
Assistimos a um importante debate em torno do recente caso na saúde, revelando uma profunda preocupação dos cabo-verdianos com a qualidade de respostas do setor. Do meu ponto de vista, mais do que as debilidades e condicionalismos existentes, o que está em causa é algo muito mais grave: a crescente perda de confiança da população nas estruturas de saúde. Em matéria de saúde, não bastam condições de tratamento, é fundamental que haja a confiança!
Pagamos impostos e é responsabilidade do Estado, através do Governo, assegurar o bem-estar da população, com investimentos inteligentes e sólidos em setores fundamentais, como Saúde, Educação, Segurança, Justiça e Transportes.
A verdade é que vivemos num país onde, apesar de discursos políticos frequentemente otimistas, persistem debilidades estruturais evidentes. A questão central e urgente, no meu entendimento, é compreender as causas profundas dessas debilidades.
Tenho defendido que existe um excesso de amadorismo e uma preocupante falta de visão estratégica nas estruturas políticas e governativas, que se alastram por diversas instâncias e organizações do país. Só assim se compreende o ritmo lento do nosso desenvolvimento, apesar de, nos discursos políticos (em situação), se transmite a ideia de que o país “está bem”.
É claro que, quando comparado com países africanos, de um modo geral, os indicadores nos animam, mas é preciso não perdermos de vista de que o percurso socio-histórico de Cabo Verde e o dos países africanos, no geral, não são iguais! Os países africanos, ainda, na sua maioria, defrontam com problemas sérios, quanto à construção da nação, ou do entendimento entre os vários grupos. Cabo Verde é um país com uma nação forte, unida e patriótica.
Há países que deveriam servir-nos de referências, como as Maurícias, Seicheles, Singapura e Coreia do Sul. 50 anos atrás, encontravam-se num nível de desenvolvimento semelhante ao de Cabo Verde. São países, também, sem recursos naturais clássicos, à semelhança do nosso. Singapura, por exemplo, para além de falta de recursos naturais, enfrentava sérios problemas sociais e étnicos.
O elemento comum no percurso desses países foi a aposta consistente numa educação de elevada qualidade e relevância, orientada para a formação do capital humano e do capital social de alto valor. Hoje, Singapura e Coreia do Sul estão entre os países mais desenvolvidos do mundo. E nós? Por que razão continuamos a arrastar os pés, enquanto uma parte significativa da população permanece na pobreza e na pobreza extrema?
É urgente investir mais e melhor nas pessoas! O caso recente na saúde é, do meu ponto de vista, apenas a ponta do iceberg das nossas imensas fragilidades estruturais. Situações semelhantes não acontecem apenas no setor da saúde. Elas ocorrem, diariamente, em diversos setores da nossa vida pública! A diferença é que, na saúde, as consequências são mais visíveis e imediatas. Um atendimento médico deficiente produz efeitos diretos e percetíveis. Noutros setores, as consequências são mais difusas, menos visíveis, mas igualmente graves!
Na minha perspetiva, a raiz do problema está no baixo nível do capital humano e capital social. São as pessoas que tomam decisões políticas, ocupam cargos nos partidos, no governo, nas autarquias, nas organizações públicas e privadas diversas e são elas, também, enquanto técnicos e operacionais, que fazem acontecer (ou não) as coisas para o nosso progresso e bem-estar coletivo.
Não há outro caminho, senão, investir de forma significativa, tanto quantitativa como qualitativamente, na Educação e na Formação dos cabo-verdianos. Só assim poderemos formar decisores políticos mais qualificados, bem como dirigentes e técnicos melhor preparados para responder aos desafios do país e promover o bem-comum.
Nesta perspetiva, tenho por mim que o ponto de partida é a Educação. Com o sistema educativo que temos, torna-se extremamente difícil mudarmos o rumo dos acontecimentos! Trata-se de um sistema desatualizado, com raízes em modelos pedagógicos antigos, centrado na memorização e na reprodução de conteúdos, em detrimento do pensamento crítico, da reflexão e da autonomia intelectual.
Predomina a prática pedagógica tecnicista, em oposição à prática pedagógica significativa. Além disso, o sistema se concentra quase exclusivamente no conhecimento teórico (uma visão redutora da educação), negligenciando outras dimensões essenciais para a vida individual e coletiva, como o saber-fazer, o saber-viver juntos e o saber-ser, embora essas dimensões estão plasmadas tanto na Constituição da República como na Lei de Bases do Sistema Educativo.
Assim, temos um sistema educativo claramente fragilizado, com limitações estruturais profundas. Para agravar, muitos dos nossos ditos quadros e jovens formaram-se e continuam a forma-se em países, cujos sistemas educativos, embora com alguns sinais de inovação, no geral, mantêm características semelhantes ao nosso.
Se nada mudar, dificilmente teremos, nos próximos tempos, capacidades instaladas no país, capazes de impulsionar os diversos setores da vida pública e promover o desenvolvimento desejado. Após 50 anos de independência, não é aceitável que ainda não tenhamos alcançado excelência em nenhuma área de relevo, nem para nós e muito menos para o mundo.
Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.
Comentários