Xeque-Mate
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Xeque-Mate

Há momentos na vida política de um país em que a discussão deixa de ser ideológica e passa a ser estrutural. Não se trata de esquerda ou direita, de continuidade ou alternância. Trata-se de responsabilidade, de capacidade de decisão e, acima de tudo, de garantir que o Estado funcione quando é chamado a proteger uma vida.

Nestes últimos meses, o tabuleiro político em Cabo Verde tem vindo a revelar mais do que jogadas estratégicas; tem exposto fragilidades. O MpD entrou numa fase em que já não controla o ritmo do jogo. Move-se por reacção, perde peças sem recuperar posição, e insiste numa narrativa de vantagem quando, na realidade, o jogo está cada vez mais encurralado.

O discurso oficial continua ancorado em indicadores, percentagens e proclamações de progresso. Mas fora dos relatórios, no terreno onde a vida acontece, o cenário é outro: cresce a desigualdade, acumulam-se falhas nos serviços essenciais e instala-se uma sensação inquietante de abandono. Como tenho vindo a dizer, quando um sistema normaliza atrasos, indecisões e ausência de responsabilização, deixa de ser apenas ineficiente e passa a ser perigoso.

Ulisses Correia e Silva, neste tabuleiro, é o Rei. E um Rei nunca joga sozinho…precisa de estrutura, de peças sólidas, e de coordenação. Mas, sobretudo, daquela peça que dá alcance, mobilidade e capacidade de resposta rápida, a Rainha, que neste jogo é representada pelo Olavo Correia. Mas o que temos assistido nos últimos dias é a um esvaziamento silencioso dessa estrutura.

Temos visto figuras relevantes a afastarem-se, nomes que antes sustentavam o discurso político deixaram de integrar as listas para as legislativas, outros recuam estrategicamente ou desaparecem do centro da decisão. O próprio vice-presidente sai de cena. E quando a Rainha abandona o tabuleiro, o jogo muda inevitavelmente de natureza. O Rei fica exposto, mais lento, mais previsível e mais vulnerável.

Os peões começam a cair um a um. Já não se trata de uma substituição natural de peças, mas de um enfraquecimento progressivo da base de sustentação política. E um Rei cercado por um tabuleiro vazio não governa, apenas resiste.

É neste contexto que surge o caso do menino Dário. E é aqui que qualquer tentativa de relativização se torna impossível.

Tenho acompanhado este caso com o coração de mãe e de quem já viveu de perto o peso de uma doença grave. Dário está vivo, mas perdeu um braço. E esse facto, por si só, deveria impor silêncio, respeito e reflexão séria. Não se trata de explorar a dor, mas de questionar decisões. Decisões concretas, com consequências irreversíveis.

Segundo relatos amplamente divulgados, a família foi inicialmente informada de que não valeria a pena proceder à evacuação médica. O caso foi considerado, na prática, sem solução dentro do sistema nacional.

Esta decisão, que deveria assentar em critérios clínicos rigorosos, acabou por ser contrariada fora do sistema. Foi necessária uma mobilização social e sair da lógica institucional para que surgisse uma nova jogada.

O Dário foi para Dakar, foi avaliado, houve uma decisão clínica difícil, extrema, mas eficaz que lhe salvou a vida.

E isso levanta perguntas que não podem ser empurradas para debaixo do tapete. Houve limitação de meios? Houve erro de avaliação? Houve falha no processo de decisão? Ou houve simplesmente um sistema que hesitou quando não podia hesitar?

Na medicina, o tempo não é um detalhe. É, muitas vezes, a diferença entre preservar e amputar, entre recuperar e perder, entre viver com qualidade ou sobreviver com marcas permanentes.

Não podemos afirmar levianamente que a amputação teria sido evitada. Isso exige rigor técnico, acesso a dados clínicos e análise especializada. Mas também não podemos ignorar o facto essencial da divergência clara entre a primeira decisão e o desfecho final. E essa divergência carece de explicação.

Mas, perante a pressão pública, o Ministério da Saúde veio a público com um comunicado oficial sobre o caso, procurando enquadrar os procedimentos adoptados e justificar a decisão inicial. Ainda assim, esse esclarecimento, longe de encerrar o assunto, acabou por levantar novas interrogações, sobretudo pela ausência de detalhes clínicos suficientes, pela falta de transparência nos critérios de decisão e pela dificuldade em reconciliar a avaliação inicial com o desfecho obtido fora do sistema.

Mais do que um caso isolado, o episódio de Dário expõe fragilidades já conhecidas do sistema de saúde cabo-verdiano: dependência de evacuações externas, processos burocráticos lentos, critérios pouco transparentes e uma comunicação institucional que frequentemente falha no momento mais crítico.

Importa dizer que muitos profissionais de saúde fazem mais do que podem com os meios que têm. O problema não reside apenas na capacidade técnica individual, mas na estrutura do sistema, na forma como se decide, se valida e se actua.

Quando uma família precisa de recorrer à exposição pública para garantir tratamento, há uma quebra de confiança. Quando o acesso à saúde depende de mobilização social, o princípio da equidade deixa de existir. E quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas clínico e passa a ser também político.

A governação não se mede apenas por indicadores macroeconómicos. Mede-se na resposta concreta. E é nesses momentos que se percebe quem está a jogar xadrez e quem está apenas a mover peças sem estratégia.

Hoje, o Rei continua em jogo, mas cada vez mais isolado. Sem Rainha, com menos peças e uma margem de manobra perigosamente curta.

Num tabuleiro onde as decisões chegam tarde, onde as peças caem uma a uma e onde a confiança pública se esgota, o desfecho deixa de ser uma hipótese e passa a ser uma inevitabilidade: o Rei é encurralado, colocado numa posição de captura sem qualquer possibilidade de fuga.

Xeque-mate!

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Comentários

  • Casimiro Centeio, 3 de Abr de 2026

    Eu só tenho a dizer o seguinte: quem se encontra deitado no chão, não cai. Nós não temos onde mais cair. Há muito que gritamos que estamos caindo e não fomos ouvidos. E agora a nossa melhor forma de gritar é fechar a boca e olharmos nos olhos de quem nos empurrou . Mas cair não é derrota. Derrota é não se levantar! Parabenizo a tua reflexão, Amiga Any! Pela coragem de enfrentar a dura e cínica realidade! A tua contribuição para mim é muito valiosa!

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