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Por: Arménio Vieira

AV

O Zé Luiz sugeriu-me a análise do seu novo livro [Rua Antes do Céu]. Fá-lo-ia com prazer caso tivesse tempo para o reler. Disse-lhe logo que tal obra, como as anteriores, exigia uma acuradíssima leitura, de todo impossível em escassos três dias. Para compensar, minimamente, escrevi um poema a ele dedicado, e ainda bem, já que a esse grande amigo eu nada tinha oferecido que valesse, salvo a amizade. Possa esse exercício poético não desagradar a quem o dedico, se não for pelo que vale ao menos pelo gesto.

ANTIPOEMA DA LUNAMAR

1.

Doravante...

Ninguém diga que a lua

É o luminar que alumia

Os negros trilhos

De um caminhante sem estrelas

Nem que o ébrio Dionísio 

É o pai de todos os monstros 

Sabido que o pénis de Apolo

É quem gerou a Hidra e o Leviatã 

2.

O Mar e a Lua: um exausto par

De murchos bailarinos 

Dançando a valsa 

Dum triste final de festa 

3.

Não obstante o desânimo

E a quase certeza de nada haver,

Tentei achar em tais lenhos

Um pingo de seiva,

Tentei ver se em tais ossos

Encontrava uma gota de sangue

 

Viajava à deriva

Entre infindos rochedos

E dragões do Inferno,

Pareceu-me que eu era um nauta [predestinado]

Para uma interminável odisseia

 

Até que, num instante,

De suprema loucura,

Achei que uma linha curva

Rima bem com um fio de prumo

 

Escrevi então, o poema

Ou melhor, o seu reverso

Zé Luiz, no seu virtual livro de estreia, Agreste Matéria Mundo, à semelhança de Ezra Pound, mas sem desprezar o seu país natal, desabusada e descomplexadamente, afirmava mais ou menos isto: sou um poeta que a europa refinou. Sendo Zé Luiz um aficionado dos grandes filmes de western, ele, num trajeto inverso ao do autor dos «Cantos Pisanos», metaforicamente falando, exilou-se no velho oeste e ali afinou a pontaria. Dito em termos reais, isso significa que ele o fez, primeiro para estudar, e depois para ter acesso a um bom número de bibliotecas e a grandes eventos culturais, ganhando também a possibilidade de viajar um pouco pela europa e pelo mundo.

Ultimamente, tenho conversado algumas vezes com o Zé Luiz, sobre um ror de coisas, sobretudo acerca de literatura. Numa conversa ocorrida há poucos dias, ele, um cliente regular do euromilhões, disse-me que não ambicionava ser rico, mas, caso a sorte o favorecesse, libertando-o do trabalho normal, teria a possibilidade de se entregar inteiramente à escrita, atividade para a qual se sentia compelido pelo destino. Não comentei na altura, mas faço-o agora, um pouco a brincar: quem nasceu a 10 de junho estava predestinado a ser um grande poeta. Por este lance de humor, estou certo que Zé Luiz me perdoará. Sentido de humor ele tem-no de sobra. Só não brinca enquanto escreve. Pousando a caneta, ele é bem capaz de homéricas gargalhadas. Um homem assim é duplamente imortal.

Zé Luiz «il miglior fabro» da nova geração». Moderno sem se apegar ao modernismo. Clássico sem se ater ao classicismo. Cabo-verdiano, mas caminhando fora das estreitas vias do passado. Um notável, incontornável poeta. A obra de José Luiz Tavares não é uma acumulação de pedras, é uma elaborada construção.

Só isto e termino: nas três últimas décadas, em Cabo Verde, José Luiz Tavares teve excelentes precursores, como sejam Mário Fonseca, em francês, João Vário, em português, e um terceiro, também em português, que a modéstia me proíbe de nomear. Todavia, a água que verdadeiramente mata a sede ele bebeu-a noutras fontes.

Arménio Vieira (Prémio Camões)



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