Cabo Verde para Todos: Justiça social não pode esperar
Ponto de Vista

Cabo Verde para Todos: Justiça social não pode esperar

A ideia de um Cabo Verde para todos deve ser assumida como um compromisso real de cada cidadão nacional e da diáspora: um país com igualdade de oportunidades, sem exclusões estruturais, onde ricos e pobres tenham acesso digno a educação, energia, água, habitação, mobilidade e saúde. Portanto, a alternativa é clara: construir um Cabo Verde inclusivo, justo e equilibrado, evitando perpetuar um modelo de desenvolvimento que concentra oportunidades e marginaliza a maioria dos cidadãos.

Estar assumidamente com um Cabo Verde para todos é posicionar-se ao lado do povo das ilhas e da sua diáspora. Não é compreensível o contrário, eis algumas razões factuais:

Num país onde cerca de 1/4 da população, ou seja, aproximadamente 25%, vive em pobreza absoluta, e onde desses uma parte significativa enfrenta ainda cerca de 3% em situação de extrema pobreza, sobrevivendo com menos de 200 escudos por dia, impõe-se uma reflexão séria sobre o modelo de desenvolvimento em curso. Resulta mais de 130.000 cristãos nessa injustiça da pobresa absoluta.

Num contexto em que persistem problemas estruturais no acesso à água, meios básicos de saneamento, habitação precária, incluindo casas de lata, desemprego elevado e uma juventude que emigra em massa, somam-se ainda fragilidades graves na assistência à saúde pública, com hospitais a enfrentarem escassez de médicos, medicamentos e insumos essenciais, torna-se imperativo assumir uma agenda clara por um Cabo Verde verdadeiramente para todos.

Não é aceitável normalizar uma realidade em que, apesar de um crescimento económico anual na ordem dos 7% do PIB e da entrada de cerca de 1,2 milhões de turistas por ano, os ganhos gerados não se traduzam numa distribuição equitativa, beneficiando apenas alguns em detrimento da maioria da população. Trata-se de um facto que exige questionamento sério e responsável.

É legítimo perguntar: para onde vão os rendimentos gerados pelos 1,2 milhões de turistas anuais? Da mesma forma, é igualmente legítimo questionar de que forma o crescimento de 7% do PIB se traduz em melhoria efetiva das condições de vida da maioria dos cabo-verdianos.

Um Cabo Verde para todos implica igualmente a integração territorial e a garantia, por parte do Estado, da mobilidade de pessoas e bens entre as ilhas. Neste sentido, torna-se necessário repensar o atual modelo de transporte marítimo interilhas, sobretudo quando o mesmo se traduz em elevados custos para o Estado e na dependência de um operador estrangeiro monopolizador que só almeja o lucro.

Este sistema envolve ainda pagamentos de milhões de euros dos cofres do Estado, incluindo um processo judicial em que são reclamados cerca de 40 milhões de euros, enquanto o cidadão comum suporta, diretamente, os custos de um serviço frequentemente declarado deficitário no mercado, globalmente, irregular e nada previsível.

No setor da saúde, continuam a registar-se dificuldades graves: consultas e exames com marcações que podem demorar meses e até anos, evacuações médicas tardias na maioria dos casos quando mais se trata de uma situação de probresa, e falta de reagentes que condiciona o acesso a análises clínicas básicas para a maioria da população, enquanto uma minoria privilegiada tem acesso a alternativas mais rápidas e eficazes.

Por isso, a ideia de um Cabo Verde para todos deve ser assumida como um compromisso real de cada cidadão nacional e da diáspora: um país com igualdade de oportunidades, sem exclusões estruturais, onde ricos e pobres tenham acesso digno a educação, energia, água, habitação, mobilidade e saúde.

Portanto, a alternativa é clara: construir um Cabo Verde inclusivo, justo e equilibrado, evitando perpetuar um modelo de desenvolvimento que concentra oportunidades e marginaliza a maioria dos cidadãos.

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