
As hostes partidárias podem ficar muito empolgadas com a prestação de cada líder, mas a verdade é que os debates não são como o futebol em que o apoiante acha sempre que o seu clube jogou melhor, mesmo quando perdeu, e a culpa é sempre do árbitro. Portanto, fica desde já claro que não vou entrar nessa treta de quem ganhou o debate. De todo o modo, Francisco Carvalho (goste-se ou não) é a figura que surge como instrumental para corporizar a vontade de mudança que, aliás, os diversos estudos de opinião têm sublinhado, em particular, desde 2020. E isso é incontornável, até porque a marcha da História é imparável.
Para começar, fica uma nota prévia que tem a ver com o próprio formato do debate, onde cada participante nunca consegue (com tempo) esclarecer plenamente o eleitoral sobre as suas propostas para o país e a sua visão do mundo, servindo genericamente para empolgar as claques, principalmente nas redes sociais.
Ademais, talvez até por razão do formato (e não pela prestação dos jornalistas, que fizeram dignamente o seu trabalho), o que ontem tivemos ocasião de ver na televisão pública não vai influir em nada a tendência de voto do eleitorado, salvo numa parcela (mas, de todo, não menosprezável) do eleitorado que, mais do que aos dois do arco do poder, poderá fechar a sua escolha com os pequenos partidos de protesto.
O debate trouxe uma surpresa
É, por exemplo, o caso de Jónica Brito, a líder do PTS, que se afirmou como uma assinalável surpresa e que, até 17 de maio, poderá concitar a deslocação de algum voto juvenil, principalmente daquela juventude urbana e capacitada em termos académicos, desesperada com as incertezas do seu futuro, mas também junto das mulheres, os dois setores que a mensagem do partido escolheu como alvo preferencial do seu discurso político.
Mesmo assim, penso que o PTS ficará aquém da possibilidade de eleger um deputado, embora não seja menosprezável, o que me parece se irá confirmar nas urnas: um assinalável crescimento eleitoral, comparativamente às legislativas de 2021. E, dependendo da estratégia que vier a definir no período pós-eleitoral, afirmar-se como um partido em crescimento que, no futuro e pela esquerda, poderá contar para baralhar a ordem natural das coisas do bipartidarismo.
Quanto ao outro chamado pequeno partido (embora pense que os partidos, como os homens, não se medem aos palmos), o líder do PP, Amândio Vicente, independentemente da admiração que me suscita pela sua perseverança e alguma coerência, poderá também concitar algum crescimento naquela franja do eleitorado da meia idade para cima, mas não decidindo nada de substantivo, nem formatando o partido como reserva para o futuro. É que, lá bem atrás, já havia perdido (por dificuldades de análise objectiva) a possibilidade de se constituir alternativa.
O sonho de partido-charneira do sistema político
Num contexto de bipolarização, como é aquele que vivemos, o objectivo da UCID de se constituir alternativa ao bipartidarismo, parece que, mais uma vez, não se irá confirmar. Quando muito, o partido poderá, embora seja difícil, manter o número de deputados em São Vicente, o que, junto à real possibilidade de conseguir eleger Alberto Mello (Beta) em Santiago Sul, verá concretizar o objetivo que persegue desde há vários anos: constituir um grupo parlamentar, elevando a outro patamar a sua intervenção política na Assembleia Nacional.
Paralelamente, prevejo um crescimento da UCID em Santo Antão, com a escolha acertada de Carlos Bartolomeu (um cidadão e ex-sindicalista com provas dadas), principalmente enquanto voto de protesto, ainda assim sem aparente possibilidade de se fazer eleger, mas constituindo-se como capital político alternativo para o futuro.
Idem aspas para o Sal, onde Aldirley Gomes se tem vindo a afirmar (merecidamente) como figura política emergente. De algum modo, é a democracia que perde, porquanto, quer um quer outro daria dariam bons parlamentares e elevariam a fasquia do debate na Assembleia Nacional.
O problema fundamental da UCID reside em dois fatores: 1. a polarização que estas eleições trouxeram para o debate público; 2. a incompreensão do seu líder de que não basta, para se afirmar como alternativa, o ataque alternado a um e outro partido do arco do poder.
João Santos Luís, embora tenha melhorado em muito a sua prestação, não conseguiu passar uma mensagem sólida e perceptível, pela diferença, ao eleitorado, o que afasta a possibilidade de a UCID se constituir partido-charneira da política cabo-verdiana, contando efetivamente para o curso das políticas públicas.
É que, ao contrário do cenário idealizado pelo líder democrata-cristão, essa possibilidade só poderia concretizar-se caso os dois partidos do arco do poder ficassem de tal modo próximos que precisariam de um aliado de governação. Ora, do meu ponto de vista, esse cenário está completamente afastado.
De todo o modo, caso venha a conseguir um grupo parlamentar, João Santos Luís poderá, na medida da relatividade, afirmar-se como um dos líderes vitoriosos das eleições na noite de 17 de maio.
Mais do mesmo não convence ninguém
Naturalmente, o mais prejudicado pelo debate foi Ulisses Correia e Silva, natural e compreensível alvo das críticas de todos os seus opositores. E esta é uma circunstância da qual nem se deve queixar, ou não estivesse ele, desde há uma década, à frente do Governo de Cabo Verde. Não seria suposto (nem natural) que os partidos da oposição participassem no debate acusando-se mutuamente.
É, no entanto, como já disse no início desta minha opinião, um prejuízo que não vai ter qualquer influência na decisão de voto dos cabo-verdianos.
De todo o modo, poder-se-á dizer que a prestação do ainda primeiro-ministro foi, de algum modo, desastrosa. E começou logo na primeira parte do debate quando, ao contrário dos outros candidatos, que estavam efetivamente a falar para os eleitores, Ulisses preferiu direcionar o seu olhar para os moderadores do debate. Um erro corrigido na segunda parte, não sem deixar o efeito inicial que passou a ideia de que o presidente do MpD teria dificuldade em se fixar olhos nos olhos os cabo-verdianos
Embora não sendo um fator determinante no avaliar das políticas oferecidas por cada candidato, a imagem é cada vez mais fundamental, porque a política não é apenas feita de conteúdos, mas também de simbologias. E, nesse, sentido, Ulisses Correia e Silva perdeu uma boa oportunidade de afastar aquela imagem de que é uma figura distante, com dificuldades em criar empatias com as pessoas comuns, uma espécie de ser providencial que está acima das pequenas questões mundanas.
O recandidato à sua eleição, centrou em cima de si próprio todos os holofotes, relegou para segundo plano o seu partido (colocando-o como figura instrumental dos seus interesses pessoais e ambições políticas), fazendo um atamancado e errático balanço da sua governação, repescando promessas não cumpridas e não avançando um único argumento que justifique a renovação de confiança do eleitorado.
Ao centrar em si próprio e na governação de uma década os argumentos para tentar convencer os cabo-verdianos para um novo mandato, Ulisses Correia e Silva exibiu um produto que já não merece a confiança do eleitorado (ele próprio) e amarrou o partido a uma derrota anunciada.
É que, independentemente da boa vontade do eleitorado, fazendo fé numa renovação de confiança, por razão do bizarro argumento da experiência, na cabeça das pessoas comuns estão duas afirmações que, neste período de proximidade às urnas, ressurgiram queimando como brasas.
Na memória coletiva ainda persistem as declarações do ainda primeiro-ministro no pós-2016, quando, confrontado por jornalistas, disse duas coisas absolutamente reveladoras da sua visão da política e da seriedade com que está na vida pública: 1. Uma coisa é a campanha, outra é estar no Governo; 2. Os empregos não caem do céu. E, na minha modesta opinião, foi a partir daí que, em crescendo, Ulisses Correia e Silva começou a perder o país.
A marcha da História é imparável
Por maldade e/ou por ignorância, o exemplo das bananas avançado no debate por Francisco Carvalho tem sido alvo de chalaças e imagens jocosas nas redes sociais. É evidente que, para quem tem défice de neurónios, é difícil compreende o que realmente aconteceu.
E o que aconteceu foi muito simples, o líder do PAICV, dirigindo-se a pessoas comuns (o que, aliás, fez durante todo o debate), permitiu-se, em poucas palavras, dar uma mini-aula de economia, ao explicar para que toda a gente entenda, o tão propalado crescimento económico, sublinhando a diferença entre a estatística e a vida real.
É que, pesem os reiterados anúncios de crescimento da economia avançados pelo Governo, tal fenómeno não se faz sentir nos bolsos da imensa maioria dos cabo-verdianos e das cabo-verdianas, confrontados que são com acelerada perda do poder de compra e do aumento da carestia de vida.
Como já se disse, Francisco Carvalho falou para pessoas comuns e o exemplo das bananas desperta inquietações e uma interrogação: se o crescimento económico não se sente no meu estômago é porque alguém anda a comer as minhas bananas… tão simples como isto, tão direto à compreensão colectiva que só mesmo idiotas poderão fazer chalaças com isso.
Mas, o exemplo das bananas avançado pelo líder do PAICV tem, ainda, um alcance mais profundo e sublinha uma visão do mundo de difícil compreensão para tecnocratas e adoradores de ídolos de papelão: a economia, ao contrário do que vem sendo repetido na última década, deve estar ao serviço das pessoas, da maioria que todos os dias faz andar o país para a frente, que não come estatísticas nem se alambaza de prebendas e gorduras do Estado.
Como já disse noutra ocasião, Francisco Carvalho (goste-se ou não) é a figura que surge como instrumental para corporizar a vontade de mudança que, aliás, os diversos estudos de opinião têm sublinhado, em particular, desde 2020, e isso é incontornável. Até porque a marcha da História é imparável. E, nesse sentido, o líder do PAICV está condenado, pelo repto popular, a ser o próximo primeiro-ministro de Cabo Verde.
É uma boa alternativa? É aquela que se apresenta possível e imediata. Ademais, só o futuro o poderá dizer!
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Post Scriptum: aos que se esgadanham contra a suposta parcialidade das ideias expressas e a clareza com que debito a minha visão, devo dizer que a Opinião é a única área do jornalismo em que não há limites de imparcialidade ou de independência, precisamente porque é Opinião! Perceberam suas aventesmas?
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