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Por: Pedro Brito

Quando as estrelas estão prestes a desaparecer, naqueles instantes finais da sua brilhante existência, dá-se uma enorme e resplandecente explosão, precedida por uma escuridão total que suga tudo que brilha em seu redor, transformando-se num buraco negro.

Esta poderia ser uma excelente caracterização do percurso de vida da maioria das figuras públicas da nossa sociedade. No final das suas vidas reforçam a sua presença nos media, com entrevistas autobiográficas, mais ou menos saudosistas, em que ficamos a saber como se relacionavam com os seus familiares e outras costumeiras que pouco interesse têm para a memória histórica e colectiva do país.

As entrevistas servem também para que possam expor os seus surpreendentes planos para o futuro. Bom exemplo de isso é a afirmação de Helena Roseta, quanto às suas ocupações familiares e do envolvimento da sua filha Filipa Roseta, cabeça-de-lista por Lisboa nas próximas eleições legislativas em Portugal.

"Chegou o tempo deles!"[1]

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Quem são "eles" afinal?

Eles são as próximas estrelas deste "novo tempo". São os filhos e os netos dos obreiros do passado. São as novas estrelas repletas de ambições governativas e outras de domínio público. São estrelas que já brilham em partidos políticos, autarquias, centros culturais, ministérios e secretarias de estado.[2]

Alguns de eles viveram a sua adolescência na sombra do herói libertador; outros cresceram em famílias angustiadas e com medo da sua própria sombra.

Perante as confissões e revelações das estrelas em fim-de-vida, e porque o futuro deste país passará inevitavelmente por "eles" (pelo menos é essa a vontade descarada dos seus progenitores) impõem-se que se faça uma reflexão acerca "deles".

Quando eles chegam à idade adulta (geralmente entre os 30 e 55 anos de idade) levantam a voz e proclamam:  "Tenho de ser digno dos genes que herdei.", “O meu pai foi o arquitecto de Abril", "minha mãe, humilde doméstica, sempre ajudou os pobres", "apesar de sermos muito ricos, nunca deixamos de ajudar quem precisava", "sou de esquerda, como o meu pai me ensinou...", “antigamente quando o meu pai era dono disto tudo, as coisas eram bem diferentes…”, "é preciso "rotatividade" e "outras caras".

Ficamos assim a conhecer o que pensam os directos herdeiros das estrelas em fim-de-vida.

Apesar das distâncias familiares e das distintas mesclas ideológicas em que foram educados, esta geração de ilustres herdeiros, têm um traço em comum - partilham o mesmo substantivo - “Poder". Uns acham legítimo ter Poder, porque são os directos descendentes dos revolucionários, outros porque o Poder é secularmente seu por herança genética.

Importa então saber, o que fazem com o Poder que têm e como este se expressa na vida colectiva.

A maioria das vezes eles ocupam cargos de direcção em instituições públicas. Quando estes estão ocupados por outros da sua linhagem, (também eles amigos do papá e (ou)  companheiros de luta revolucionária da mamã), esperam pacientemente pela resignação e, de uma só assentada tomam os seus lugares.

Outras vezes, já com muita experiência adquirida enquanto líderes de uma qualquer federação académica, ingressam apressadamente num partido político e num rápido piscar-de-olho estão no Parlamento, podendo assim partilhar o automóvel com os seus familiares nas viagens de regresso a casa.

Afinal, “chegou o tempo deles!”

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O leitor poderá neste momento pensar que esta realidade de Portugal do século XXI, pouco ou nada tem a ver com Cabo Verde.

Desengane-se. Pois eles há já algum tempo que, de malas e bidons, rumaram às ilhas, com uma incomensurável vontade de "ajudar". Levaram consigo “crowdfundings”, dissertações caóticas, e outras panaceias com que ampliam um crónico e paralisante assistencialismo.

Muitos de eles, acabam por voltar a casa dos seus progenitores. Outros ficam pelas ilhas, ocupando as cátedras do poeta lusitano, com privilégios e honrarias diplomáticas.

São eles que nos últimos anos têm estabelecido as pontes que ligam Portugal e Cabo Verde; são eles que decidem muitas das directrizes e programas culturais que se estabelecem entre os dois países; são também eles que decidem o que é, e o que não é cultura identitária da lusofonia. Os discursos e os programas de cooperação assinados entre estes dois países nos últimos anos, parcerias e intercâmbios culturais, na realidade acabam por funcionar como passarelas para internacionalização dos seus "egos".

Veja-se o mais recente exemplo de cooperação assinado entre o Ministério da Cultura Português, e o Ministério das Indústrias Criativas de Cabo Verde, no âmbito da programação/internacionalização do Teatro Nacional de São João (TNSJ):

“… não se trata apenas de afirmar no plano internacional, mas também de desencadear uma experiência de crioulização Artística, assente na abundante herança polimórfica da língua portuguesa."[3]

Esta falação fastidiosa do TNSJ, que agora ressurge, aparentemente do nada, mas que na realidade remete para aquela vontade longínqua (2012) de um certo programador cultural em "crioulizar os palcos em Cabo Verde", recorrendo a interpretações (crioulas) dos mestres Oscar Wilde, Molière, Garcia Lorca e William Shakespeare.

Lá voltamos nós à velha prescrição lusitana - primeiro os mestres (centro) e depois uns salpicos polimórficos que atribuem a necessária aparência de multiculturalismo (periferias). Tudo isto, claro está, sob a égide do pretensioso Instituto Camões.

Afinal, chegou o tempo da verdadeira cultura… dizem eles!

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Quando eles conseguem tomar os organismos públicos, logo nos apercebemos que esta é uma forma de continuar a ampliar o seu Poder, recorrendo a novas estratégias de reconhecimento social - São condecorações, entrevistas e até mesmo participações em partidos políticos. Servindo-se assim do lugar de destaque que têm nas instituições que tutelam para influenciar eleitores e outros subordinados a quem prometem, se eleitos, dar uma mãozinha.

Admitamos, é preciso que este ciclo de supernovas, buracos-negros e estrelas-anãs que se perpetuam nos lugares acabe. É tempo de devolver o poder de decisão aos verdadeiros criadores, a todos os artistas, escritores, músicos e poetas, que todos os dias se debatem corajosamente pela sua sobrevivência intelectual com honestidade e perseverança. É preciso quebrar este ciclo de herança genética que faz com que eles se perpetuem nos palcos que não lhes pertencem e convertam todos os outros em silencioso e anónimo público. É preciso anunciar que…

chegou o nosso tempo!

Cidade da Praia, 15 de Setembro de 2019

Contos da Macaronésia

 

[1] Helena Roseta em "Grande Entrevista" na RTP3 - https://youtu.be/FZGPIhgnY2o

[2] Interessante reflexão acerca dos filhos deste “novo tempo”, pode ser lida no seguinte link: http://antoniamarques.pt/blog/2019/04/27/a-porca-decadencia-das-miseraveis-elites-contemporaneas/

[3]  - Lê-se no programa de apresentação do Teatro Nacional de São João (TNSJ) 2019/2020.



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Comentários  

+3 # Camões Di Kobon 16-09-2019 08:47
Para ler, reler e reflectir. Dedo na ferida.
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