
A construção de uma democracia mais justa em Cabo Verde passa necessariamente pela valorização da mulher não apenas como participante, mas como protagonista. A paridade de género não deve ser apenas um número a cumprir, mas um compromisso real com a equidade, a competência e a transformação social. Na forma como se veem. Na forma como se apoiam. Na forma como escolhem caminhar juntas ou separadas. Porque no final, a grande pergunta não é se há espaço para mulheres na política. A pergunta é: que tipo de mulheres queremos ver nesse espaço e que papel estamos dispostas a assumir para lá chegar?
Falar de paridade de género em Cabo Verde é, hoje, falar de avanços, mas também de contradições. É reconhecer conquistas importantes, sem fechar os olhos para aquilo que ainda precisa, urgentemente, de ser transformado.
Durante muito tempo, a política foi construída como um espaço masculino. Não apenas ocupado por homens, mas pensado por homens e, muitas vezes, para homens. Criou-se uma cultura onde liderar, decidir e governar eram quase sinónimos de masculinidade. E mesmo quando as mulheres começaram a entrar nesse espaço, não foi porque lhes abriram a porta foi porque elas forçaram a entrada.
Hoje, vemos cada vez mais mulheres a ocupar lugares na política cabo-verdiana. Isso é um facto. Mas será que ocupar é o mesmo que liderar? Será que estar presente significa ter voz. Ou estaremos apenas a assistir a uma inclusão que, em alguns casos, é mais simbólica do que real?
A Lei da Paridade de Cabo Verde veio corrigir uma desigualdade histórica. Trouxe números, metas, percentagens. E cumpriu o seu papel: aumentou a presença feminina. Mas a questão que fica é desconfortável e necessária: quantas dessas mulheres estão, de facto, a exercer poder?
Porque a verdade precisa de ser dita: nem todas estão ali pelo mesmo motivo.
Há mulheres que conquistaram o seu espaço com mérito, com luta, com competência. Mulheres que estudaram, que se prepararam, que enfrentaram preconceitos e que hoje ocupam cargos com legitimidade e independência. Essas mulheres incomodam porque pensam, porque questionam, porque não obedecem cegamente. Mas também há outra realidade, menos falada e muitas vezes ignorada: mulheres que são escolhidas para cumprir quotas, para preencher listas, para dar uma imagem de equilíbrio que nem sempre corresponde à prática. Mulheres que entram, mas não decidem. Que estão, mas não influenciam. Que ocupam, mas não lideram.
E isso não é empoderamento! É estratégia.
No meio desse cenário, existe ainda um desafio mais profundo e talvez mais difícil de enfrentar: a relação entre as próprias mulheres. Porque, sejamos honestos, nem sempre o maior obstáculo vem dos homens. Muitas vezes, vem da falta de união feminina. Falta apoio. Falta confiança. Falta aquela base sólida onde uma mulher olha para outra e diz: “eu acredito em ti”. E é aqui que entra uma ideia simples, mas poderosa: um verdadeiro “eco fundo de mudjer pa mudjer”.
Um eco que não seja apenas discurso, mas prática. Um eco que não se limite a palavras bonitas em conferências ou campanhas políticas, mas que se traduza em ações concretas: apoiar, promover, defender e valorizar outras mulheres. Por que enquanto as mulheres competirem entre si de forma destrutiva, o sistema mantém-se confortável. Divide-se para controlar. Silencia-se para dominar.
Mas quando as mulheres se unem de verdade cenário muda. E muda de forma radical.
Se houver união, consciência e posicionamento, as mulheres deixarão de ser vistas como uma presença decorativa e passarão a ser uma força política impossível de ignorar. Uma força que pode redefinir prioridades, transformar políticas públicas e reconfigurar o próprio conceito de liderança em Cabo Verde.
E isso terá diferentes efeitos. Para muitos, será motivo de orgulho porque representa evolução, justiça e progresso. Para outros, será desconforto porque mexe com privilégios, desafia estruturas e quebra padrões. E para alguns… será simplesmente um “close”.
Um impacto direto, uma afirmação clara, um sinal de que já não há volta atrás.
A paridade de género não pode ser reduzida a números. Não pode ser apenas uma obrigação legal ou uma meta institucional precisa de ser um compromisso real com a transformação. Mais do que colocar mulheres na política, é preciso garantir que elas tenham condições para pensar, decidir, liderar e transformar. E talvez o maior passo dessa transformação não comece nas leis, nem nos partidos, nem nas instituições.
Comece nas próprias mulheres!
A construção de uma democracia mais justa em Cabo Verde passa necessariamente pela valorização da mulher não apenas como participante, mas como protagonista. A paridade de género não deve ser apenas um número a cumprir, mas um compromisso real com a equidade, a competência e a transformação social. Na forma como se veem. Na forma como se apoiam. Na forma como escolhem caminhar juntas ou separadas.
Porque no final, a grande pergunta não é se há espaço para mulheres na política.
A pergunta é: que tipo de mulheres queremos ver nesse espaço e que papel estamos dispostas a assumir para lá chegar?
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