
Pela primeira vez em séculos, lideranças cristãs não puderam entrar na Igreja do Santo Sepulcro, um templo considerado o mais sagrado da fé cristã. A decisão das autoridades israelitas foi classificada como uma afronta à liberdade religiosa e um “precedente grave”.
Pela primeira vez em séculos, a celebração do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, foi interrompida por autoridades israelenses, impedindo a entrada das principais lideranças cristãs no local mais sagrado da fé cristã.
A decisão, tomada no centro da escalada militar no Médio Oriente, provocou reação imediata do Vaticano e de governos europeus, que classificaram o episódio como uma afronta à liberdade religiosa e um “precedente grave”.
O episódio ocorre em um dos momentos mais simbólicos do calendário cristão e evidencia o impacto direto do conflito sobre práticas religiosas milenares na região.
O patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, e o responsável pelos franciscanos na Terra Santa, Francesco Ielpo, foram barrados pela polícia israelita ao tentar aceder à Igreja do Santo Sepulcro para celebrar a missa do Domingo de Ramos.
Em comunicado conjunto, o Patriarcado Latino de Jerusalém e a Custódia da Terra Santa afirmaram que esta foi a primeira vez, em séculos, que líderes da Igreja foram impedidos de realizar a celebração no local.
“Precedente grave”
Segundo a nota, os dois religiosos foram intercetados no trajeto e obrigados a voltar para trás. As instituições religiosas classificaram o episódio como um “precedente grave” e denunciaram a falta de respeito à sensibilidade de biliões de fiéis de todo o mundo que, neste período, voltam sua atenção para Jerusalém.
As restrições ocorrem após o início, em 28 de fevereiro, de uma ofensiva militar conduzida por Israel com apoio dos Estados Unidos da América (EUA) contra o Irão. Desde então, as autoridades israelitas proibiram grandes aglomerações, inclusive em sinagogas, igrejas e mesquitas, como a de Al-Aqsa, durante o mês do ramadão, limitando reuniões públicas a cerca de 50 pessoas.
A polícia justificou a medida afirmando que a configuração da Cidade Velha e dos locais sagrados forma uma área complexa, o que dificultaria o acesso rápido de equipas de resgate em caso de ataque, representando risco real à vida.
Reação internacional
A reação internacional foi imediata. A primeira-ministra de Itália, Giorgia Meloni, classificou o episódio como “uma ofensa não apenas aos fiéis, mas a todos que defendem a liberdade religiosa”. Já o ministro dos negócios estrangeiros italiano, Antonio Tajani, anunciou a convocação do embaixador de Israel em Roma.
O presidente francês, Emmanuel Macron, também condenou neste domingo “a decisão da polícia israelita” de impedir o patriarca latino de Jerusalém de aceder à Igreja do Santo Sepulcro para celebrar a missa do Domingo de Ramos e manifestou-lhe “pleno apoio”.
“Condeno essa decisão da polícia israelita, que se soma ao aumento preocupante de violações do status dos locais sagrados de Jerusalém”, escreveu o presidente francês na rede X (ex-Twitter).
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa e relembra a entrada de Jesus em Jerusalém, recebido por uma multidão dias antes de sua crucificação e, segundo a tradição cristã, de sua ressurreição.
Diante das restrições, o Patriarcado cancelou a tradicional procissão que costuma sair do Monte das Oliveiras e reunir milhares de peregrinos todos os anos. “Os líderes das igrejas agiram com responsabilidade e, desde o início da guerra, respeitaram todas as medidas impostas”, afirmou a instituição religiosa.
“Muito triste”
Sem acesso ao Santo Sepulcro, cristãos palestinianos se reuniram no Mosteiro de São Salvador para celebrar a data.
“É muito triste. Estamos acostumados com a procissão que começa no Monte das Oliveiras, mas este ano fomos impedidos de celebrar”, disse André, de 51 anos.
Para Simon Hosh, de 25 anos, a limitação às celebrações internas é uma perda. “É uma pena, porque muita gente vem do mundo inteiro para viver esse momento nas ruas.”
Em Roma, o papa Leão XIV prestou homenagem aos cristãos do Médio Oriente após a oração do Ângelus, destacando que muitos não conseguem viver plenamente os ritos da Semana Santa em pleno conflito militar, que classificou como devastador.
Segundo estimativas do Patriarcado Latino de Jerusalém, referentes a 2023, os cristãos representavam mais de 18 porcento (%) da população da Terra Santa na época da criação do Estado de Israel, em 1948. Hoje, são menos de 2%, na sua maioria ortodoxos.
C/Opera Mundi
Foto: Jorge Láscar/Wikimedia Commons
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