretamente abrangidos e beneficiados com a eventual integração no quadro definitivo da Assembleia Nacional. No entanto, pesem sucessivas insistências, essa informação nunca foi disponibilizada ao Grupo Parlamentar.

“O que está em causa é a estrutura e os recursos humanos de um órgão de soberania, com efeitos permanentes. Não é aceitável legislar sem que os deputados tenham acesso aos dados essenciais para avaliar o verdadeiro alcance da proposta”, sublinhou na ocasião Carla Lima.

É que, segundo a deputada, a ausência da lista nominal dos beneficiários e do número concreto de integrações previstas comprometia “a transparência do processo legislativo” e limitava “o exercício pleno do mandato” parlamentar.

Carla Lima manifestou, ainda, sérias reservas quanto à constitucionalidade do diploma, particularmente no que respeita ao regime transitório previsto no artigo 76.º. Porquanto, a norma permite a integração automática e a estabilização definitiva de vínculos de trabalhadores em comissão de serviço, contratos a termo, contratos administrativos de provimento ou funções em gabinetes parlamentares, apenas com base “no tempo de serviço, mediante requerimento e decisão administrativa”, mas sem concurso público.

Nova lei abre espaço a decisões discricionárias e pouco escrutináveis

Segundo a deputada do PAICV então referiu, “o facto de os termos e condições dessas integrações serem remetidos para despacho do presidente da Assembleia Nacional”, sob proposta do secretário-geral, “abre espaço a decisões discricionárias e pouco escrutináveis, num domínio que deveria obedecer a critérios gerais, objetivos e transparentes”, sublinhou Carla Lima, recordando tratar-se de um diploma estruturante aprovado em fim de mandato e defendendo que, em período pré-eleitoral, deveria prevalecer a “prudência institucional”.

“O PAICV manifesta, igualmente, preocupação relativamente ao projeto de Lei sobre a Estabilidade Extraordinária do Vínculo Profissional dos Funcionários Públicos, apresentado pelo Grupo Parlamentar do MpD, considerando que levanta questões semelhantes de legalidade e equidade”, sustentou Carla Lima na mesma ocasião, apelando ao veto do presidente da República, caso o diploma viesses a ser aprovado.

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Redação

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