Não queremos favores, queremos o futuro - II
Colunista

Não queremos favores, queremos o futuro - II

Chegou o tempo de transformar indignação em ação cívica. Chegou o tempo de dizer, sem hesitação, que a juventude cabo-verdiana não está à venda, não está vencida e não está condenada. Cabo Verde precisa de mudança. E essa mudança terá de começar onde sempre começaram as grandes transformações da história: na coragem dos jovens.

Há uma geração inteira a ser empurrada para o desencanto. Jovens que sonharam com uma vida melhor e encontraram portas fechadas. Jovens que acreditaram na promessa dos 45 mil empregos dignos e hoje vivem entre biscates, informalidade, desemprego e vontade de emigrar. Jovens que escutam falar de empreendedorismo, mas descobrem que sem contactos, sem influência e sem proteção política, muitas oportunidades continuam fechadas nos corredores do privilégio.

Por isso, é preciso dizer com clareza: a juventude cabo-verdiana não quer esmolas. Não quer favores. Não quer ser comprada com “pratos de lentilhas” em tempo eleitoral. Quer respeito. Quer oportunidades reais. Quer formação acessível. Quer emprego digno. Quer habitação possível. Quer políticas permanentes, fiscalizáveis e eficazes. Quer um Estado que a prepare para construir Cabo Verde, e não um Governo que a empurre para fora do país.

A política não pode continuar a ser apresentada aos jovens como um território sujo do qual devem fugir. Pelo contrário: é precisamente na política que se decide o preço da escola, o acesso ao emprego, a qualidade da saúde, o custo da habitação, o futuro da economia e a dignidade das famílias. Afastar os jovens da política é uma estratégia confortável para quem quer governar sem contestação. Uma juventude calada é sempre mais fácil de manipular.

Mas Cabo Verde precisa de uma juventude desperta, crítica, exigente e mobilizada. Uma juventude que compreenda que as eleições não são festas de partidos, mas momentos decisivos de soberania popular. São os momentos em que o poder volta às mãos do seu verdadeiro dono: o povo. E, nesse instante, nenhum jovem deve vender o seu futuro por promessas passageiras, favores pequenos ou conveniências momentâneas.

Estamos na eleição legislativa e deve ser encarada com responsabilidade histórica. Não se trata apenas de escolher pessoas ou partidos. Trata-se de escolher entre a continuidade de um modelo que falhou a juventude e a abertura de um novo ciclo político, social e económico. Trata-se de decidir se Cabo Verde continuará a perder os seus filhos para a emigração forçada ou se terá coragem de criar condições para que os jovens possam viver, trabalhar e prosperar na sua própria terra.

Não há desenvolvimento nacional sem juventude. Não há futuro coletivo com jovens desempregados, endividados, frustrados e expulsos pelas circunstâncias. Não há país digno quando a sua principal força de trabalho é tratada como problema a gerir, e não como solução a potenciar.

Por isso, esta coluna é um grito de indignação. Mas é também um apelo à consciência. Aos jovens, digo: não entreguem o vosso futuro a quem já demonstrou não saber cuidar dele. Não aceitem ser figurantes de campanha. Não permitam que falem em vosso nome sem vos ouvir. Não troquem direitos por favores. Não confundam promessas tardias com compromisso verdadeiro.

A Cabo Verde, digo: ou colocamos a juventude no centro do projeto nacional, ou continuaremos a assistir à lenta desertificação humana das nossas ilhas. Um país sem jovens é um país sem futuro. Um país que perde os seus jovens perde também a sua força, a sua criatividade, a sua esperança e a sua capacidade de se reinventar.

E ao poder, seja ele qual for, deixo esta interpelação direta: governar não é apenas vencer eleições. Governar é responder pela vida concreta das pessoas. Governar é criar condições para que os jovens possam estudar, trabalhar, constituir família, empreender, permanecer no país e acreditar no amanhã. Quem não compreende isso não está apenas a falhar uma geração; está a falhar Cabo Verde.

Chegou o tempo de romper o silêncio. Chegou o tempo de transformar indignação em ação cívica. Chegou o tempo de dizer, sem hesitação, que a juventude cabo-verdiana não está à venda, não está vencida e não está condenada.

Cabo Verde precisa de mudança. E essa mudança terá de começar onde sempre começaram as grandes transformações da história: na coragem dos jovens.

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