
A verdade é que os cabo-verdianos e as cabo-verdianas sentem, hoje, que foi uma década perdida, que o país em vez de ir para a frente andou às arrecuas em muitos e relevantes sectores. Desde logo, com a baixa acelerada do poder de compra e, em paralelo, o insuportável custo de vida que empurrou para a crise a própria classe média, cada vez mais depauperada. O país quer mudança por razões naturais de sobrevivência e porque as pessoas querem resgatar a esperança e alcançar o direito de serem felizes.
Independentemente de qualquer sondagem, boa parte delas falseadas ao gosto do freguês, há sinais que não mentem e que ajudam a fincar uma percepção sobre o desfecho da ida às urnas no próximo domingo.
A sondagem olhos-nos-olhos, a interação directa com as pessoas comuns, são o grande aferidor da noite das eleições e do futuro do país. E quem não vive na confortável bolha envernizada dos condomínios privados e dos restaurantes chiques da capital percebe logo o que anda no ar, o que parece ser o verdadeiro sentido do voto, mas, também, do nosso futuro colectivo.
E esse sentimento pode traduzir-se em poucas palavras: as pessoas querem mudança e pretendem empurrar o país para um novo ciclo político, que resgate Cabo Verde e reencontre os caminhos da esperança. É assim mesmo, simples e directo!
Durante esta governação, os cabo-verdianos foram levados a acreditar que o país estava no bom caminho, que a economia estava a crescer e a nossa democracia estava cada vez mais robusta. Para o efeito, para que o convencimento colectivo fosse mais eficaz, atiraram-nos à cara as estatísticas, os números dos supostos êxitos das políticas públicas. E, para justificar os percalços, exibiram as secas, a pandemia, as guerras e as crises internacionais.
Logo se percebeu que o crescimento da economia apenas se fazia sentir num reduzido número de bolsos, apenas os das ruas da frente e da cidade alta. E que a igualdade dos cidadãos perante a Lei, um direito constitucional e princípio civilizatório das chamadas democracias liberais, era mais igual debaixo de alguns tectos do que de outros.
Uma década perdida, com o país às arrecuas
A verdade é que os cabo-verdianos e as cabo-verdianas sentem, hoje, que foi uma década perdida, que o país em vez de ir para a frente andou às arrecuas em muitos e relevantes sectores. Desde logo, com a baixa acelerada do poder de compra e, em paralelo, o insuportável custo de vida que empurrou para a crise a própria classe média, cada vez mais depauperada.
A classe dominante, isto é, os ricos que sempre mandaram neste país, antes e depois da independência, que manobram na sombra os cordelinhos nos corredores do poder e exibem a suprema arrogância de debitar sobre o que é bom para os outros, para os que estão mais abaixo – entenda-se! -, é única classe que tem engordado mais e mais com esta governação.
Os ricos e os miseráveis que sempre votam contra si próprios, são os únicos que temem a mudança. Os primeiros por razões comestíveis, os segundos porque se contentam com as sobras do banquete. A maioria das pessoas está farta desta governação e desta maioria.
Disseram que eram diferentes e faziam diferente, mas, logo se percebeu que era para pior. Garantiram que não iriam pôr a linguiça no pescoço do gato, mas generalizaram o compadrio e a corrupção material e moral em toda a administração. Disseram que valorizavam o mérito e premiaram a incompetência. Disseram apoiar o empreendedorismo e que iam criar muito empregos, mas apenas empurraram toda uma geração para a emigração, criando uma legião de exilados económicos.
Um rasto de desolação, desesperança e promessas repescadas
Esta governação falhou em praticamente tudo e deixa um rasto de desolação e desesperança colectiva que, segundo se percebe, irá ter resposta firme nas urnas em 17 de maio.
O país quer mudança por razões naturais de sobrevivência e porque as pessoas querem resgatar a esperança e alcançar o direito de serem felizes.
Há um pormenor desta campanha que não é de somenos importância e gostaríamos de destacar. É aquela imagem do primeiro-ministro em São Nicolau, apanhando um barco de mercadorias para São Vicente, caso contrário teria de passar mais dois dias na ilha do Chiquinho.
Não porque seja um demérito para esse heroico Mar Liso, que sempre serviu durante décadas e nunca se permitiu passar vergonhas, receber o primeiro-ministro de Cabo Verde, mas porque é uma suprema vergonha para alguém que, numa década, não conseguiu resolver um problema estrutural do país e garantir o direito a transporte regular, de qualidade e seguro.
Independentemente dos posicionamentos políticos e ideológicos de cada um, é reconhecido que Pedro Pires, Carlos Veiga e José Maria Neves deixaram um legado assinalável para o desenvolvimento de Cabo Verde, O ainda primeiro-ministro não deixa nenhuma obra estrutural nem legado que fique para a História de Cabo Verde.
Na hora de fazer o balanço da sua governação, Ulisses Correia e Silva apenas tem a dar promessas repescadas, enterradas no mofo de uma década, e conversa fiada. Está na hora de ir embora e deixar o país resgatar a esperança.
A direção,
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