“Exigências excessivas” dos EUA dificultam acordo de cessar-fogo
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“Exigências excessivas” dos EUA dificultam acordo de cessar-fogo

Segundo a agência noticiosa iraniana Tasnim, delegações dos Estados Unidos da América e do Irão trocaram textos em busca de um “quadro comum” para as negociações, mas divergências persistiram. No entanto, alguns avanços terão sido feitos, nomeadamente, no que respeita aos ataques israelitas contra o Líbano, ao desbloqueio de ativos iranianos e ao próprio Estreito de Ormuz. Mas, a perspetiva otimista não impediu o abandono das duas delegações da capital paquistanesa, Islamabad, na madrugada deste domingo.

As negociações entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão sobre o Estreito de Ormuz estão paralisadas, segundo o diário britânico Financial Times. No entanto, de acordo com diversas autoridades que pediram para permanecer anónimas, alguns progressos foram feitos em questões como os ataques israelitas contra o Líbano, o desbloqueio de ativos financeiros iranianos e o próprio Estreito de Ormuz, entre outros temas.

De todo o modo, não chegou para que as negociações prosseguissem este domingo, 12, tendo as delegações dos EUA e do Irão abandonado já a capital do Paquistão, Islamabad, levando inclusive o Governo da Turquia a apontar o dedo ao rosto por detrás deste primeiro revés: o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, acusando-o de sabotar as negociações de paz para evitar ser julgado por corrupção no seu próprio país.

Netanyahu: o “sabotador”

“O objetivo atual de Netanyahu é sabotar as negociações de paz em curso e prosseguir com as suas políticas expansionistas na região, porque, caso contrário, será julgado no seu país e provavelmente enviado para a prisão”, assinalou o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco.

É que, recordamos, Netanyahu tem vários julgamentos por corrupção pendentes em Israel, tendo solicitado o adiamento das sessões do tribunal por estar ocupado com a guerra iniciada pelo seu país e pelos EUA contra o Irão.

O comunicado turco é a resposta a um ‘tweet’ do primeiro-ministro israelita, no qual este assegurava que iria continuar a guerra “contra o regime terrorista do Irão e os seus aliados, ao contrário de Erdogan, que se dá bem com eles e massacra os seus próprios cidadãos curdos”.

Uma das disputas entre os EUA e o Irão nas negociações de paz, que terminaram hoje sem resultados, é a insistência de Teerão em incluir o Líbano no acordo de cessar-fogo, enquanto Israel se recusa a pôr fim aos seus ataques a este país.

O comunicado turco recorda que Netanyahu tem um mandado de detenção do Tribunal Internacional de Haia para ser julgado por crimes de guerra e que Israel foi denunciado por genocídio devido à guerra em Gaza.

O gabinete de imprensa de Erdogan escreveu na rede social X (ex-Twitter) que Netanyahu é “um criminoso que já não tem amigos” e que tenta “arrastar a região para a guerra e o caos como estratégia para a sua sobrevivência política”.

EUA e Irão terminam negociações de cessar-fogo sem acordo e culpando-se mutuamente

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, deu na madrugada deste domingo, 12, por terminadas as negociações entre Washington e Teerão, sem acordo de paz, depois de os iranianos recusarem aceitar as condições americanas de não desenvolverem uma arma nuclear.

As conversações de alto nível terminaram após 21 horas, afirmou Vance, que se manteve em comunicação constante com o presidente norte-americano, Donald Trump, e outros membros da administração.

“Precisamos de ver um compromisso afirmativo de que não irão procurar obter uma arma nuclear, nem irão procurar as ferramentas que lhes permitiriam alcançar rapidamente uma arma nuclear”, disse Vance aos jornalistas, numa breve conferência de imprensa em Islamabad. "Esse é o objetivo central do presidente dos Estados Unidos. E é isso que tentámos alcançar através destas negociações”, acrescentou o número dois da administração norte-americana.

Por sua vez, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irão considerou que “ninguém estava à espera” que os EUA e o Irão chegassem a um acordo logo na primeira ronda de negociações.

“Era evidente desde o início que não devíamos esperar chegar a um acordo numa única sessão [de negociações]. Ninguém estava à espera disso”, declarou Esmaeil Baqaei em declarações à televisão estatal iraniana.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano afirmou estar “certo de que os contactos com o Paquistão, bem como com os outros amigos na região, irão prosseguir”.

Antes disso, a televisão estatal iraniana referiu que as “exigências irracionais” dos Estados Unidos da América levaram ao fracasso das negociações em Islamabad para pôr fim à guerra no Médio Oriente.

"A delegação iraniana negociou incansavelmente e de forma intensiva durante 21 horas para defender os interesses nacionais do povo iraniano. Apesar de várias iniciativas da parte [iraniana], as exigências irrazoáveis da parte americana impediram que as negociações avançassem. As negociações chegaram, portanto, ao fim”, anunciou a Irib na rede Telegram.

Uma fonte do Irão não identificada que participou nas negociações, citada pela agência iraniana Meher, avançou, entretanto, que a situação no Estreito de Ormuz não irá mudar a menos que os EUA aceitem um “acordo razoável”.

“O Irão não tem pressa e, a menos que os Estados Unidos aceitem um acordo razoável, não haverá alterações na situação do Estreito de Ormuz”, afirmou a fonte, acrescentando que, até ao momento, “não foi fixada data nem local para uma possível próxima ronda de conversações”.

"O Irão apresentou iniciativas e propostas razoáveis durante as conversações. Cabe agora aos Estados Unidos abordar os temas com realismo. Tal como o Governo norte-americano falhou nos seus cálculos bélicos, até agora também se tem enganado nas negociações”, acrescentou a fonte.

“As conversações não conduziram a um acordo”, concluiu sobre o contacto presencial de mais alto nível entre os Estados Unidos e o Irão desde que ambos os países romperam relações devido à revolução islâmica de 1979.

Havia esperança de que as negociações prosseguissem este domingo

Ainda ontem, a esperança de um avanço nas negociações parecia ser dada como certa, com a agência de notícias iraniana Tasnim a anunciar que Washington e Teerão estavam a trocar textos em um esforço para “chegar a um quadro comum para as negociações”. Citando seu correspondente na capital do Paquistão, a agência afirmou que o progresso tem sido dificultado pelas “exigências excessivas de sempre” de Washington, mas a esperança ainda não tinha morrido.

Uma fonte próxima da equipa de negociação iraniana disse à agência que outra rodada de conversas provavelmente ocorreria hoje e anunciava que as equipas de especialistas de ambos os lados estavam trocando mensagens. No entanto, a rodada de conversas saiu frustrada.

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