
Quando um partido deixa de ter identidade, quando deixa de ouvir a sua base, quando começa a eliminar em vez de integrar, não está a evoluir… está a morrer devagar, em silêncio, e com a aparência de normalidade. E o mais inquietante é que, muitas vezes, é feita com o consentimento de muitos. Isso sim, é eutanásia política.
Ouvi a expressão “Eutanásia Política”, numa entrevista do deputado do PSD, Gonçalo Capitão, por quem tenho uma enorme admiração, e confesso que fez-me automaticamente reflectir sobre o cenário actual de pré-campanha que estamos a viver.
Os cortes sucessivos, quase cirúrgicos, e os silêncios convenientes, que se notam nos seios dos maiores partidos do país, levam a um esvaziamento progressivo dos mesmos. E é neste território que se instala a eutanásia política nos partidos. Uma mudança que vem de fora para dentro e certeiro ao coração.
Listas polémicas ou “O bisturi invisível”
As malfadadas listas eleitorais, que deveriam ser a expressão de representatividade e visão estratégica antes das eleições, transformaram-se aparentemente, em instrumentos de controlo interno. Não se escolhe quem melhor pensa o país, mas escolhe-se quem menos incomoda. Começa aqui, a primeira fase da eutanásia: a da exclusão selectiva.
Militantes com percurso, com pensamento crítico e com capacidade de questionar, começaram a desaparecer das listas. Não por falta de mérito, mas por excesso de independência. Tornam-se incómodos...e o incómodo, na política partidária actual, paga-se caro.
Surgiram então, nomes obedientes, previsíveis, e alinhados à cartilha ensaiada. O objectivo não é representarem necessariamente o povo; representarão a tranquilidade interna de quem decide.
Os partidos deixarão, assim, de ser espaço de debate, e passam a ser espaço de validação.
A fratura silenciosa é dissimulada: Militantes vs Simpatizantes
Mas a ferida exposta não se limita às listas. Há uma divisão cada vez mais evidente e mais perigosa, entre militantes e simpatizantes. Entre quem construiu o partido, muitas vezes com sacrifício, e quem aparece no momento oportuno, com capital social, mediático ou financeiro. Money talks…loud!
E aqui reside uma inversão grave. A militância, que deveria ser o alicerce ideológico e humano do partido, passa a ser secundarizada em nome de uma lógica de conveniência eleitoral. Cria-se um partido sem raízes e um partido que já não se reconhece na sua própria base. E, quando a base deixa de se reconhecer no topo, o que sobra não é um partido, é uma máquina de poder.
Pisar em vidro fino: quando a ideologia se dissolve
Talvez o sintoma mais evidente desta eutanásia política seja o fenómeno crescente de militantes fervorosos que, de um momento para o outro, mudaram de partido. Não falamos de evolução ideológica. Falamos de deslocações rápidas, quase oportunistas, onde convicções que antes eram inegociáveis se tornaram subitamente flexíveis. Quem ontem defendia uma linha política com fervor quase dogmático, hoje abraça outras narrativas com a mesma intensidade, mas sem rasgar o cartão de militante anterior.
O que leva qualquer criston a perguntar O que é que mudou? A ideologia ou a conveniência?
Porque quando a passagem entre partidos se faz sem ruptura, sem reflexão pública, sem justificação coerente, o que se revela é a diluição total do pensamento e não maturidade política.
Esta reconfiguração discreta de um terceiro espaço político que tenta apresentar-se como alternativa renovada, acolhendo novas figuras com passado recente noutros quadrantes, levanta a questão, se os novos elementos, ditos independentes, chegam com convicções alinhadas à matriz que agora integram, ou transportam consigo as mesmas bandeiras que antes defenderam com fervor?
Esta não é apenas uma questão de integração. É uma questão de coerência. Porque, quando as adesões se fazem sem ruptura ideológica visível, levanta-se uma dúvida inevitável: estamos perante novas vozes ou meros instrumentos de reposicionamento?
Partidos sem identidade
A soma destes fenómenos: exclusões internas, desvalorização da militância, mobilidade ideológica sem consequência, conduz a um resultado inevitável: partidos que já não sabem quem são. Perdem a coerência, identidade e a capacidade de mobilizar com base em ideias. E depois só restam slogans vazios e cálculos estratégicos.
Mas um partido não vive de cálculos. Vive de visão e principalmente da capacidade de integrar diferenças sem eliminar vozes. Quando essa capacidade desaparece, instala-se a eutanásia política. Não porque alguém a declarou, mas porque todos, de alguma forma, a aceitaram.
Eleições como palco de uma morte lenta
Em vésperas de eleições, este cenário torna-se ainda mais evidente. As campanhas falam de futuro, mas escondem o presente. Prometem inclusão e invocam unidade, mas nascem de processos excedentes e carregam fracturas profundas. O eleitor, está cada vez mais atento e mais cansado, e percebe que não está apenas a escolher entre partidos. Está a escolher entre estruturas que, em muitos casos, já perderam a sua essência.
Recusar o esvaziamento
A questão central, portanto, não é apenas quem entra ou sai das listas. É saber se os partidos ainda são espaços de construção colectiva ou apenas plataformas de acesso ao poder; se a militância ainda tem valor ou se é apenas um adereço histórico; se a ideologia ainda orienta ou se já foi substituída por conveniência.
Quando um partido deixa de ter identidade, quando deixa de ouvir a sua base, quando começa a eliminar em vez de integrar, não está a evoluir… está a morrer devagar, em silêncio, e com a aparência de normalidade.
E o mais inquietante é que, muitas vezes, é feita com o consentimento de muitos. Isso sim, é eutanásia política.
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