
A Constituição da República reconhece a enorme importância que é ter uma habitação, prevendo no seu no art 71º que “todos os cidadãos têm direito a habitação condigna", não fica por isso, ela também elenca pontos importantes de como promover o acesso à habitação condigna, tudo isto interligado com o reconhecimento da família como a célula base da nossa sociedade, um direito que todo cidadão cabo-verdiano possui. Porém há uma questão constantemente colocada pela juventude cabo-verdiana que tem visto o sonho de conseguir a sua casa tornar-se cada dia mais complexo devido ao aumento desproporcional e contínuo nos preços dos imóveis, quer em aluguer ou compra direta. Assim está-se a construir uma geração que encontra-se com dificuldade em sair da casa dos pais (a juventude que tem o direito de ser incentivada pelo poder público, a família e a sociedade). Será que isto tem-se visto na prática? Será que a Constituição tem sido levada em conta, ou ficamos só nos objetivos abstratos? Em que ficamos?
Desde tenra idade, pelo menos na minha geração, nos foi incumbido uma tarefa assente sobre três princípios claros: o do estudar, o de trabalhar e manter a conduta de um cidadão de bem. Disseram-nos que este caminho nos traria estabilidade e mobilidade social. Um contrato social implícito, que vigorou por várias épocas e que permitiu que gerações anteriores, ao cumprirem este “acordo” vissem os sonhos básicos de um cidadão contemporâneo materializarem-se, sobretudo no que toca a uma das necessidades fundamentais e indispensáveis de um ser humano: a de habitação.
Nos dias de hoje, tornou-se um enorme desafio dar os primeiros passos em direção à aquisição de uma habitação própria. Todos os jovens que atingem uma certa idade sentem, de forma natural, a necessidade de mudar para o seu cantinho, rumo à sua independência, liberdade e à construção do seu próprio projeto de vida, principalmente para aqueles que já estão a construir família.
Mas a realidade tem-se mostrado ser dura. Andar pela cidade da Praia à procura de imóveis, pesquisar no ‘Marketplace’ do Facebook, consultar imobiliárias, solicitar orçamentos nas empresas de construção, tem-se revelado ser um bicho de sete cabeças para quem quer começar, principalmente pelo preço praticado, que não mostra o mínimo sinal em adaptar-se ao bolso do jovem cabo-verdiano. Jovem este que tem tido dificuldade em encontrar um emprego estável, bem remunerado e que garante as condições necessárias para fazer face aos desafios da vida adulta.
A preocupação aumenta mais ainda quando comparamos a nossa realidade com a que foi dos nossos pais. Nas conversas com os amigos e colegas da mesma faixa etária percebe-se que a inquietação é a mesma. É que, de certa forma, a situação tornou-se exacerbada devido aos altos custos de construção, juros altos, e inflação que só tem aumentado ao longo dos anos e não tem mostrado sinais de melhorias.
A Constituição da República reconhece a enorme importância que é ter uma habitação, prevendo no seu no art 71º que “todos os cidadãos têm direito a habitação condigna", não fica por isso, ela também elenca pontos importantes de como promover o acesso à habitação condigna, tudo isto interligado com o reconhecimento da família como a célula base da nossa sociedade, um direito que todo cidadão cabo-verdiano possui. Porém há uma questão constantemente colocada pela juventude cabo-verdiana que tem visto o sonho de conseguir a sua casa tornar-se cada dia mais complexo devido ao aumento desproporcional e contínuo nos preços dos imóveis, quer em aluguer ou compra direta. Assim está-se a construir uma geração que encontra-se com dificuldade em sair da casa dos pais (a juventude que tem o direito de ser incentivada pelo poder público, a família e a sociedade). Será que isto tem-se visto na prática? Será que a Constituição tem sido levada em conta, ou ficamos só nos objetivos abstratos? Em que ficamos?
A não materialização da nossa Constituição tem trazido consequências nefastas no que toca ao ordenamento do nosso território, principalmente na capital do país onde existe a maior concentração populacional do país e consequentemente onde a procura por uma habitação é constante. Na cidade da Praia concentram-se grandes oportunidades de emprego, acesso à educação devido às universidades, acesso a serviços essenciais como os da saúde, transporte, comércio e etc. Num deserto todos queremos estar perto da fonte mais próxima.
Habitar é uma exigência que deve ser atendida de forma digna, planeada e com acessibilidade - trata-se de uma necessidade humana básica, essencial para segurança, saúde, bem-estar e dignidade do homem. A falta de uma política pública bem definida e que garanta que o jovem cabo-verdiano encontre um caminho, menos burocrático e custoso que o atual, transforma-o num autodidata que começa a definir o seu caminho autónomo. Nisto, temos o processo inverso no surgimento de novos bairros,que neste caso são designados por bairros de assentamento informal. Surgem primeiro as casas e só depois toda a infraestrutura indispensável para uma habitação digna. Esta é a razão pela qual encontram-se várias casas construídas nas ribeiras ou linhas de água que mesmo estando secas durante grande parte do ano arrastam tudo o que encontram pela frente na época das chuvas. Casas construídas nas encostas que devido à falta de recursos não vêm acompanhadas de um estudo e intervenções de engenharia que permitam fazer face aos deslizamentos de terra, erosão do solo, etc. A falta de planeamento dos quarteirões que não prevê os afastamentos mínimos entre eles torna inconcebível a construção de passeios para segurança dos pedestres. O surgimento de becos que atenta contra a segurança dos moradores. A inexistência de espaços para estacionamento de viaturas dificulta a aproximação entre o ponto de paragem e a moradia ou então ocupa a estrada dificultando a passagem dos demais veículos. Estradas estreitas e inclinadas que não permitem a passagem de viaturas e dificultam a chegada dos primeiros socorros em casos de emergência. As encostas ou ribeiras exigem soluções de engenharia mais custosas para drenagem de águas pluviais ou residuais e também para a construção ou manutenção de infraestruturas básicas que permite atender a cada uma das casas num determinado bairro.
A falta de um traçado urbano bem definido desencadeia um efeito dominó que encarece tanto os cofres do Estado como os de cada morador que vê-se obrigado a tentar resolver o seu problema de forma autónoma. Torna-se, assim, evidente que só com um planeamento urbanístico antecipado e políticas públicas claras que garantam o acesso facilitado à habitação será possível solucionar os desafios enfrentados pelas cidades cabo-verdianas no que toca ao combate do crescimento desordenado dos bairros com predominância de construções de assentamento informal.
É legítimo querermos morar num “bom” bairro, com uma vizinhança tranquila, urbanizada o suficiente para garantir uma boa qualidade de vida, segurança, sustentabilidade, acesso às infraestruturas básicas e mobilidade. Todos queremos sair de casa em segurança, deixar os nossos familiares e bens em segurança e também voltar em segurança. Isto nunca pode ser visto como luxo ou justificar a situação atual, pois trata-se de um direito com justificação no princípio da dignidade humana. Por muito tempo, procurou-se explicar a desordem urbana atual devido a relutância do cabo-verdiano em recorrer a arquitetos e engenheiros para projetar e construir a sua habitação, esta leitura desvia-nos do foco da raiz do problema que é no básico onde tudo começa, o acesso à habitação.
*Arquiteto
Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.
Comentários