
O maior perigo para a República não é apenas aquilo que os partidos dizem uns dos outros.Talvez seja esta cultura onde alguns transformam a função pública em palco permanente e, mais tarde, aparecem vestidos de fiscais da moral institucional.
Há uma certa ironia trágica em ver antigos ministros transformarem-se subitamente em guardiões inflamados da República, empunhando a palavra “crime” com a solenidade de quem desce da montanha trazendo tábuas da lei. Há nomes que nos sobem à cabeça um pouco à parva. Tal como um homem que se chama Napoleão e tem a mania que é um imperador.
A política cabo-verdiana tem destas metamorfoses curiosas. Eu já assisti vídeos feitos num gabinete ministerial, que mais parecia um estúdio improvisado de entretenimento digital. Hoje, aquele que protagonizava os vídeos mostra-se como um pilar sagrado da moral republicana.
A expressão “crime contra a República” é pesada… exige prudência, memória e coerência. Porque a República não se defende apenas em discursos indignados ou conferências de imprensa. Defende-se também no comportamento de quem ocupa cargos públicos.
Durante anos, os cabo-verdianos assistiram à banalização das instituições transformadas em cenário para vídeos, directos e espectáculos digitais feitos a partir de gabinetes e dentro de carros em andamento.
Ora, a própria legislação é clara, quando diz que, o uso de bens públicos para fins alheios às funções, pode configurar peculato de uso, punível criminalmente. E os titulares de cargos políticos têm o dever de respeitar princípios da probidade e exemplaridade.
O maior perigo para a República não é apenas aquilo que os partidos dizem uns dos outros.Talvez seja esta cultura onde alguns transformam a função pública em palco permanente e, mais tarde, aparecem vestidos de fiscais da moral institucional.
A República merece mais do que indignação selectiva.
É que não dá uma p’ra caixa!!
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