Marina. A Pérola Negra
Elas

Marina. A Pérola Negra

Fenómeno! Puro como uma verdadeira Pérola Negra. Daquelas joias raríssimas que se energiza com a luz do sol e favorece a autoestima ao ermo. É ela, Marina Alyssa Correia, tem 27 anos, cresceu entre as zonas de Achadinha Baixo & Achada Santo António (ASA), na Praia, onde viveu até aos 14 anos, quando partiu com a sua mãe, e a irmã mais nova para Nice, na França.

O r@cismo fez dela numa campeã mundial, num global ícon, determinada a ser um exemplo para as negras de todo o Mundo.

 

‘No início nem tudo foi um mar de rosas”, revela Marina de olhos cheios de vida, de coragem, de propósitos e determinação. Ela sabe quem ela é. Está consciente que no pódio onde mora os seus ombros estão acima das figuras pública de peso mundial. É influencer nas redes sociais, é constantemente assaltada por Paparazzis, ou anchor’s dos grandes canais televisivos do mundo, Rádios, ou Podcast, e o seu “status quo” chama a atenção em eventos internacionais.

Por isso, desliza conosco, dançando no LongBoard dela e conheça um pouco da história da primeira e única Cabo-verdiana, e Africana, sendo Campeã Mundial de 'Longboard Dancing Free Style', uma modalidade desportiva que ainda não chegou as nossas ilhas.

A kriola, fala sobre ser espelho para jovens e conta como trabalha a mente em meio às pressões raciais, de gênero, socioeconómico, sexismo, stereotipicose e ético-moral nas abordagens que atentam para as relações de poder, dentro e além das fronteiras de gênero, classe, região ou ainda religião.

A consagração da carreira de Marina Correia veio nos Jogos do Mundial de 2020. “Sou Campeão Mundial de Longbord free style dancing. Até então, sou a Campeã Mundial porque eu ainda não perdi o meu título. Hoje, sou a cara do desporto Cabo-verdiano. Foi Embaixadora Olímpica de Cabo Verde nos Jogos de Paris, de 2022. Provavelmente, depois da Císe, e a Mayra Andrade sou a Cabo-verdiana mais conhecida no mundo”, assevera entre risos.

Além das suas conquistas históricas para Cabo Verde, a atleta transformou-se num ícone, numa modelo, ecologista, influencer, embaixadora Olímpica, leader comunitária, Humanista, veggie, e ativista social. Assim, cada vez mais, atrai os olhares do público não só ligado ao desporto, mas de todo o mundo. Não deixa de ser surpreendente que ela tenha conquistado tamanha notoriedade na comunidade cabo-verdiana também.

 “Tenho vários patrocinadores. Só para citar alguns como. Sector 9, Maurice Lacroix (relógio), Apple, Nike, Facebook, Brake (Motas Elétricos), tenho um de anéis, RedBull, Louboutin (sapatos de saltos altos) entre outros. Sou também modelo, e top model”, disse, a Campeã Mundial que é muito bem pago para ser Marina. Imaginem.

Je ne parle pas Frençais

Contudo, antes disso, na escola cedo, nem deu tempo para aprender para que lado fica “Le Paris”, entendeu o quanto custa ser "diferente". Arranhava um “j’ai ne parlêz pá Fransé”, por isso, a barreira da língua a impedia de conviver, de brincar com as outras crianças. A barreira da língua a empurrou para o grupo dos renegados que têm ainda em comum o facto de serem “bullying, espancados, humilhados, roubados por garotos mais velhos”, não é preciso descrever o scenario da violência.

Aos, 16 anos, Marissa era uma craque de bola. “Jogava futebol desde criança. Joguei com rapazes mais grandi ki mi di la ASA o Txadinha, e olha que eu era bom de bola. Na França, jogava na minha escola. Ganhei uma bolsa de estudos para jogar futebol no O.G.C Nice. Entretanto, não conseguia comunicar em francês com o meu treinador. Um dia o mister disse-me que isso não ia dar certo. Por isso, deixei o futebol. Durante um tempo, fiquei muito deprimida, com stress, com medo de falar por causa do meu acento. Duvidava das minhas capacidades”, recorda a trauma.

Foi esse ato racial, de indiferença e intolerância que impetus empurrou a teenager para o mundo do Skate. Ainda não tinha completado os 18 anos, quando a sua vida deu uma ascensão meteoricamente.

A partir de então Marina passou a moldar, a sua vida à sua maneira. “Andar de Skate para mim, foi fácil porque não tinha que falar com ninguém. No início, nunca pensei nela como uma disciplina desportiva, ou muito menos, ser um dia profissional da modalidade. No início. Skate era apenas um hobbies. Eu só queria andar de Skate, porque era o meu refúgio social. Permitiu-me expressar a minha pessoa artisticamente, e a minha personalidade sem falar. Isso era perfeito”, relata.

“Foram duas colegas, uma brasileira e uma português da escola de FSF (Francês como Segunda Língua) uma escola especial de línguas, só para estrangeiros, que me introduziram ao Skate. Quando chegas e não falas o francês, durante um ano tens que ir para esta escola. Há estudantes de todas as partes do mundo. De Tailândia, à Rússia, de Argentina, a Cabo Verde”, conta.

Entre os “falhados”, encontrou e semeou amizade que dura até hoje. “Senti uma conexão com o Skate. É como o meu cordão umbilical. Comecei a andar de Skate por todos os lados, ia comprar pão, a escola, as lojas. Punha três meias para proteger o pé, os dedos, e o calcanhar. As meias ficaram cheios de buracos. Mas, nunca pedi ajuda a ninguém. Caí muitas veses, mas, não desiste. Levantei-me Sempre! (…) Comecei a aprender a fazer alguns truques com os colegas. Descia as escadas, deslizava nos corre mãos das escadas, saltava objetos, rampas, fazia truques radicais. Observava os meus colegas. Estudava-os. Cada um tem os seus truque, o seu próprio ritmo de execução dos exercícios. Cada desportista têm o seu style, tu est compris”, solta um Francês.

O Boulevard Promenade des Anglais era o seu destino as quartas-feiras. Aí, cruzou com a sorte.

“Numa das ruas há uma loja onde se vende artigos desportivos. Todos os dias ia ver as montras com os Skates-Sector 9. Gostava muito de um que custava cerca de 160 €. Eu não tinha sequer um euro. Certo dia o dono da loja chamou-me e disse que a campainha que fazia estes Skates ia estar aí, para apresentar um show dos seus produtos. Disse-me, você deveria vir. Foi, e experimentei todos o Sector 9. Comecei às 10 da manhã e terminei as 12:00. Só parei, uns minutos uma vez para beber água”, assegura.

No final do dia, o dono e o CEO & manager da campainha tinha um presente para ela. “Pensei ser um stick, ou T-shirt, qualquer coisa pequena”. Pediram-me para escolher o que eu queria. Estava ispso factum perante o momento que definaria a sua vida.

“Escolhi o melhor que havia. Peguei o mais caro. Custava três ou quatro vezes mais do que eu sempre sonhava. No dia seguinte, foi ver o dono da loja que me felicitou, e disse que a partir desse momento eu era patrocinado por eles. Não entendi o significado disso tudo. Ele explicou que eles viram muito potencial em mim, por isso, uma vez por mês tenho direito a todos os equipamentos, treinos, seguro médico, e a manutenção. Que eu agora representava a marca Sector 9”, lembra de sorriso nos lábios negros.

Três anos depois participa na sua primeira compiticão internacional. Já tinha deixado o Skate, mudou para Longboard. Almeja um segundo lugar. “Em Toulouse, eu estava competindo contra atletas de renome. Havia dois níveis de competição. Uma para as que tem sponsor e a outra, para os que não tinham patrocínio. Hum! Há, é isso! Pensei. Disse, se eu treinar um pouco mais poderia ser melhor das todas’. Na segunda, foi letal. Tornou-se na joia da coroa.

R@cismo

Ao brindar Cabo Verde com inédito “ouro” no dia 10 de janeiro no Mundial de 2020, Marina de imediato usou a social média e postou a sua foto legendado “Sou a Primeira Negra, Cabo-verdiana e Africana a ser Campeã Mundial de Longboard”. BUM! Em segundos virou um viral que, avé, abriu a Pandora Box do racismo e xenofobia. Aí que susto.

Durante dois meses na social média é brutalmente bombardeada é constantemente bullying, descriminada e prejudices por ser ela fruta da miscigenação. Nas redes sociais Marina caí naquela tensão entre os chiques Creoles com manias de Djan Branco Dja, Mulatos (assimilados) e Negros. “O maior ataque vinha da nossa gente. O mofo era que eu não sou negra suficiente”. Marina sempre carregou consigo o estigma por ser kriola (mestiço), e este é o destino que não se pode fintar facilmente.

O ataque racial na social média chama atenção e os holofotes das televisões e rádios que publicitam o caso. Numa entrevista com a Televisão e Radio França Internacional (RFI), é encostada contra a parede acusada de despoletar a polémica — Porquê fez o Post? “Quando acontece qualquer crime, vocês são os primeiros a dizer que são os negros, os africanos. Somos os culpados pelo crescimento dos crimes no país . Então, quando um negro é Campeã Mundial, é preciso anunciar isso também. Que é um negro! Um Africano”, responde ilustrando como recusa por um lado, aceitar de forma pacífica a sua condição social, por outro, esfrega na cara do repórter a hipocrisia racial da sociedade francesa.

A Poderosa

A "kriola" transfornou-se numa heroína para uns, humanista para outros, que vem lutado para uma sociedade mais justa. Sabe da responsabilidade social que pesa sobre os ombros, sobretudo, no que toca ao empoderamento das mulheres. Marina concorda que por causa do myth da beleza, as mulheres enfrentam uma pressão social impreterível, pois elas querem ser jovens, bonitas, sexy, e, socialmente elas têm que ser perfeitas.

“Fiquei spantadu quando percebi o meu papel, e a minha responsabilidade social. Recebi um vídeo na Instagram de uma jovem americana negra, que estava chorando porque ela finalmente teve a coragem de entrar numa loja desportiva e comprar um LongBoard Skate. Ela disse-me que tomou coragem porque viu uma negra como ela. Porque, normalmente nas capas dos magazines desportivos estão sempre com loiras. Nunca uma negra. Eu sou a primeira. Foi quando entendi o meu papel. Percebi que eu era um exemplo social”, revela mostrando vídeo. Não podia vacilar.

Fala sobre estar em evidência, ser inspiração para jovens e como mantém a cabeça no lugar. Está determinada a ser um exemplo para as 'longboarders' negras de todo o mundo. “Tenho um grupo de pessoas, uns são toxídependentes, outros são obesos, alguns são transgender, uma vez por semana, vamos ao Boulevard para andar-mos de Skate, para socializarmos, sentir-mos bem! (…) Quando tenho a oportunidade de falar para crianças, com alguma dúvida ou curiosidade sobre mim, acho muito legal poder compartilhar a minha história, mostrar que realmente não foi fácil chegar até aqui, mas que acreditei muito”, diz.

Todavia, o que a fama ensinou e cultivou nela acima de tudo foi aquele sentimento de orgulho das suas raízes. “Ami é Badia. Ami é Afrikana. Ami é Negra”.

É com esse sentimento cabo-verdiano que ela carrega no peito que decidiu apresentar a Câmara Municipal da Praia, um projeto para a criação de um Park, ou uma zona verde, onde as pessoas possam utilizar para Skate, LongBooards, e “o Park tinha que estar num lugar verde. Não temos lugares verdes na capital. O meu padrasto é francês, quando saímos ele tem que andar de chapéu, poi cremes de pele porque o sol é demais para ele. Não existe uma área verde onde a gente possa descansar, andar de bike, fazer ginástica, ler um livro, fazer um picnic, etc”, observa.

Vale o que ela sente quando pensamos que podemos mover montanhas, mares e ir ao fim do mundo quando quer uma coisa.

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