Beta, o peão político
Ponto de Vista

Beta, o peão político

A candidatura do Beta não é apenas pessoal. Ela pode ser uma peça numa engenharia política mais ampla: a tentativa de a UCID ganhar escala, romper a lógica bipolar e tornar-se mais influente no Parlamento. Se resultar, a UCID pode sair destas eleições mais forte, mais territorializada e mais central no jogo político. Se falhar, poderá ser acusada de ter trocado coerência por conveniência. E Beta, por seu lado, jogará muito mais do que um mandato: jogará a preservação da sua relevância num tabuleiro onde desaparecer do centro é, muitas vezes, começar a perder o futuro".

A entrada de Alberto Mello, mais conhecido por Beta, como cabeça de lista da UCID por Santiago Sul tem uma densidade política maior do que um simples episódio de mudança de partidos. Beta saiu recentemente do MpD, afirmando já não ter espaço na atual liderança, e foi confirmado pela UCID, como independente, num dos círculos mais decisivos do país. A própria UCID apresentou esta aposta como parte de uma “terceira via” e de uma “nova configuração parlamentar”.

Qual é a leitura que fazemos sobre este acontecimento? A UCID sabe que não pode, de um dia para o outro, ambicionar conquistar o poder como se o sistema político cabo-verdiano não estivesse ainda profundamente marcado por dois grandes polos partidários. O caminho de um terceiro partido, num contexto como o nosso, faz-se por etapas: consolidar presença, alargar a implantação territorial, reforçar a bancada parlamentar e, só depois, disputar um lugar mais central no jogo do poder. Ao escolher Beta para Santiago Sul, a UCID está a acolher um nome conhecido, mas também está a tentar furar a muralha geográfica e eleitoral que a tem mantido fortemente concentrada em São Vicente.

Por isso, esta candidatura deve ser entendida como uma tentativa de expansão territorial e de reposicionamento nacional. Santiago Sul não é um círculo qualquer. É um palco central da política cabo-verdiana. E levar para esse palco uma figura com notoriedade própria, com passado no MPD e com peso político na Praia, significa tentar converter capital pessoal em utilidade parlamentar. A UCID procura, assim, deixar de ser vista apenas como uma força regionalmente robusta em São Vicente para se apresentar como um partido com ambição de influência nacional. Esse é, no fundo, o verdadeiro alcance desta jogada.

Mas esta movimentação também não pode ser lida apenas do ponto de vista da UCID. Do lado de Beta, há igualmente um cálculo de sobrevivência e de centralidade. A minha leitura é simples: a cadeira de sonho do Beta não é a de deputado, nem a de ministro, nem a de primeiro-ministro. A sua cadeira de sonho é a presidência da Câmara Municipal da Praia. E, precisamente por isso, perder centralidade seria, para ele, perder futuro político. Estar no centro do debate, aparecer, falar, intervir, manter-se visível e politicamente ativo, tudo isso lhe permite preservar capital para batalhas futuras. Esta candidatura pode, assim, ser lida também como uma plataforma de reposicionamento.

A UCID pode, portanto, estar a fazer uma jogada inteligente, mas também corre riscos. O primeiro risco é o da coerência. Um partido que combate o bipartidarismo e se apresenta como alternativa tem de explicar muito bem por que razão vai buscar quadros oriundos precisamente de um dos partidos que critica. Isso não é ilegítimo. É democracia. Mas exige narrativa consistente. Caso contrário, pode instalar-se a ideia de que a UCID não está a construir uma alternativa nova, mas a transformar-se num espaço de acolhimento para descontentes dos grandes partidos. E essa leitura, se ganhar força, pode custar-lhe credibilidade. Lembram-se o que é que aconteceu em 2021 aquando das eleições presidenciais? Pois é.

Há ainda um ponto institucional importante. Em Cabo Verde, a questão não é apenas quem fica em primeiro lugar nas eleições, mas também quem consegue sustentar uma solução governativa. A Constituição é clara: o Primeiro-Ministro é nomeado tendo em conta os resultados eleitorais, a existência ou não de força maioritária e as possibilidades de coligações ou alianças; além disso, o Governo tem de submeter o seu programa à Assembleia Nacional e pedir uma moção de confiança. Isto significa que, num cenário sem maioria absoluta, cada deputado conta e cada deslocação estratégica de eleitorado pode ter peso acrescido na construção da maioria parlamentar.

No fundo, é isso que torna a candidatura de Beta relevante. Ela não é apenas pessoal. Ela pode ser uma peça numa engenharia política mais ampla: a tentativa de a UCID ganhar escala, romper a lógica bipolar e tornar-se mais influente no Parlamento. Se resultar, a UCID pode sair destas eleições mais forte, mais territorializada e mais central no jogo político. Se falhar, poderá ser acusada de ter trocado coerência por conveniência. E Beta, por seu lado, jogará muito mais do que um mandato: jogará a preservação da sua relevância num tabuleiro onde desaparecer do centro é, muitas vezes, começar a perder o futuro".

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