Portugal: Cabo-verdiana Rita Évora começou nas limpezas e hoje é gestora e empresária
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Portugal: Cabo-verdiana Rita Évora começou nas limpezas e hoje é gestora e empresária

Em conversa no “O Tal Podcast”, a licenciada em Gestão e empresária, filha de uma empregada de limpeza e de um operário da construção civil, conta que aprendeu com os pais o sentido de sacrifício. “Tinha a conta ordenado a negativo. Muitas vezes, saía à meia-noite do trabalho num centro comercial e às sete horas da manhã estava a limpar um escritório”, confessa Rita, não escondendo a memória das raízes e o seu orgulho por um percurso de muito trabalho e sacrifício.

Licenciada em Gestão, e empresária há mais de uma década, Rita Évora dos Santos transformou as aprendizagens num programa de mentoria exclusivo para mulheres, e focado em finanças sistémicas. Uma abordagem que desenvolve a partir do entendimento de que “o dinheiro é emoção”, conforme partilha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que sublinha a importância das crenças e padrões familiares na relação com a área financeira, e partilha como Cabo Verde lhe devolveu o sorriso.

Todos os cêntimos contam, por isso, mesmo a moeda mais pequena deve ser valorizada, defende Rita Évora dos Santos. “Não vim de um sítio com dinheiro, tive que o ganhar. E hoje respeito todo o tostão. Se vejo um cêntimo, apanho”, diz a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

Filha de uma empregada de limpeza e de um trabalhador da construção civil, a gestora conta que aprendeu com os pais o sentido de sacrifício.

“Vou fazer o que tiver que ser feito para me manter intacta”, garante, dando como exemplo a forma como conduz o seu negócio.

“Tenho uma empresa de gestão de alojamentos, mas o nosso core também são limpezas. Se tiver que limpar um apartamento, sou a primeira”.

Além das lições que traz da infância, nomeadamente que pobreza não é sinónimo de indignidade, e que o básico é o essencial, Rita partilha como a experiência empresarial tem sido formativa.

“Limpámos as nossas poupanças para empreender”, revela, recuando aos primórdios da sua aventura empresarial, iniciada com o ex-companheiro, há mais de 10 anos.

Hoje mentora de finanças sistémicas, a empresária conta que chegou a ter a conta ordenado a negativo – “Então, muitas vezes saía à meia-noite do trabalho, e às sete da manhã estava a limpar um escritório” – antes de encontrar a sua ‘fórmula’ de poupança.

“Há pessoas que com aquilo que têm fazem uma vida digna, e há pessoas que estão enrascadas, porque somos influenciados por muitos viciozinhos. Vivemos num mundo de consumismo”.

Sem ceder às inúmeras pressões de compra, Rita explica como se foi ‘libertando’.

“Quando acabei de comprar o carro, continuei a pôr [dinheiro] de parte. Quando aluguei a casa, tinha o Porta 65, e aquilo que me deram pus de lado, como se estivesse a pagar a renda por completo. E ganhei este hábito”.

A partir do que tem vivido, a empresária pretende apoiar outras mulheres na sua gestão financeira. “Quando conheço as finanças sistémicas, percebo que o dinheiro é emoção”, afirma, convicta da importância de manter o foco feminino do seu trabalho.

“Uma coisa que as mulheres têm é empatia. A minha mentora, que me trouxe às finanças sistémicas, diz: cada mulher que encontro traz-me notícias de mim”, partilha a empresária neste episódio de “O Tal Podcast”, em que revê as próprias reconstruções emocionais.

“Vim de Cabo Verde super apaixonada por mim, porque conheci uma Rita que não via há mais de 20 anos, que sorri só porque sim. O meu sorriso estava apagado e voltou”.

O processo de transformação, revela a empresária, implicou uma mudança de vida completa.

“Saí da relação em que estava, e vi-me sozinha pela primeira vez. Na altura até isolei-me um bocadinho, passei por uma tristeza, até perceber que a tristeza também é boa. E comecei a abraçá-la, e a abraçar-me”.

Um podcast pioneiro na cultura negra e afrodescendente

“O Tal Podcast” é um podcast semanal dedicado às relações interpessoais e aos afectos humanos. Através de conversas profundas com convidados notáveis, o podcast revela uma narrativa original e abre as portas a uma comunidade internacional de reflexão e de interesse.

Pioneiro na cultura negra e afrodescendente em Portugal, é um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização.

Em longas conversas sem guião, Georgina Angélica e Paula Cardoso apresentam convidados especiais, em novos episódios, todas as quintas-feiras nos sites do Expresso, SIC e SIC Notícias ou qualquer plataforma de podcasts.

Georgina Angélica é especialista em Educação e Intervenção Social. Atua como educadora, formadora e palestrante, com mais de 20 anos de experiência em Portugal, Inglaterra e Angola.

Paula Cardoso é fundadora da rede Afrolink e autora da série de livros infantis “Força Africana”. É, ainda, apresentadora do programa de TV "Rumos", transmitido na RTP África.

Ouça a conversa na íntegra aqui

C/Sic Notícias /Expresso
Fotos: Tomás Almeida

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